Ciência e feminismo: reflexões a partir do campo de pesquisa
4. Os conhecimentos situados e a perspectiva feminista
O aspecto em comum na opressão pode ser uma das conclusões da epistemologia feminista de que significa uma ―vantagem epistêmica‖. Porém, Uma Narayan refuta essa ideia:
A teoria feminista tem de ser moderada no uso que faz dessa doutrina da "dupla visão" — a afirmação de que os grupos oprimidos têm uma vantagem epistêmica e acesso a um espaço conceitual crítico maior. Certos tipos e contextos de opressão certamente podem corroborar a verdade dessa asserção. Outros parecem não fazê-lo e, mesmo se propiciarem espaço para visões críticas, poderão também excluir a possibilidade de ações que subvertam a situação opressiva (NARAYAN, 1997, p. 289).
Em sua visão, não é algo tão simples e o fato de se ter acesso a contextos diferentes e incompatíveis não é garantia de que resultará dele uma postura crítica por parte do indivíduo (NARAYAN, 1997). Diante disso, reitero que o fato de eu ser mulher e partilhar de uma série de opressões não me proporciona uma vantagem epistêmica,
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mas sim o que argumentarei como perspectiva feminista, trabalhada por Sandra Harding (1987a; 1987b).
A historiadora polonesa Ilana Löwy (2000) problematiza a universalidade da ciência, do saber e dos valores universais, colocando que pode excluir e esconder situações de dominação. Essa problemática pode ser associada também à racionalidade e à objetividade. Como alternativa aos problemas que a universalidade, a racionalidade e a objetividade dos saberes podem trazer, ela defende uma perspectiva que me parece mais real, que é a da aceitação dos conhecimentos ―situados‖, produzidos por indivíduos que tomam posição por um certo mundo e recusam outros. Para ela, uma ciência fundada nos conhecimentos situados pode ser uma alternativa a dois perigos simétricos, que são o totalitarismo de uma visão única e o relativismo.
Diante disso, encaro que a produção que tenho desenvolvido desde a escrita da tese de doutorado parte de um conhecimento situado, pois além de ter me tornado integrante do campo de pesquisa, estive inserida ao longo de boa parte da minha vida acadêmica em contextos de movimentos sociais, o que me faz olhar para o movimento feminista de uma maneira familiar. Além disso, fiz parte da equipe de organização da III Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres de Pernambuco, realizada em outubro de 2011. Muitas das pautas ou formas de agir nos diferentes espaços estudados, as reuniões dos Conselhos de Direitos da Mulher e as do FMPE, não me eram estranhas. O histórico nesses lugares, inclusive, foi fundamental para uma relação de confiança com as mulheres, pois me viam como alguém já conhecida.
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O que Löwy aborda é semelhante à teoria da perspectiva feminista, trabalhada por Sandra Harding, que pressupõe a existência de uma obrigação epistemológica e ética de grupos dominantes teorizarem, de forma rigorosa, sobre suas posições como sujeitos de conhecimento socialmente situado (HARDING apud HIRSH; OLSON, 2009). Em entrevista concedida a Elizabeth Hirsh e Gary A. Olson (2009), Harding defende que uma pesquisadora precisa alcançar uma reflexividade forte como um pré-requisito para uma objetividade forte. Ambas as características estão relacionadas a um método mais forte. Em sua perspectiva, o fato de que o observador muda e interage com aquilo que é observado não é necessariamente negativo para os resultados da pesquisa. Pelo contrário, pode, inclusive, ser usado de uma maneira positiva, tratando-se de compreender que é possível que utilizemos os recursos do lugar de onde falamos para que alcancemos uma objetividade e um método mais forte para que, assim, consigamos uma reflexividade forte (HARDING apud HIRSH; OLSON, 2009). Isso se contrapõe à ciência cartesiana, dualista, em que a subjetividade é vista como um empecilho para a confiabilidade e qualidade da pesquisa.
Harding explica que ter um conhecimento socialmente situado ou usar o lugar de onde se fala como recurso implica que: ―A objetividade forte requer que nós desenvolvamos um olhar crítico em relação aos esquemas conceituais e quadros de referência que perfazem a nossa localização social‖ (HARDING apud HIRSH; OLSON, 2009). Em sua perspectiva, o ―Eu, Sandra Harding, mulher branca...‖ é uma questão, mas o problema mais geral é o de como os
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esquemas conceituais que ela está usando foram moldados de forma a se adequarem aos problemas das mulheres brancas no Ocidente.
