II ) D EVOLUÇÃO OPE JUDICIS :
4. A prática e a gestão processual
4.2. O tempo da decisão
O artigo 7.º, n.º 4, do Código de Processo Penal prevê que em caso de devolução de questão prejudicial para o tribunal competente, “o tribunal marque o prazo de suspensão”, e esgotado esse prazo poderá o mesmo ser prorrogado até um ano (no máximo), se a demora na decisão não for imputável ao arguido ou ao assistente, pois nesse caso não haverá lugar a qualquer prorrogação de prazo.
Importa ainda salientar que o prazo de um ano é contado a partir da data em que terminou o prazo determinado pelo tribunal aquando da decisão de devolução. E findo o prazo de prorrogação sem que a questão esteja decidida, será o tribunal do processo a decidir essa questão.
O professor Paulo Pinto de Albuquerque27 refere mesmo que o prazo máximo da suspensão é
um ano, não se admitindo prorrogações para além deste período, nem quaisquer interpretações analógicas.
Já relativamente à suspensão do processo, quando a questão prejudicial é de natureza tributária, entende a doutrina maioritária e também a jurisprudência que o prazo de suspensão não está limitado como no âmbito das demais questões prejudiciais.
Esta posição tem fundamento nos preceitos o Regime Geral das Infrações Tributárias, nomeadamente no artigo 47.º, n.º 1, que prevê que “ o processo penal tributário suspende-se até que transitem em julgado as respetivas sentenças”, não estabelecendo um prazo máximo para a sua duração.
Contudo, sempre que existem arguidos presos preventivamente à ordem de um processo penal tributário, impõe-se uma ponderação de interesses mais cuidada, uma vez que, nestes casos, podem estar em conflito vários direitos e interesses constitucionais. Por um lado, temos a atribuição constitucional de competência para o conhecimento da questão prejudicial (artigo 212.º, n.º 3, da Constituição da República Portuguesa), e, por outro, temos o direito do arguido a um julgamento no mais curto prazo possível, compatível com as suas garantias de defesa (artigo 2.º e 32.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa) e o dever de administrar e efetivar a realização da justiça (artigo 2.º, 32.º, n.º 1, e 202.º, n.º 1 e n.º 2, todos da Constituição da República Portuguesa).
No meio deste conflito de interesses temos ainda os prazos máximos, legalmente previstos, de duração da prisão preventiva (artigo 215.º do Código de Processo Penal), que não podem em situação alguma ser excedidos (artigo 28.º, n.º 4, da Constituição da República Portuguesa).
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Ora, a admitir-se a inexistência de prazo máximo de duração da suspensão do processo penal, quando esteja em causa uma questão prejudicial de natureza tributária, estar-se-ia a permitir que um arguido preso preventivamente à ordem de um processo desta natureza pudesse ser restituído à liberdade antes de decidido o seu processo, uma vez que os prazos de duração da prisão preventiva são, por razões óbvias, de curta duração.
Pelas razões expostas, o processo penal só deverá ser sobrestado quando a decisão da questão prejudicial seja imprescindível para o conhecimento do mérito da causa penal e totalmente inconveniente a sua decisão por este tribunal28.
Já nas situações em que a questão prejudicial é devolvida para que seja intentada uma determinada ação, é concedido um prazo, legalmente previsto, de um mês; se findo esse prazo a ação não tiver sido intentada pela pessoa legitimada para tal, será a questão decidida pelo próprio tribunal.
Porém, também nestas situações importa ter algumas cautelas, uma vez que o prazo legalmente estabelecido se refere ao prazo para intentar a ação, e não ao prazo máximo que poderá durar a decisão dessa questão, pelo que, se deverá ter cuidado para que essas decisões não se protelem por tempo demasiado de molde a pôr em causa as finalidades do próprio processo penal.
A lei concede ao Ministério Público o poder/dever de intervir no processo não penal com vista à promoção do seu rápido andamento e ainda de informar o processo sobre o andamento do processo onde corre a decisão prejudicial.
Sendo o Ministério Público o garante da legalidade entende-se que seja esta autoridade judiciária a competente para assegurar que um indivíduo que praticou um facto considerado e punido pela lei como crime, não venha a ser julgado e punido como tal.
É, talvez, por esta razão que o legislador não definiu um prazo máximo de duração da suspensão do processo penal, quando se entenda necessária e adequada a devolução de uma determinada questão prejudicial para o tribunal competente. Isto é, o Ministério Público ao exercer esse “controlo” do andamento da questão prejudicial vai impedir que se cometam excessos, designadamente informando o processo penal do retardamento da marcha processual não penal e, nestes casos, poderá o juiz do processo penal avocar para si o conhecimento da questão prejudicial e decidir do mérito da causa.
