O Ceticismo Absoluto como corrente filosófica certamente atrapalharia qualquer investigação dos manuscritos antigos. No entanto, ao se comparar às milhares de traduções e os grandes comitês de tradução da Bíblia uma coisa fica evidente - os limites da inteligência humana - O filósofo grego Pirro que nasceu em 365 e morreu em 275 a.C., a quem se credita o estabelecimento do Ceticismo Absoluto concluiu que as diferentes opiniões manifestadas pelos homens sobre os mesmos assuntos evidenciam isso. Tal Ideia pode ser comprovada ao se verificar as tantas opiniões divergentes em favor deste ou daquele manuscrito.
Do ponto de vista doutrinal, são ainda mais destoantes, ainda que tenham se alimentado da mesma fonte intelectual à vida toda.
Com efeito, essas correntes de pensamentos têm sido uma doença degenerativa para as religiões. Tanto é que, muitos tradutores acrescentaram aos textos originais ideias próprias, como fez o filósofo Platão ao creditar a Sócrates ideias que na verdade eram suas. Vê-se que, muitos tradutores estavam realmente mal intencionados e por esse motivo, grandes comitês de tradução foram estabelecidos séculos afora para garantir a autenticidade do trabalho. Considerando que, poucos são aqueles que conhecem a relevância desta tarefa, achei por bem comentar a cerca dum dos mais célebres comitês da história da Bíblia.
Há 400 anos atrás principiou sob a batuta de Lancelot Andrews uma das maiores autoridades do saber do seu tempo, o comitê de tradução da King James Version16. Ele dirigiu este comitê constituído por 54 tradutores de igual peso em notoriedade e habilidades linguísticas. A extraordinária envergadura da sua genialidade estava no conhecimento das línguas originais. É comum ouvir, entre os versados no assunto que Mr. Andrews
falava duas dezenas de línguas com a mesma fluência do seu idioma materno.
Sabe-se que, embora várias versões e traduções, às vezes, representadas por um único autor a exemplo da Vulgata Latina de Jerônimo ou a Bíblia de João Ferreira de Almeida não são fruto de um trabalho solitário. A versão mais antiga das escrituras dos Hebreus - a Septuaginta- foi traduzida para o grego por 72 eruditos judeus das 12 tribos de Israel como mencionado anteriormente. A tradução de J. F.de Almeida só pode ser concluída graça ao empenho de Jacobus Akker e seus colaboradores após a morte do próprio J. F. de Almeida.
Do mesmo modo, o comitê de notáveis da versão King James perdeu 7 dos 54 escolhidos, antes que a versão fosse efetivamente terminada. É sabido que todos esses tradutores eram protestantes e foram divididos em 6 grupos que se subdividiam em outros 3 localizados em Westminster, Cambridge e Oxford. A fim de evitar biografias extensas e desnecessárias aqui delinearei somente algumas referências do curriculum vitae de alguns destes nobres cavalheiros da Coroa Britânica.
A experiência em hebraico de 13 anos como catedrático na universidade capacitou John Harding a estar entre os escolhidos.
Não menos importante era Edward Lively um formidável linguista especializado nas línguas orientais. Expert em Latim, Grego e Hebraico Lawrence Chaderton era um fervoroso pregador, impar no Grego antigo. Um outro notável foi o Dr.
Henry Saville que por sua genialidade em grego, latim, Caldeu, árabe e hebraico foi escolhido como tutor da rainha Elizabete durante o reinado do seu pai Henry VIII. Coube ao Dr. Miles Smith o prefácio da versão King James que evidenciava claramente que o tipo de inglês falado e escrito dos tradutores
James, coisa que veio acontecer em 1881 após a convocação de Canterbury. Entre a Versão King James de 1611 e a Versão King James Revisada de 1881 existem duas diferenças básicas. A primeira é que os tradutores da Versão King James optaram pelo texto hebraico do Velho Testamento Ben Chayyim17 produzido pelos Masorás i.e., um grupo de doutores em tradição Judaica.
Para o Novo Testamento, o Textus Receptus18 anteriormente usados pelos primeiros cristãos.
Outrossim, nenhum deles nunca duvidou da inspiração divina das Escrituras Sagradas. Por outra parte, os tradutores da Versão King James Revisada optaram pelos manuscritos Alexandrinos, ou seja, o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus considerados fraudulentos e alterados pelos copistas egípcios. Alguns teólogos são unânimes em afirmar que B.F. Westcott duvidava dos milagres realizados por Jesus Cristo como ele próprio teria confessado. John Hort era um evolucionista que julgava inaceitável a criação segundo o Livro de Gênesis. Tanto que Charles Dawrvin pareceu-lhe mais convincente ao explicar a criação no seu livro - A Origem das Espécies.
Bom dizer que, os outros tradutores não fogem a regra, todos têm um histórico semelhante. Historicamente todos os comitês de traduções têm sido divergentes. A cada nova versão ou tradução uma surpresa para o crente. Parece não haver fim nos erros cometidos ao se traduzir as Sagradas Escrituras. Salvo mui poucos casos onde certos termos são impossíveis de traduzir nos manuscritos mais antigos, a grande maioria não são o que se poderia chamar de “erros de tradução”, mais fraudes. Talvez, a mais brutal do ponto de vista doutrinal esteja no Livro de Tiago no capítulo 5 versículo 16. Não há dúvida de que os copistas católicos na ânsia de salvaguardar o papel proeminente dos padres dentro da hierarquia da igreja substituíram a palavra grega praptomaata por hamartia acintosamente.
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Acontece que no texto grego original do livro de Tiago
“praptomata” significa simplesmente “culpa” ao passo que
“hamartia” quer dizer “pecados”. Desse modo fica óbvio que Tiago disse que se deve confessar uns aos outros as faltas/erros cometidos contra a própria pessoa. Isso implica dizer que somente a pessoa que foi ofendida pode de fato perdoar, nunca um terceiro, i.e., um padre como sustenta a Igreja. Os tradutores da KJV extraíram a partir do texto original como segue:
“Confess your faults one to another, and pray one for another that ye may be healed. The effectual fervent prayer of a righteous man availeth much”19.
Essa tradução é perfeitamente fiel ao texto da Carta de Tiago, e, portanto não há a mais vaga ideia de que se deve confessar a um padre falhas cometidas contra outras pessoas, senão a elas mesmas. No entanto ao introduzir a palavra hamartia no lugar de praptomata criou-se a ideia de que os pecadores deveriam confessar seus pecados aos padres. Por conseguinte, algumas sociedades bíblicas modernas parecem ignorar o óbvio, uma vez que culpa e pecado são duas coisas bem distintas uma da outra.
Numa tradução dita “en francais courant ” 20pode-se ver isso nitidamente. Compare:
“Confessez donc vos péchés lês uns aux autres, afin d’être guéris.
La prière fervente d’une personne juste a une grande efficacité”21.
Não precisa ser nenhum filólogo para se perceber que o comitê de tradução da King James Version foram fidelíssimos ao traduzir praptomata como faults, ao passo que o comitê francês em nome
tem a mesma conotação da palavra grega empregada no texto original por São Tiago.
CAPÍTULO XVII