7. LEVANTAMENTO DE SIGILO EM PROCESSO PENAL. ENQUADRAMENTO JURÍDICO, PRÁTICA E GESTÃO PROCESSUAL Sónia Padrão I. Introdução II. Objectivos III. Resumo 1. Enquadramento juridico 1.1. Noção e fundamentos 1.2. Previsão legal
2. Prática e gestão processual 2.1. Estrutura do incidente 2.1.1. Ilegitimidade/legitimidade
2.1.2. Justificação da escusa
2.1.3. Audição do organismo competente 2.1.4. Recorribilidade das decisões 2.1.5. Consequências 2.2. Regimes específicos 2.2.1. Sigilo religioso 2.2.2. Sigilo do advogado 2.2.3. Sigilo do médico 2.2.4. Sigilo do jornalista
2.2.5. Sigilo das instituições de crédito/bancário IV. Hiperligações e referências bibliográficas I. Introdução
«Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá».1
António Ramos Rosa Nesta exposição tentaremos fazer uma abordagem prática de como se processa o levantamento do segredo profissional no âmbito do Código de Processo Penal, apresentando o incidente do levantamento do sigilo e percorrendo as várias etapas deste incidente.
Na realidade, e como refere o poeta, tudo começa no silêncio, quando alguém se recusa a prestar declarações ou informações sobre factos dos quais teve conhecimento no exercício da sua profissão, e por causa dela. Depois, segue-se todo um caminho, é a estrutura do incidente, que culminará numa palavra, sendo esta palavra, oriunda de um Tribunal superior que irá decidir se a recusa é justificada ou não, à luz do Principio do Interesse Preponderante, a quem caberá a decisão de levantamento, ou não, do sigilo.
1 Este poema faz parte do livro "A Construção do Corpo” de 1969, de António Ramos Rosa. O poeta, nasceu em Faro em 17 de Outubro de 1924, e morreu em Lisboa em 23 de Setembro de 2013. O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Faro e em 2003, a Universidade do Algarve atribui-lhe o grau de Doutor Honoris Causa.
SUFICIÊNCIA DO PROCESSO PENAL E REGIME DOS SEGREDOS NO PROCESSO PENAL 7.Levantamento de sigilo em processo penal. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual
II. Objectivos
O objectivo do trabalho consiste em apresentar, com notas práticas, como se processa o levantamento do sigilo em processo penal, descrevendo o incidente da escusa.
Pretendemos que seja esclarecedor, e que se mostre um dossier útil para consultar, quando cada um dos Senhores Auditores de Justiça estiver nos seus Tribunais e lhe surgir um caso de levantamento de sigilo.
O objectivo é dar a conhecer a estrutura do incidente da escusa, fazer o seu enquadramento jurídico, compatibilizando o regime geral com os regimes específicos dos organismos profissionais, trazendo à colação doutrina e jurisprudência relevante que procuramos recolher e compilar, nesta breve abordagem.
III. Resumo
O tema abordado é o levantamento do sigilo, pelo que se julgou necessário, antes de mais, saber qual o seu enquadramento jurídico.
Numa primeira parte, ocupar-nos-emos em dar uma noção de segredo profissional, dos seus fundamentos, e da previsão legal, no âmbito do Código de Processo Penal, citando o artigo 135.º daquele diploma legal, que se apresenta como um regime geral, e onde se encontra descrito o Incidente da Escusa.
Na segunda parte, ocupar-nos-emos da prática e gestão processual, que estará dividida em dois capítulos. No primeiro capítulo, será apresentada a estrutura do incidente: a ilegitimidade e legitimidade da escusa, a justificação da escusa, a audição do organismo da profissão, a recorribilidade da decisões e por fim as consequências da violação do segredo profissional, isto é, o regime geral do artigo 135.º do Código de Processo Penal. No segundo capitulo, analisaremos os regimes específicos e o seu enquadramento jurídico: o sigilo religioso, de advogado, de médico, das instituições de crédito, do jornalista, acompanhados pela doutrina e jurisprudência pertinente, acerca de cada um dos regimes aflorados, bem como, a sua conciliação com o Código de Processo Penal.
1. Enquadramento jurídico 1.1. Noção e fundamentos
A palavra sigilo vem do latim “sigillum” e significa segredo, o que se mantém oculto; o que não se mostra, nem se conhece. Acontecimento ou coisa que não pode ser revelado ou divulgado.2
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No Código de Processo Penal encontramos no Livro III – Da prova, Titulo II – Dos meios de prova, Capitulo I – Da prova testemunhal, o artigo 128.º, sob a epígrafe “Objecto e limites do depoimento”:
“1 – A testemunha é inquirida sobre factos de que possua conhecimento directo e que constituam objecto da prova. (…)”
No entanto, e como refere Simas Santos3: “(…) a lei fragiliza esta regra, estabelecendo
condicionantes ou restrições à sua aplicação, como acontece quando, por razões de segredo profissional, retira da esfera de disponibilidade de cada um a divulgação de factos que entendeu manter fora do alcance alheios”.
