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Dos efeitos da decisão da questão prejudicial sobre o processo penal

SUFICIÊNCIA DO PROCESSO PENAL E REGIME DOS SEGREDOS NO PROCESSO PENAL 4 O Princípio da Suficiência do Processo Penal Enquadramento Jurídico, Prática e Gestão Processual

6. Dos efeitos da decisão da questão prejudicial sobre o processo penal

Cumpre agora apreciar os efeitos da decisão incidente sobre a questão prejudicial, sobre o processo penal.

Por diversas vezes, as questões prejudiciais que surgem no âmbito do processo penal foram anteriormente alvo de uma decisão proferida em processo de natureza não penal e já transitada em julgado, o que nos conduz, inevitavelmente à problemática do caso julgado material. Subjacente a tal instituto encontram-se as necessidades de certeza e segurança jurídica, ainda que com prejuízo para a justiça material.

Contrariamente ao que sucedia no âmbito do Código de Processo Penal de 1929, que no seu artigo 152.º reconhecia à decisão que incidia sobre a questão prejudicial força e autoridade de caso julgado, actualmente, a lei processual penal é omissa nesta matéria, pelo que, teremos de lançar mão do labor doutrinário e jurisprudencial para resolver tal questão.

Uma via de solução defende o recurso aos princípios gerais do processo penal, elaborados pela doutrina e consagrados em diplomas legislativos, como o anterior Código de Processo Penal, posição que se fundamenta na incompatibilidade entre os conceitos civis atinentes ao caso julgado e os princípios específicos do processo, como, a título de exemplo, se indica no Assento do STJ n.º 2/93, de 27/1/93, publicado no DR, I-A, de 10/3/93, onde aí é referido que: “em termos de processo civil, o caso julgado verifica-se quando já foi proferida decisão de que não cabe recurso ordinário e se pretende que seja proferida uma nova sobre o mesmo tema, válida para as mesmas partes, e com os mesmos fundamentos (as identidades de sujeitos, de pedido e de causa de pedir, expressamente indicadas no artigo 498.º do código de Processo Civil), ao passo que, em termos de processo penal, o conceito tradicional é diverso, pois, de acordo com o nosso sistema processual, não existe uma realidade que possa ser

39 Jorge Reis Bravo, Suficiência e Transversalidade da Acção Penal: Sentido e Limites Actuais, Revista do CEJ, 2.º Semestre 2007, n.º 7, Coimbra, Almedina, pág. 105.

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adequadamente configurada como «as partes do processo», o pedido é o de aplicação de uma sanção penal em virtude da comissão de um facto criminalmente punível, conjugado com o da declaração da inexistência, no caso concreto, de obstáculos às respectivas ilicitude e culpabilidade do agente, e a causa de pedir é a circunstância de se configurar que o agente terá tido uma conduta susceptível de gerar uma sanção de natureza penal.(…) Daí que haja que concluir que os princípios que regem o caso julgado penal e que, repete-se, são produto de uma longa e elaborada evolução, resultante da consideração do especial melindre da defesa dos direitos humanos, se não articulem adequadamente com as regras do caso julgado cível, o que implica que estas últimas não possam ser aplicadas, nos termos do artigo 4.º do Código de Processo Penal.”

Ao invés, a segunda posição pugnada por Germano Marques da Silva 40 defende a aplicação

subsidiária da disciplina do Código de Processo Civil, com as necessárias adaptações, por funcionamento das regras de integração de lacunas contidas no artigo 4.º do Código de Processo Penal.

No que concerne à eficácia no processo criminal da decisão não criminal, anteriormente proferida e já transitada em julgado, deverá, ser observada a lei processual do tribunal não penal, ou seja, deverão ser aplicadas as regras do caso julgado previstas na lei processual não penal respeitante ao tribunal que proferiu a decisão, observando-se dois limites41: o primeiro

faz depender a eficácia no processo penal do caso julgado não penal da circunstância do arguido, ou do responsável civil, caso exista, terem tido a faculdade legal de defender os seus interesses no âmbito do processo não penal. O segundo refere-se à própria competência do tribunal.

Jorge Reis Bravo42 defende o efeito do caso julgado, independentemente das partes que

intervenham em cada um dos processos.

O tribunal penal não fica, contudo, vinculado a decisões que tenham natureza mista penal e não penal, transitadas em julgado, proferidas por tribunais não penais, 43 pois caso assim não

fosse, frustrar-se-ia o exercício da jurisdição penal. Pense-se, por exemplo, no caso julgado civil que numa acção de indemnização por danos tenha considerado o réu responsável ou não responsável pelo facto; impor esse caso julgado em processo criminal não será impor neste um efeito civil, mas excluir a própria apreciação da responsabilidade criminal do arguido pelo facto acusado.

A decisão do tribunal penal sobre a questão prejudicial não penal faz caso julgado fora do processo penal inter partes, ou seja, apenas em relação ao arguido e ao responsável civil que

40 Curso de Processo Penal, Noções Gerais, Elementos do Processo Penal, III Volume, pág. 35.

41 Paulo Pinto de Albuquerque, Comentário do Código de Processo Penal à luz da Constituição da República e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, anotação ao artigo 7.º, 3.ª Edição, Lisboa, Universidade Católica Portuguesa.

42 Suficiência e Transversalidade da Acção Penal: Sentido e Limites Actuais, Revista do CEJ, 2º Semestre 2007, n.º 7, Coimbra, Almedina, pág. 95.

43 Germano Marques da Silva, Curso de Processo Penal, Noções Gerais, Elementos do Processo Penal, I Volume, pág. 138.

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intervenha no processo penal, por força dos princípios da proibição da indefesa, do acesso aos tribunais e da igualdade de armas elencados nos artigos 13.º e 22.º da Constituição da República Portuguesa 44.

Ao invés, Germano Marques da Silva 45, entende que não se produzem efeitos de caso julgado

fora do processo penal, por força da aplicação analógica do artigo 92.º do Código de Processo Civil ex vi do artigo 4.º do Código de Processo Penal.

Relativamente à eficácia da decisão de um tribunal do foro cível sobre uma questão prejudicial penal, a mesma rege-se pelo disposto no artigo 92.º do Código de Processo Civil, comportando tal normativo aplicação analógica.46

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