Existem algumas situações em que a própria lei prevê, perante uma questão prejudicial tributária, a possibilidade de suspensão do processo penal, como é o caso do consagrado nos artigos 47.º, n.º 1, do Regime Geral das Infrações Tributárias e 45.º, n.º 5, da Lei Geral Tributária.
Ora, o artigo 47.º, n.º 1, do Regime Geral das Infrações Tributárias preceitua que “Se estiver a correr processo de impugnação judicial ou tiver lugar oposição à execução, nos termos do Código de Procedimento e de Processo Tributário, em que se discuta situação tributária de cuja definição dependa a qualificação criminal dos factos imputados, o processo penal tributário suspende-se até que transitem em julgado as respetivas sentenças”; e o artigo 45.º, n.º 5, da Lei Geral Tributária refere que “Sempre que o direito à liquidação respeite a factos relativamente aos quais foi instaurado inquérito criminal, o prazo a que se refere o n.º 1 é alargado até ao arquivamento ou trânsito em julgado da sentença, acrescido de um ano.” (sublinhado nosso)
O legislador ao consagrar o sobrestar obrigatório no âmbito dos processos tributários, fundou essa opção na especificidade das questões tributárias.
Os tribunais portugueses estão agrupados em duas grandes áreas jurisdicionais: os tribunais da jurisdição comum e os tribunais da jurisdição administrativa e fiscal (artigo 209.º da Constituição da República Portuguesa), precisamente porque o legislador entendeu que as áreas de atuação são diferenciadas e exigem conhecimentos técnicos muito específicos em cada uma dessas áreas jurisdicionais; por sua vez dentro da jurisdição dos tribunais comuns, existem várias áreas de competência especializada, e a Lei Orgânica do Sistema Judiciário prevê precisamente essa especialização (artigo 32.º, 40.º e 81.º, n.º 3, da Lei Orgânica do Sistema Judiciário).
Por essa razão, as questões tributárias e administrativas não são dirimidas pelos tribunais comuns, tal como decorre do artigo 209.º da Constituição da República Portuguesa, mas sim
19 O Código de Processo Penal de 1929, no seu artigo 152.º, previa expressamente este efeito de caso julgado quanto à questão prejudicial decidida no tribunal não penal: “No caso previsto no artigo 3.º deste código a decisão proferida pelo respetivo tribunal constituirá caso julgado relativamente à questão que nele tenha sido julgada definitivamente, para a ação penal que dessa decisão ficou dependente”.
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numa jurisdição própria (jurisdição administrativa e fiscal), ao contrário das demais questões que são decidias pelos tribunais judiciais comuns, muito embora possa haver secções especializadas relativamente a cada questão (cível, família e menores, laboral, penal e comércio), o que só por si denota a especificidade dessas questões.
Esta “imposição” da suspensão do processo penal relativamente às questões prejudiciais de natureza fiscal verifica-se quando a existência de uma infração fiscal depende da resolução de uma questão de natureza fiscal.
Assim, a suspensão do processo ocorrerá essencialmente quando o objeto da impugnação coincida com o objeto da acusação, designadamente perante situações de impugnação judicial ou de oposição à execução fiscal, cuja decisão quanto à qualificação dos factos praticados como crime ou até da própria existência de crime, nomeadamente quando estão em causa a prática dos crime de burla tributária (artigo 87.º do Regime Geral das Infrações Tributárias), abuso de confiança fiscal (artigo 105.º do Regime Geral das Infrações Tributárias), abuso de confiança contra a segurança social (artigo 107.º do Regime Geral das Infrações Tributárias) ou de fraude fiscal (artigo 103.º do Regime Geral das Infrações Tributárias).
A suspensão do processo penal perante uma questão prejudicial tributária tem igualmente lugar quando se pretende determinar a medida da pena a aplicar (artigo 13.º do Regime Geral das Infrações Tributárias) e/ou ponderar na possibilidade de suspensão da execução da pena de prisão aplicada (artigo 14.º, n.º 1, do Regime Geral das Infrações Tributárias) ou para aferir do montante em dívida a fim de se qualificar o mesmo como “valor elevado” ou “consideravelmente elevado”, na aceção do artigo 202.º do Código Penal e para os efeitos do artigo 11.º, alínea d), do Regime Geral das Infrações Tributárias.
Se atentarmos bem nos tipos de ilícito referidos, constatamos que em todos eles está em causa a entrega de uma determinada prestação tributária ou a liquidação de uma prestação tributária, ora, o juiz para conseguir concluir pela prática de um desses crimes necessita de previamente saber se a prestação tributária em causa foi ou não entregue ou liquidada, e se essa liquidação está correta, conforme o caso. E na verdade essa informação só poderá obviamente ser dada pela autoridade tributária ou pela segurança social.
Contudo, se por algum motivo o arguido no âmbito de um processo penal impugna a decisão da entidade competente quanto à não entrega da prestação, ao seu não pagamento ou quanto ao montante da liquidação, o julgador, no âmbito do processo penal, não poderá tomar a sua decisão sem estar decidida aquela questão qualificada como prejudicial, na medida em que é absolutamente necessária à decisão final do processo penal e insuscetível de ser decidida naquele, pois que para tomar uma decisão dessas são necessários conhecimentos muito específicos, característicos dos tribunais administrativos e fiscais e que os juízes dos tribunais judiciais não têm.