Dessa forma, reflito como a minha formação de cientista social se deu a partir de autores e autoras majoritariamente do norte global e qual a implicação disso no meu fazer científico. As teorias utilizadas no presente estudo são europeias e estadunidenses, portanto, dos países historicamente dominantes. A partir dessa compreensão, faço o esforço para desenvolver a objetividade forte, tal qual defende Harding na entrevista concedida a Hirsch e Olson:
Aqueles de nós que estamos em tais posições dominantes estamos em posição dominante: nossas vozes têm muito poder, e isso é um recurso. É triste que o mundo seja organizado hierarquicamente, que nós tenhamos relações de poder; mas dado que temos, eu acho que aquelas pessoas que têm salas de aulas nas quais ensinar e cujos artigos são aceitos em revistas do mundo inteiro, e cujos editores publicam seus livros, constituem um recurso local que nós podemos usar de formas científica e politicamente progressivas (HARDING apud HIRSH; OLSON, 2009).
Harding defende que um método feminista forte é uma abordagem política e ciência e política sempre estiveram íntima e intrinsecamente relacionadas. Refletindo a partir das ideias sobre o meu campo de pesquisa em específico, não considero que apenas mulheres poderiam fazer esse tipo de estudo. Não estou tratando aqui de experiências e subjetividades do ser mulher. Mas, o fato de ser uma pesquisadora imersa em um campo de estudo ocupado por mulheres certamente significou uma abertura dos espaços e das pessoas para uma relação de confiança comigo.
Compreendo que o que faço ao longo deste trabalho parte principalmente de minhas experiências como mulher no dia-a-dia
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em uma luta constante contra os machismos em suas diversas esferas – inclusive, acadêmicas – e, sobretudo, como militante dos movimentos sociais. Ao estar em espaços ditos ―mistos‖, ocupados por homens e mulheres, as nossas exclusões tornam-se muito claras para mim. Pautas entendidas como específicas, a exemplo da luta em torno da legalização do aborto ou de reivindicação de creches, muitas vezes são deixadas de lado em nome de uma luta colocada como ―maior‖, que, para alguns grupos, é a de classes. É justamente por ser uma mulher imersa no contexto de lutas sociais que me fez olhar para o processo do impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff e enxergar que, dentre diversos fatores, havia fortes componentes machistas e misóginas. Ao mesmo tempo em que via aquilo tudo na posição de uma militante feminista, realizava a pesquisa de campo nas conferências e exercia a função de pesquisadora. Percebi claramente que não há como separar essas duas esferas, porém tive algumas crises com esses papéis, que foram oriundas de uma formação que nos coloca como algo negativo partirmos de nossas experiências no mundo para pensarmos as próprias perspectivas como sociólogos e sociólogas. Ao perceber que não fazia sentido essa distinção e afirmar em reuniões com outros coletivos e movimentos que eu poderia me colocar como militante feminista que integra o FMPE, fiquei mais à vontade no campo, conquistei a confiança de muitas integrantes e, no decorrer do tempo, pude ter acesso, por exemplo, a documentos e a compreender a história daquele sujeito político.
Recorro também a Dotothy Smith (1987) que, embora não recorra à mesma denominação que Sandra Harding, ambas convergem no que entendem por fazer ciência a partir das
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mulheres. Enquanto a primeira usa ―perspectiva das mulheres‖, a segunda nomeia ―perspectiva feminista‖. Uno os dois neste trabalho, pois na condição de mulher imersa no meio científico, proponho pesquisas com um olhar de quem questiona as desigualdades de gênero e reflete sobre a posição das mulheres na sociedade.
Sandra Harding resume o que, em minha concepção, são as questões em torno da epistemologia feminista:
Uma vez que nos comprometemos a usar a experiência das mulheres como um recurso para gerar problemas científicos, hipóteses e evidências, para projetar pesquisas para mulheres e colocar o pesquisador no mesmo plano crítico que o sujeito de pesquisa, os pressupostos epistemológicos tradicionais não podem mais ser feitos (HARDING, 1987b, p. 181).
A autora questiona quem pode ser conhecedor (apenas homens?), o que pode ser conhecido (somente o que os homens observam?), quais devem ser os propósitos do conhecimento (para produzir informações para os homens?). A epistemologia feminista nos coloca frente a essas questões e problematiza o caráter pretensamente neutro e universal do conhecimento científico. Ter isso em conta é de grande importância para refletir a partir do tipo de estudo que venho realizando desde o período doutoral.
A socióloga italiana Laura Terragni (2005) observa que a experiência das mulheres no nível em que elas estão constitui o ponto de partida da análise feminista. Conceitos tradicionais associados à ciência defendem que quem faz pesquisa deve manter um distanciamento e objetividade para garantir o registro objetivo
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do fenômeno estudado. Porém, a autora chama a atenção para o fato de que:
Na lógica feminista, o distanciamento do observador não só é considerado ‗impraticável‘, mas também como um limite ao processo de conhecimento. A aproximação com o próprio objeto de estudo não apenas parece coerente com as práticas que o feminismo vem desenvolvendo, mas o provar emoções, o saber reconhecê-las e compreendê-las são consideradas como um recurso importante na compreensão do fenômeno estudado (TERRAGNI, 2005, p. 148).
