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Dos deveres das partes e dos seus procuradores

Capítulo 3 Das partes e dos procuradores

18. Dos deveres das partes e dos seus procuradores

18.1. Dos deveres

O Código de Processo Civil em vigor deu realce aos chamados princípios éticos do processo, destacando o dever da lealdade que deve imperar entre as partes.

O Código partiu da ideia de que as partes em conflito, além do interesse material da declaração de seus direitos, exercem também importante função de colaboração com a justiça no sentido da reta aplicação da ordem jurídica. Esses princípios éticos aparecem realçados em diversas passagens do Código, como, por exemplo, no rol dos de- veres, na definição do litigante de má fé, na responsabilidade por dano causado pelo processo, na enumeração dos atos atentatórios à dignida- de da justiça e outros.

Nos termos do art. 14 do Código de Processo, compete às partes e a todos que participam do processo: expor os fatos em juízo confor-

me a verdade (I); proceder com lealdade e boa fé (II); não formular pretensões nem alegar defesa, cientes de que são destituídas de funda- mento (III); não produzir provas nem praticar atos inúteis ou desneces- sários à declaração ou defesa do direito (IV); cumprir com exatidão os provimentos mandamentais e não criar embaraços à efetivação de pro- vimentos judiciais, de natureza antecipatória ou final (V).

A Lei n. 10.358/2001 modificou o texto do caput do art. 14 e acrescentou-lhe o inciso V, já mencionado, e o parágrafo único, assim transcrito:

“Art. 14. São deveres das partes e de todos aqueles que de qualquer forma participam do processo:

... Parágrafo único. Ressalvados os advogados que se sujeitam exclu- sivamente aos estatutos da OAB, a violação do disposto no inciso V deste artigo constitui ato atentatório ao exercício da jurisdição, poden- do o juiz, sem prejuízo das sanções criminais, civis e processuais ca- bíveis, aplicar ao responsável multa em montante a ser fixado de acordo com a gravidade da conduta e não superior a 20% (vinte por cento) do valor da causa; não sendo paga no prazo estabelecido, con- tado do trânsito em julgado da decisão final da causa, a multa será inscrita sempre como dívida ativa da União ou do Estado”.

Todas essas normas podem ser reduzidas ao princípio básico de que todos devem colaborar com a administração da justiça, fazendo valer as suas razões, mas sem o emprego de subterfúgios ou atitudes antiéticas. Isto não quer dizer que a parte fique tolhida no exercício de todas as faculdades processuais; o que não pode é abusar do direito de exercê-las.

No direito brasileiro, tem sido pouco desenvolvido o tema da leal- dade processual; o Código quis, porém, destacá-la porque é impossível a separação do processo dos princípios de conduta moral. Além da enumeração do art. 14, o Código prevê outros deveres éticos da parte, como, por exemplo, comportar-se convenientemente em audiên cia (art. 445, II), não atentar contra a dignidade da justiça (art. 599, II), bem como tratar testemunhas com urbanidade (art. 416, § 1º) e tratar-se reciprocamente também com urbanidade (art. 446, III).

No que concerne à linguagem a ser utilizada no processo, proíbe o Código às partes e seus advogados o emprego de expressões injurio-

sas nos escritos apresentados no processo, cabendo ao juiz, de ofício ou a requerimento do ofendido, mandar riscá-las. Se tais expressões forem proferidas em defesa oral, o juiz advertirá o advogado de que não as use sob pena de lhe ser cassada a palavra. Ainda aqui, é preciso repetir que não deseja o Código que o advogado fique cerceado no seu dever funcional de usar de todos os meios de que dispõe para a defesa de seu cliente, nem mesmo está proibida a discussão acalorada ou a declaração de certas verdades que às vezes necessitam ser ditas e podem parecer injuriosas. Como se sabe, o advogado tem imunidade penal quanto à alegação de fatos de que necessita para a discussão da causa, chamada jus conviciandi (CP, art. 142)3. Todavia, a calúnia ou a ofensa

gratuita estão proibidas ainda que no acalorado debate da demanda.