Contudo, se a decisão prejudicial for conhecida após o decurso do prazo previsto para a decisão não penal, mas antes de o julgador decidir a questão penal, o julgador penal deverá suspender a sua decisão e tomar em consideração a decisão do tribunal não penal.
No Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra29 refere-se, a este propósito, que:
28 Neste sentido: Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, datado de 30/10/1991, Proc. n.º 042001, Relatado por José Saraiva, in http://www.stj.pt/index.php/jurisprudencia-42213/basedados.
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“O facto de um prazo acabar não o transforma numa coisa inexistente. Prorrogar é prolongar ou fazer durar além do tempo estabelecido.
O prazo fixado iniciou-se, decorreu e terminou. Mas, quando a prorrogação é possível, nada impede que seja alargado por quem tem o poder de o prorrogar, mesmo já depois de findo. Aliás pode até ser difícil ou impossível decidir sobre a prorrogação enquanto o prazo decorre, sobretudo quando é necessário recolher elementos de outras entidades destinadas a uma tomada de posição. Justifica-se, assim, que a decisão sobre a prorrogação de um prazo possa ser tomada, antes ou depois de o prazo ter decorrido.
(…) Não se aceita o entendimento da Meritíssimo Juiz quando dá a entender que a prorrogação do prazo se começa a contar a partir do seu despacho de 25-11-1993.
Ora por despacho de 1992, o processo foi suspenso por dois meses. E nos termos do artigo 7.º, n.º 4, do Código de Processo Penal, este prazo foi prorrogado por mais um ano. Por isso não há motivo para começar a contar o prazo a partir de 25-11-1993.
Decorridos os dois meses iniciais, prazo por que o processo foi suspenso, e mais um ano, de prorrogação daquele prazo, ficou esgotado o prazo em que a questão prejudicial devia ficar resolvida.
Assim, nos termos do n.º 4, do artigo 7.º, do Código de Processo Penal, a questão prejudicial deve ser decidida no processo penal.”
29 Neste sentido, Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra, datado de 11-01-1995, Proc. n.º 701/94, relatado pelo Desembargador José Couto Mendonça in Coletânea de Jurisprudência XX, Tomo I, págs. 53-54.
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V. Hiperligações e referências bibliográficas Hiperligações
Código de Processo Penal de 1929:
https://jornalpenal.wordpress.com/2012/03/01/processopenal1929/
Referências bibliográficas
− ALBUQUERQUE, Paulo Pinto de, Comentário do Código de Processo Penal à luz da Constituição da República Portuguesa e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, 2.ª edição atualizada, Universidade Católica Portuguesa, Maio de 2088, págs. 59-63;
− ANTUNES, Maria João, Direito Processual Penal, Edições Almedina, ano 2016, págs. 77-79; − BRAVO, Jorge Reis, Suficiência e transversalidade da ação penal: sentido e limites atuais, Revista do CEJ, n.º 7, 2.º semestre de 2007, págs. 85 a 123;
− COLETÂNEA DE JURISPRUDÊNCIA XX, Tomo I, págs. 53-54;
− CUNHA, Damião da, O caso julgado parcial, Publicações da Universidade Católica, Porto 2002, pág. 792;
− DIAS, Jorge de FIGUEIREDO ― Direito Processual Penal – Lições coligidas por Maria João Antunes (fascículos policopiados), Secção de Textos da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1988/89;
− FERREIRA, Manuel CAVALEIRO ― Curso de Processo Penal (2 volumes), Editora Danúbio, Lisboa, 1986;
− GASPAR, António Henriques e outros, Código de Processo Penal comentado, Editorial Almedina, 2014;
− GONÇALVES, Manuel Lopes Maia, Código de Processo Penal anotado, 1999, 10ª edição, Editora Almedina, Coimbra, págs. 102-106;
− JESUS, Francisco Marcolino de, Os meios de obtenção de prova em processo penal, Edições Almedina, 2.ª edição, março 2015, págs. 60-63;
− Magistrados do Ministério Público do Distrito Judicial do Porto, Comentários e notas práticas ao Código de Processo Penal, Coimbra Editora, ano 2009, págs.38 e 39;
SUFICIÊNCIA DO PROCESSO PENAL E REGIME DOS SEGREDOS NO PROCESSO PENAL 6.O princípio da suficiência do processo penal. Enquadramento jurídico, prática e gestão processual
− SILVA, Germano Marques da, Curso de Processo Penal, tomo I, 4.ª edição, Editorial Verbo, 2000, págs. 113-123;
− COSTA, Miguel João, Jornal Penal: a atualidade penal anotada, março de 2012 [Retirado de http://jornalpenal.wordpress.com/2012/03/01/processopenal1929].
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