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Neste sentido se decidiu no Douto Acórdão da Relação do Porto, datado de 19-11-200820,
onde se entendeu que o processo penal deveria de ser suspenso até à decisão das impugnações judiciais que se encontravam pendentes, uma vez que a qualificação criminal dos factos praticados depende dessas decisões.
“A qualificação criminal dos factos em apreciação no presente processo depende da definição da situação tributária que se discute naqueles processos de impugnação judicial. O que justificaria (e, agora, justifica), nos termos do disposto no artigo 47ºdo Regime Geral das Infrações Tributárias, a suspensão do presente processo. Com o que a questão que se vem de conhecer tem de merecer solução positiva, qual seja a da suspensão do presente processo penal. A conclusão: a insubsistência da sentença, que deve ser elaborada, nos termos devidos, após o trânsito em julgado das sentenças que forem proferidas naqueles processos de impugnação judicial.”
Porém, importa salientar que esta suspensão processual, apesar do consagrado no artigo 47.º, n.º 1, do Regime Geral das Infrações Tributárias não é automática pois depende ainda da verificação dos requisitos supra elencados para a suspensão do processo penal quando estão em causa quaisquer outras questões prejudiciais: antecedência lógico-jurídica, autonomia, necessidade e indispensabilidade.
Pelo exposto, concluímos que o sobrestar do processo penal não opera ipso iure, pois depende da qualificação da questão prejudicial como essencial para a imputação do ilícito criminal, importa que a decisão dessa questão prejudicial seja imprescindível quanto à determinação da culpa, da verificação da existência de alguma causa de exclusão da ilicitude ou da qualificação de um determinado facto como crime; no fundo, o que releva para efeitos do sobrestar da ação é que a decisão de absolvição ou de condenação de um determinado arguido dependa da decisão prejudicial.
Como se referiu existem situações em que apesar de se inferir do artigo 47.º do Regime Geral das Infrações Tributárias uma obrigatoriedade de suspensão do processo penal, devido à devolução de uma questão prejudicial para o tribunal administrativo e fiscal, o julgador optou por não determinar esse sobrestar, por considerar que a questão suscitada não era impeditiva de apreciação do mérito da causa.
A questão subjacente ao processo em análise no Douto Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães prendia-se com o facto de ter havido uma decisão no tribunal administrativo e fiscal, na sequência de uma impugnação fiscal e de uma reversão, tendo o julgador entendido que a questão suscitada não era uma verdadeira questão prejudicial, antes se assemelhava a uma manobra dilatória de molde a protelar a decisão final do processo21.
20 Acessível em:
http://www.dgsi.pt/jtrp.nsf/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf/1d7f49bad66735508025750c0059644c?OpenDo cument.
21 Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães, datado de 8-05-2017, Proc. n.º 1120/09.1TABCL.G3, relator Jorge Bispo; acessível em:
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/c3fb530030ea1c61802568d9005cd5bb/abb7e9d1cd9270cd80257a24003993e4?OpenD ocument.
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No mesmo sentido, o Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, datado de 23-01-2013, refere que o que releva para a suspensão do processo penal, por devolução de uma questão prejudicial é que esta obste à decisão de mérito da causa e não o momento em que a mesma é suscitada ou sequer o momento em que a questão prejudicial surge, antes ou durante o processo-crime22.
Ainda que se sustente na peça (ao contrário do que vem entendido no despacho «sub censura») que para que seja determinada a suspensão do procedimento criminal fiscal, não é necessário que se tenha intentado, previamente a este, impugnação judicial junto do TAF, entende-se que, a interposição de tal ação, não tem a impetrada suspensão, como consequência necessária ou automática. Diz-se no referido aresto:
“Pelo contrário, deve ser sempre indeferida tal pretensão, quando resulte com clareza que in casu a impugnação fiscal, pelo momento em que é deduzida e pelo seu conteúdo, apenas visa a introdução de dilações no procedimento criminal fiscal. (…)
A jurisprudência no referente à aplicabilidade do artigo 47.º, n.º 1, do RGIT (Suspensão do processo penal tributário) tem vindo a pronunciar-se, tanto quanto sabemos, em sentido uniforme. Assim, tal norma do RGT consagra um desvio ao princípio da suficiência do processo penal, consagrado no art.º 7.º do CPP.
Todavia, deve entender-se que a suspensão do processo penal tributário, apenas se perfila como obrigatória, sempre que «se discuta situação tributária de cuja definição dependa a qualificação criminal dos factos imputados» (…). No fundo, tal suspensão só deverá ter lugar, a nosso ver, quando estivermos perante uma questão prejudicial que releva de saber se os factos objeto do processo integram ou não crime tributário.
Afigura-se-nos que tal pressuposto de aplicabilidade do art.º 47.º, n.º 1, do RGIT, não ocorre in casu, tudo se resumindo, como a própria cronologia da tramitação processual evidencia, ao desenvolvimento pelo recorrente, de uma estratégia, de última hora, para em cima do julgamento, evitar a sua realização.”