Esse tipo do estudo me permite refletir a fundo sobre minhas expectativas em relação à pesquisa, as minhas experiências e, mesmo, os meus preconceitos como pesquisadora. Cito um exemplo em que me emocionei: ao estar presente na Conferência Livre ―Pela Vida das Mulheres‖, realizada no dia 07 de dezembro de 2015 no Recife, e organizada exclusivamente por movimentos sociais, vi alguns depoimentos das mulheres de realidades tão distantes da minha, que sempre estive numa condição de privilégio social, como apontei anteriormente neste texto. É o caso do depoimento de uma pescadora que relatou a devastação ambiental que a fábrica da Fiat, tão colocada como sinônimo de progresso, tem gerado no município onde ela vive, em Goiana. A poluição tem atingido o local de pesca das mulheres e estas têm desenvolvido doenças ginecológicas pelo contato com a água. Como ouvir um depoimento desse tipo e não pensar na minha condição como mulher? Como registrar no diário de campo apenas aquela fala sem colocar uma mensagem de indignação por todo o descaso conosco, sujeito coletivo? Concordo, pois, com o que Sandra Harding argumenta em relação a uma característica distintiva da pesquisa feminista ser a de que gera as
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suas problemáticas a partir da experiência das mulheres (HARDING, 1987a). Isso não quer dizer, porém, que apenas mulheres possam fazer uma pesquisa feminista. Ao refletir sobre a relação entre mim e o que eu estava estudando, deparo-me com dificuldades ao longo deste percurso. Isso me mostra a importância de fazer uma reflexão metodológica como parte da objetividade forte a qual Harding trabalha.
5. Considerações finais
Considero que o processo de construção de uma tese como um todo, desde o refletir sobre o que será a pesquisa e questionar-se sobre o que nos inquieta até a escrita em si do trabalho não é resumido à neutralidade científica. Mas, isso nem sempre esteve nítido para mim e, durante muito tempo, acreditei que seria possível chegar ao campo de pesquisa e observar tudo, registrar no diário de campo, fazer fotografias quando fosse possível e voltar para casa sem que aquelas questões atravessassem minha existência, envolvessem de uma maneira subjetiva o meu fazer científico. Porém, a observação participante, além de ter sido feita em espaços que remetem diretamente às questões quevivencio cotidianamente como mulher, ainda aconteceu num período extremamente complicado no Brasil, em 2015 e 2016. Acompanhar de perto manifestações contra o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, por conta do PL 5069/2013, que restringia o atendimento às mulheres em situação de violência sexual, no que ficou conhecido por Primavera Feminista, ou mesmo as movimentações contra o impeachment de Dilma Rousseff junto às feministas, que estavam além do próprio campo de pesquisa – os espaços de construção das
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Conferências de Políticas para as Mulheres no Recife e em Pernambuco – foram demonstrações, para mim, que não seria possível separar a pesquisadora da cidadã incomodada com todo o contexto e que precisava se engajar. Percebi que, assim como afirma Laura Terragni (2005), na lógica feminista, o distanciamento entre mim e o que eu estava observando não seria um limite ao processo de conhecimento. Quando tive a compreensão disso e me permiti fazer parte do campo que eu estava estudando, percebi que conquistei mais confiança com as mulheres e tinha acesso fácil a elas, sejam as do movimento feminista ou as que estavam nos espaços governamentais.
Diante disso, julgo extremamente necessária a discussão acadêmica sobre que questões a epistemologia feminista nos mostra. Ao me dar conta de que não haveria problema em me identificar e verbalizar que havia me tornado uma ativista da causa das mulheres, consegui assumir sem crise a identidade de pesquisadora feminista que, assim como as autoras que expus ao longo deste texto colocam, está relacionada ao fazer ciência a partir das mulheres, de conhecimentos ―situados‖, permeada por uma reflexividade forte. Isso fez que eu trouxesse à tona exemplos empíricos do que vivenciei no campo de pesquisa e de como impactaram em questões subjetivas minhas. Reportar essas e outras situações na tese, em minha concepção, foram parte da objetividade forte, sobre a qual Harding aborda. Não é apenas o fato de ser mulher branca que me coloca na posição de reflexão sobre as desigualdades de gênero e de raça, mas considero que as relações que construí ao longo da pesquisa e do próprio campo de estudo foram fundamentais para essa identificação com as transformações sociais. Diante disso, hoje
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considero que passei do ―fazer ciência enquanto feminista‖ para o ―fazer uma ciência feminista‖, tal como aborda Cecília Sadenberg e considero esse um debate fundamental na academia como um todo, envolvendo tanto as mulheres quanto os homens. É importante aprofundar a discussão epistemológica em torno de pesquisas que envolvam o pensar problemáticas que envolvam as mulheres, levando em consideração dimensões de gênero, raça e classe. Isso, em minha perspectiva, pode contribuir bastante para a prática científica.
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