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Dos corpos e dos trajetos trans* em três narrativas contemporâneas

Jair Zandoná (UFSC/CAPES)46

In-visibilidades: algumas considerações

Minha leitura tem como ponto de partida o que Beatriz Resende apresenta acerca da literatura brasileira na ―era da multiplicidade‖. A pesquisadora toma como marco os anos de 1990 e a primeira década do século XXI, quando percebemos que modelos, conceitos e espaços antes ―familiares‖ são agora deslocados e desestabilizados. Nesse – e desse – ―novo‖ cenário, evidencia-se a heterogeneidade, a pluralidade, o uso de diferentes linguagens. Passamos a divisar a cultura como fenômeno de hibridização, além da manifestação de discursos contra-hegemônicos. A recente e recentíssima produção literária – e, portanto, estamos tratando de publicações que não passaram pelo cômodo ―veredicto das eras‖ mencionado por René Wellek e Austin Warren em Teoria da literatura e metodologia dos estudos literários – tem em comum alguns aspectos tais como: a presentificação, o retorno ao trágico e o excesso de realismo.

É nesse contexto que incluo as produções de Marcelino Freire, de Carlos Henrique Schroeder, e de Alexandre Vidal Porto. Modos diversos de propor subjetividades, de vidas, de/em cenários – normalmente muito – pouco acolhedores. São narrativas que tratam

46 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal

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de corpos considerados abjetos (e não objetos de atenção e nem de afeto). Nesse sentido, vale retomar sobre o corpo estranho delineado por Guacira Lopes Louro:

Queer é tudo isso: é estranho, raro, esquisito. Queer é, também, o sujeito da sexualidade desviante – homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis, drags. É o excêntrico que não deseja ser integrado e muito menos tolerado. Queer é um jeito de pensar e de ser que não aspira ao centro e nem o quer como referencias; um jeito de pensar que desafia as normas regulatórias da sociedade, que assume o desconforto da ambiguidade, do entre lugares, do indecidível. Queer é um corpo estranho que incomoda perturba, provoca e fascina. (LOURO, 2004, p. 57).

São corpos estranhos. Mas também são corpos-fantasmas, que não se adequam aos padrões socialmente aceitos e, por isso, são corpos – e sujeitos – desterrados. Na próxima seção tratarei das narrativas Sergio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto; As fantasias eletivas, de Carlos Henrique Schroeder; e Mulheres trabalhando, de Marcelino Freire; respectivamente.

Nas textualidades contemporâneas: corpos que escapam

Quando Sergio Y. parte

Sergio Y.[acoubian] apenas ―encontra‖ Sandra após uma viagem de férias a Nova York. O enredo é elaborado através dos registros médicos e pelo exercício de rememoração do narrador, Armando – experiente psiquiatra com quem Sergio Y. fez terapia –, e da investigação que o médico realizou após a estarrecedora notícia da morte de seu ex-paciente. Segundo ele, ao retomar os registros de seus encontros semanais, ―um dos temas recorrentes em nossas conversas era seu bisavô, Areg, que decidira deixar a Armênia e imigrar para o Brasil. Outra referência constante era sua condição de

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infelicidade‖ (PORTO, 2014, p. 29). Para o narrador, Sergio achava possuir uma natureza deprimida, motivo pelo qual desejava ―entender a genealogia de sua infelicidade inelutável com o objetivo [...] de superá-la.‖ (PORTO, 2014, p. 29). Seu bisavô embarcara em um navio aos 16 anos e chegou em Belém do Pará em março de 1915. A festa de comemoração de seus 100 anos e o discurso proferido pelo aniversariante foi contundente para que confrontasse seu estado infeliz. Sobre esse evento, os registros da sessão são importantes porque Sergio recupera as palavras de Areg:

Agora, que já completei cem, sei que a vida é muito curta para ser triste. Ter uma vida feliz é ter mais dias felizes que dias tristes. Então, o conselho que deixo para os mais novos é: tentem sempre fazer seus dias felizes. O que conta é ter o maior número possível de dias felizes. (PORTO, 2014, p. 39)

De acordo com Armando, a terapia seguia de maneira proveitosa, considerava seu paciente uma figura interessante. Durante o período de tratamento, apenas interromperam as sessões no período de férias. Armando havia sugerido que, enquanto Sergio estivesse em Nova York, visitasse o Museu da Imigração Ellis Island, uma vez que ele gostava de ―histórias de coragem‖ e poderia conhecer mais sobre os imigrantes, ver seus objetos, memórias materializadas que permanece[ra]m47.

Após retornar para o Brasil, Sergio agradeceu a indicação do museu, presenteou-o com algumas lembranças e informou que gostaria de encerrar a terapia. Embora Armando relate sua

47 Como lembranças da viagem, Sergio presenteou Armando com uma edição

bilíngue de O livro do desassossego, de Bernardo Soares, semi-heterônimo de Fernando Pessoa – elemento curioso ao pensarmos sobre as questões das identidades fragmentadas que o projeto da coterie pessoana empreendeu – e uma gravura de um navio antigo comprada em Ellis Island.

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estupefação pelo término inesperado do tratamento, assentiu com a decisão do paciente. Confessa ter se sentido incomodado com isso. Mas Sergio havia lhe informado que tivera uma ―revelação‖ durante sua viagem e havia descoberto um modo de ser feliz. Depois desse evento, Armando nunca mais soubera dos rumos de Sergio Y. Aproximadamente quatro anos depois encontrou Tereza, a mãe de seu ex-paciente em um supermercado. Para sua surpresa, foi interpelado por ela para agradecer-lhe por tê-lo ajudado:

O senhor ajudou tanto o meu filho. Nem sei como agradecer todo o bem que o senhor fez pelo Sergio. Foi por isso que tomei a liberdade de lhe falar. O senhor foi muito bom para o meu filho. Eu queria lhe agradecer. Não queria perder essa oportunidade. Muito obrigada, mesmo. (PORTO, 2014, p. 50).

A citação é interessante porque as palavras de Tereza são importantes, pois assim soube da mudança para Nova York, da finalização do curso de gastronomia e que se preparava para abrir seu próprio restaurante. Além disso, a mãe acrescentou: ―[m]udou a vida completamente. Se o senhor o encontrar, não vai nem reconhecer.‖ (PORTO, 2014, p. 50).

Esse encontro parecia tê-lo acalmado quanto ao incômodo anterior com a interrupção da terapia. Sentia-se satisfeito por ter ajudado Sergio, embora não tivesse certeza de qual maneira. Contudo, esse sentimento se esvaneceu algum tempo depois quando Armando leu a notícia sobre o falecimento do ex-paciente. A nota jornalística é importante para elaborarmos algumas ponderações:

Na manhã da última quinta-feira, a polícia de Nova York encontrou o corpo de Sergio Yacoubian, filho do empresário Salomão Yacoubian. Sergio tinha vinte e três anos e vivia em Manhattan, onde era dono de um