18.2. Da responsabilidade das partes por dano processual

No sistema do Código anterior, em sua redação primitiva de 1939, os honorários de advogado estavam ligados à atividade judicial indevi- da; mais tarde adotou-se no Brasil o chamado princípio da sucumbên- cia, segundo o qual as partes respondem pelas despesas processuais, inclusive honorários de advogado, desde que percam a demanda, este- jam ou não usando abusivamente do meio jurisdicional. O Código vi- gente reiterou o princípio da sucumbência e separou as hipóteses de dano causadas pela má-fé. Assim, aquele que pleitear com dolo, isto é, com intenção de causar prejuízo, responde por perdas e danos em favor do prejudicado. As hipóteses em que o Código considera a parte liti- gante de má-fé estão relacionadas no art. 17 com a reda ção dada pela Lei n. 6.771/80 e pela Lei n. 9.668, de 23 de junho de 1998, que acres- centou mais um inciso (o VII), nos seguintes termos:

“Art. 17. Reputa-se litigante de má-fé aquele que:

I — deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato incontroverso;

II — alterar a verdade dos fatos;

III — usar do processo para conseguir objetivo ilegal;

IV — opuser resistência injustificada ao andamento do processo;

3. Código Penal, art. 142: “Não constituem injúria ou difamação punível: I — a ofensa irrogada em juízo, na discussão da causa, pela parte ou por seu procurador; II — ...”.

V — proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo;

VI — provocar incidentes manifestamente infundados;

VII — interpuser recurso com intuito manifestamente protelatório”. Além de algumas alterações redacionais em relação ao artigo pri- mitivo, as modificações feitas pelas leis mais recentes foram no senti- do de suprimir o antigo inc. III, que considerava também ser litigante de má-fé aquele que omitisse intencionalmente fatos essenciais ao julgamento da causa, e acrescentar que se trata de litigância de má-fé a interposição de recurso com intuito manifestamente protelatório. Ora, a nova lei considerou, especialmente em virtude das regras do ônus da prova, que compete a cada parte trazer aos autos os fatos relevantes para defesa do seu direito, inexistindo, por conseguinte, má-fé se uma das partes deixa de indicar todos os fatos eventualmente relevantes ao julgamento da causa, ainda que intencionalmente.

O litigante de má-fé será responsabilizado por perdas e danos, de ofício ou a requerimento, indenizando a parte contrária dos prejuízos que esta sofrer, além dos honorários advocatícios e todas as despesas que efetuou. Quando forem dois ou mais os litigantes de má-fé o juiz condenará cada um deles na proporção do seu respectivo interesse na causa ou condenará solidariamente aqueles que se coligaram para lesar a parte contrária. Verifica-se, pois, que não há necessidade de uma nova ação de indenização. Demonstrado o fato da má-fé, na própria senten- ça o juiz decidirá a respeito, impondo a condenação do responsável em quantia desde logo fixada, não superior a 20% sobre o valor da causa. Se o juiz, apesar de convencido da má-fé e do prejuízo, não tiver ele- mentos para declarar desde logo o valor da indenização, mandará li- quidá-la por arbitramento na execução que se seguir.

18.3. Das despesas e das multas, dos honorários de advogado

Uma justiça ideal deveria ser gratuita. A distribuição da justiça é uma das atividades essenciais do Estado e, como tal, da mesma forma que a segurança e a paz públicas, não deveria trazer ônus econômico para aqueles que dela necessitam. Todavia, inclusive por tradição his- tórica, a administração da justiça tem sido acompanhada do dever de pagamento das despesas processuais, entre as quais se inclui o das custas, que são taxas a serem pagas em virtude da movimentação do aparelho jurisdicional.

Pela sistemática do Código de Processo, todas as despesas proces- suais, ao final, serão pagas pelo vencido, segundo o princípio da su- cumbência.

O Código, para disciplina do assunto, traz diversas disposições, inclusive quanto ao adiantamento das despesas até a decisão da causa. Em primeiro lugar, o Código libera do pagamento das custas os casos de justiça gratuita concedida àqueles que não tenham condições de prover as despesas do processo sem prejuízo do próprio sustento. Ali- ás, esse princípio está consagrado no art. 5º, LXXIV, da Constituição Federal, que determina que será concedida assistência judiciária aos necessitados na forma da lei. A assistência judiciária e a isenção de custas e despesas processuais são reguladas pela Lei n. 1.060, de 5 de fevereiro de 1950, com as suas modificações posteriores, que facilitaram a concessão do benefício.