A isto chama-se segredo profissional, que se entende como «a proibição de revelar factos ou acontecimentos de que se teve conhecimento ou que foram confiados em razão e no exercício de uma actividade profissional»4.
O segredo profissional é assim, correlativo indispensável de todas as profissões que assentam numa relação de confiança, e como tal, um comportamento previsto no Código de Ética dessas profissões.
E o mesmo autor menciona «o que está em causa é a tutela da confiança e a protecção de dados cujo grau de incidência, em termos de intimidade da vida privada é, sem dúvida, variável, podendo não ser, em absoluto, sigilosos».5
1.2. Previsão Legal
O segredo profissional está previsto no artigo 135.º do Código de Processo Penal (CPP), sendo
este o regime regra da quebra do segredo profissional:
”1 - Os ministros de religião ou confissão religiosa e os advogados, médicos, jornalistas, membros de instituições de crédito e as demais pessoas a quem a lei permitir ou impuser que guardem segredo podem escusar-se a depor sobre os factos por ele abrangidos. 2 - Havendo dúvidas fundadas sobre a legitimidade da escusa, a autoridade judiciária perante a qual o incidente se tiver suscitado procede às averiguações necessárias. Se, após estas, concluir pela ilegitimidade da escusa, ordena, ou requer ao tribunal que ordene, a prestação do depoimento. 3 - O tribunal superior àquele onde o incidente tiver sido suscitado, ou, no caso de o incidente ter sido suscitado perante o Supremo Tribunal de Justiça, o pleno das secções criminais, pode decidir da prestação de testemunho com quebra do segredo profissional sempre que esta se mostre justificada, segundo o princípio da prevalência do interesse preponderante, nomeadamente tendo em conta a imprescindibilidade do depoimento para a descoberta da verdade, a gravidade do crime e a necessidade de protecção de bens jurídicos. A intervenção é suscitada pelo juiz, oficiosamente ou a requerimento. 4 - Nos casos previstos nos n.ºs 2 e 3, a
3 Santos, M. Simas e M. Leal-Henriques, Código de Processo Penal anotado, 3.ª edição, I Volume, pág. 961. 4 In Parecer n.º 56/94, de 95.03.09, da PGR, Pareceres, 254.
5 In Parecer 20/94, 95.02.09, da PGR, citado naquele anterior Parecer.
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decisão da autoridade judiciária ou do tribunal é tomada ouvido o organismo representativo da profissão relacionada com o segredo profissional em causa, nos termos e com os efeitos previstos na legislação que a esse organismo seja aplicável. 5 - O disposto nos n.os 3 e 4 não se aplica ao segredo religioso.”
O artigo 136.º do CPP aplica-se ao segredo de funcionários, dispondo que estes não podem ser
inquiridos sobre factos que constituam segredo e de que tiverem tido conhecimento no exercício das suas funções, sendo aplicável o disposto nos números 2 e 3 do artigo anterior. Por sua vez, o artigo 137.º do CPP (Segredo de Estado) preceitua: “1 - As testemunhas não
podem ser inquiridas sobre factos que constituam segredo de Estado. 2 - O segredo de Estado a que se refere o presente artigo abrange, nomeadamente, os factos cuja revelação, ainda que não constitua crime, possa causar dano à segurança, interna ou externa, do Estado Português ou à defesa da ordem constitucional. 3 - A invocação de segredo de Estado por parte da testemunha é regulada nos termos da lei que aprova o regime do segredo de Estado e da Lei- Quadro do Sistema de Informações da República Portuguesa.”
O artigo 182.º do CPP sob a epígrafe, “Segredo profissional ou de funcionário e segredo de
Estado”, prevê: “1- As pessoas indicadas nos artigos 135.º a 137.º apresentam à autoridade judiciária, quando esta o ordenar, os documentos ou quaisquer objectos que tiverem na sua posse e devam ser apreendidos, salvo se invocarem, por escrito, segredo profissional ou de funcionário ou segredo de Estado. 2 - Se a recusa se fundar em segredo profissional ou de funcionário, é correspondentemente aplicável o disposto nos n.ºs 2 e 3 do artigo 135.º e no n.º 2 do artigo 136.º 3 - Se a recusa se fundar em segredo de Estado, é correspondentemente aplicável o disposto no n.º 3 do artigo 137.º.2”.
2. Prática e gestão Processual 2.1. Estrutura do Incidente
Chamadas a depor na qualidade de testemunhas, ou a prestar informações, sobre factos de que tenham tido conhecimento no exercício da sua actividade profissional, as pessoas a quem a lei permitir ou impuser que guardem segredo (cfr. n.º 1 do artigo 135º do Código Processo Penal), podem escusar-se a depor ou a prestar informações sobre os factos por ele abrangidos, invocando para tal, que estão a coberto do sigilo profissional. Quid iuris?
No nosso ordenamento jurídico o incidente da quebra do sigilo profissional, está regulado em duas fases. A primeira, da ilegitimidade/legitimidade da escusa, que faz alusão o artigo 135º n.º 2 do Código de Processo Penal, e a segunda fase, da justificação da escusa, referida no n.º 3 daquele dispositivo legal.