Em geral, gozarão do referido favor os pobres no sentido jurídico do termo, isto é, aqueles cuja situação econômica não lhes permita pagar as custas do processo e os honorários de advogado sem prejuízo do sustento próprio ou da família.

A assistência judiciária compreende as isenções das taxas, dos emo- lumentos e custas, das despesas com publicações, das indenizações de- vidas às testemunhas e também dos honorários de advogados e peritos, inclusive para exame do DNA (Lei n. 10.317/2001). A isenção pode ser temporária, isto é, para que a parte possa desenvolver os atos processuais independentemente de adiantamento, mas sem prejuízo do pagamento dos encargos ao final. Paralelamente à dispensa desses encargos, com- pete ao Estado manter advogados públicos para o atendimento dos ne- cessitados, o que é feito em alguns Estados pelos advogados ou procu- radores do Estado e, em outros, pelos chamados defensores públicos.

Nas comarcas onde não há representante oficial da administração para a advocacia dos necessitados, poderá ser nomeado qualquer advo- gado. Recentemente, a Ordem dos Advogados do Brasil considerou não ofender ao Código de Ética a recusa do advogado em patrocinar as causas de necessitados se o Estado não vem a ressarcir as despesas decorrentes de sua atividade, porque o dever de atendimento aos ne- cessitados é do poder público e não pode ser repassado ao advogado, pessoa natural privada.

Salvo, portanto, as disposições concernentes à justiça gratuita, cabe às partes prover as despesas dos atos que realizam ou requerem no

processo, antecipando-lhes o pagamento desde o início até a sentença final, e bem ainda, na execução, até a plena satisfação do direito de- clarado pela sentença.

A forma de pagamento das custas e o seu valor estão disciplinados nos Regimentos de Custas baixados por leis estaduais no caso da Jus- tiça Estadual e por leis federais no caso da Justiça Federal e Justiças especiais mantidas pela União.

O Código exige que o pagamento seja antecipado, mas não quer dizer que para cada ato deva existir um pagamento fracionado. Certos regimentos de custas estabelecem desde logo um pagamento por ocasião do ingresso da petição inicial e que já funciona como adiantamento das despesas ordinárias do processo, cabendo novos depósitos quando atos especiais exigirem também despesas especiais, como, por exemplo, o depósito de despesas de uma perícia.

Ao autor compete ir adiantando, desde logo, as despesas ordiná rias e aquelas cuja realização o juiz determinar de ofício ou a requerimen- to do Ministério Público. Tais despesas serão repostas, por oca sião da condenação, pelo vencido.

Conforme dispõe o art. 20, a sentença condenará o vencido a pagar ao vencedor as despesas que antecipou e os honorários de advogado. Essa verba honorária será devida também nos casos em que o advoga- do funcionar em causa própria, isto é, o advogado for também o autor ou o réu por interesse ou direito subjetivo próprio. Toda vez que o juiz decidir qualquer incidente ou recurso deverá condenar nas despesas o vencido, abrangendo elas não só as custas dos atos do processo como também a indenização de viagem, a diária de testemunha e a remune- ração do assistente técnico. Convém observar que o disposto no art. 20, § 2º, parece estar conflitante com o art. 33, que dispõe que cada parte pagará a remuneração do assistente técnico que houver indicado, e a do perito será paga pelo autor quando requerido por ambas as partes ou determinado pelo juiz.

Na verdade, a disposição que prevalece é a do art. 20, § 2º, enten- dendo-se que o art. 33 quer dizer que cada parte deve adiantar a remu- neração do assistente técnico, mas o pagamento final será feito pela parte vencida.

Os honorários de advogado serão fixados entre um mínimo de 10% e um máximo de 20% sobre o valor da condenação, observando-se como critérios o grau de zelo do profissional, o lugar da prestação do

serviço, a natureza e importância da causa, o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para os seus serviços. Nas causas de pe- queno valor e nas de valor inestimável, bem como naquelas em que não houver condenação ou for vencida a Fazenda Pública e nas execuções, embargadas ou não, os honorários serão fixados consoante a apreciação equitativa do juiz, atendidos os elementos acima aludidos, o grau de zelo do profissional, o lugar da prestação do serviço, a natureza e im- portância da causa etc.4.

Os honorários de advogado têm natureza indenizatória e são adi- tados à condenação ou, não havendo condenação, constituem condena- ção própria e autônoma. O seu valor, fixado pelo juiz, é absolutamen- te independente do eventual contrato de honorários que o advogado tenha com o seu cliente. Nos termos da Lei n. 8.906, de 4-7-1994, que dispõe sobre o Estatuto da Advocacia e a Ordem dos Advogados do Brasil — OAB, art. 23, os honorários incluídos na condenação perten- cem ao advogado: “Art. 23. Os honorários incluídos na condenação, por arbitramento ou sucumbência, pertencem ao advogado, tendo este direito autônomo para executar a sentença nesta parte, podendo reque- rer que o precatório, quando necessário, seja expedido em seu favor”. Esse dispositivo espancou polêmica que existia anteriormente na dou- trina e jurisprudência quanto a pertencerem os honorários da condena- ção à parte ou ao profissional. A partir da lei, não há mais dúvida quanto a ter o advogado direito autônomo, podendo executá-lo nos próprios autos da ação principal, se o desejar.

Se cada litigante for, em parte, vencedor e vencido, serão recípro- ca e proporcionalmente distribuídos e compensados entre eles os ho- norários e as despesas, salvo se um dos litigantes for vencido em parte mínima do pedido, caso em que o outro responderá por inteiro pelas despesas e honorários.

Toda vez, portanto, que uma ação for procedente em parte have rá uma dedução ou compensação no pagamento e respectiva condenação em

4. Há evidente conflito entre o art. 20, § 4º, que fala em causas de valor inestimá- vel, e o art. 258, que determina: “A toda causa será atribuído um valor certo, ainda que não tenha conteúdo econômico imediato”. Somente é possível a conciliação dos dispo- sitivos desde que se reconheça, na verdade, a existência de causas de valor inestimável, às quais deve ser atribuído um valor simbólico, o qual, todavia, não será levado em consideração para a fixação de honorários. Assim, cumprem-se os dois dispositivos.

despesas e honorários. Se forem diversos os autores ou diversos os réus, os vencidos responderão pelas despesas e honorários proporcionalmente.

Em se tratando de procedimento de jurisdição voluntária, conforme previsto nos arts. 1.103 e s., as despesas serão adiantadas pelo reque- rente, mas rateadas entre os interessados. Disposição semelhante vigo- ra nas ações divisórias em que não há litígio, devendo os interessados pagar as despesas proporcionalmente aos seus quinhões. Todavia, se, mesmo na jurisdição voluntária, houver controvérsia, deve arcar com as despesas quem resistiu indevidamente, não se aplicando a regra do rateio do art. 24 do Código.

Se o processo terminar por desistência ou reconhecimento do pe- dido, as despesas e honorários serão pagos pela parte que desistiu ou reconheceu, havendo proporcionalidade no caso de ser parcial a desis- tência ou o reconhecimento. Se houver acordo entre as partes, e desde que o acordo não disponha de maneira diversa, as despesas serão divi- didas por igual.

Na mesma seção do Capítulo II do Código estão estabelecidas sanções para aqueles que receberem custas indevidas ou excessivas, os quais estarão obrigados a restituí-las, além do pagamento de multa equivalente ao dobro do seu valor. Igualmente, os atos que devam ser repetidos por culpa dos serventuários da justiça, do Ministério Públi co ou do próprio juiz sem justo motivo, serão por esses órgãos pagos. Da mesma forma, as despesas dos atos manifestamente protelatórios, im- pertinentes ou supérfluos serão pagas pela parte que os houver promo- vido ou praticado quando impugnados pela outra. Esta última disposi- ção libera o vencido dos atos que inutilmente o vencedor praticou, desde que no tempo oportuno tenha feito a impugnação arguindo a irrelevância ou impertinência do ato.

O art. 32 dispõe sobre as despesas a que deu causa o assistente, figura prevista nos arts. 50 e 54 do Código, o qual será responsável pelas custas, em proporção à atividade que desenvolveu, se o assistido for o vencido.

Finalmente, o Código estabelece que as disposições referentes às custas e honorários são aplicáveis à reconvenção, à oposição, à ação declaratória incidental e aos procedimentos de jurisdição voluntária, no que couber, porque todas essas figuras são de verdadeiras ações e terão tratamento assemelhado às disposições gerais constantes da presente parte do Código.