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Os limites ao princípio da suficiência do processo penal

SUFICIÊNCIA DO PROCESSO PENAL E REGIME DOS SEGREDOS NO PROCESSO PENAL 5 O princípio da suficiência do processo penal Enquadramento jurídico, prática e gestão processual

3. Da prejudicialidade no sistema português

3.1. Os limites ao princípio da suficiência do processo penal

O princípio da suficiência do processo penal, entre nós, encontra-se consagrado no artigo 7.º, n.º 1, do Código de Processo Penal e “A razão deste princípio é clara: só garantida nestes termos a independência e a suficiência da acção penal fica ela ao abrigo de quaisquer obstáculos que indirectamente se quisessem pôr ao seu exercício (p. ex., através da disposição

12 Figueiredo Dias, op. cit., p. 116.

13 Germano Marques da Silva, op. cit., p. 103.

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processual de outras acções de que ela fosse dependente ou que para ela fossem elementos materialmente condicionantes).”14

Contudo, “Esta primazia da jurisdição penal na resolução das questões prejudiciais não significa a exclusividade da sua competência para o julgamento das questões de natureza não penal, como se deduz dos n.ºs 2 a 4 deste artigo.”15

Com efeito, o princípio da suficiência do processo penal possui aquilo a que José da Costa Pimenta chama de fronteiras naturais a saber, a litispendência e o caso julgado. De facto, não pode o processo-crime conhecer de questão já definitivamente decidida pelo foro normalmente competente ou que aí esteja a ser objecto de processo em curso, em respeito pelos artigos 577.º, alínea i), e 580.º, do Código de Processo Civil, ex vi do artigo 4.º, do Código de Processo Penal.16

Acresce que, quando o tribunal penal entender que é necessário decidir a questão prejudicial num tribunal não penal, o processo deverá ser suspenso para que o tribunal competente decida, nos termos do artigo 7.º, n.º 2, do Código de Processo Penal.

Todavia, e seguindo o entendimento de Paulo Pinto de Albuquerque “Esta faculdade do tribunal penal é excepcional, por contrariar o princípio constitucional do julgamento do processo penal no mais curto prazo possível (artigo 32.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa).” 17.

Do exposto, facilmente se conclui que o legislador optou pelo regime misto, a que Gil Moreira dos Santos chama de “Regime da Prejudicialidade Relativamente Devolutiva” – também chamado de modelo de suficiência discricionária ou de devolução facultativa – nos termos do qual o princípio da suficiência deve, como já referido, ser defendido na medida do possível, pelo que só quando o relevo, a complexidade ou a especialidade de que se revestem certas questões prejudiciais o justificarem, o processo penal pode ser suspenso até à questão prejudicial ser cabalmente decidida pelo tribunal materialmente competente.

3.1.1. Questões Prejudiciais Penais em Processo Penal

“Em face do que ficou dito bem se aceitará que o problema da prejudicialidade, e portanto também o da devolução, não chegue a lograr verdadeira autonomia no que toca às questões prejudiciais penais em processo penal: se poderia acontecer que, segundo as regras gerais da competência em processo penal, não devesse ser o tribunal da questão principal a julgar da questão prejudicial se esta surgisse como objecto de um processo autónomo, sempre será exacto que tal tribunal tem, segundo a matéria, competência para conhecer da questão

14 Castanheira Neves, Sumários de Processo Criminal, lições, 1967-1968, p. 88. 15 Maia Gonçalves, op. cit., p. 61.

16 Op. cit., p.177.

17 Paulo Pinto de Albuquerque in Comentário do Código de Processo Penal, à Luz da Constituição da República e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, 3.ª edição, pág. 60.

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prejudicial, pelo que falta a mais forte razão que poderia determinar a devolução.”18

(destacado da signatária).

Também para Maia Gonçalves “não é discutível o caso da questão prejudicial criminal em processo criminal. É que o tribunal criminal tem competência para julgar questão desta natureza, e assim julgá-la-á, nos termos do n.º 1 deste artigo, sem devolução a outro tribunal”19 – referindo-se ao artigo 7.º do Código de Processo Penal, Simas Santos e Leal- Henriques consideram que em questões prejudiciais estritamente penais vigora o princípio da suficiência absoluta do processo penal, sendo todas aí decididas.20

Em sentido diferente, Germano Marques da Silva entende que estas questões prejudiciais devem ser resolvidas pelas regras da competência por conexão, pelo que quando não couberem ambas as questões penais no âmbito da competência por conexão, serão julgadas separadamente, havendo interesse em que a questão prejudicial seja julgada previamente. Defende este autor que, para estes casos, deve fazer-se um interpretação extensiva do artigo 7.º do Código de Processo Penal, por forma a que o processo da questão prejudicada fique suspenso enquanto é julgada a questão prejudicial. Quando tal não seja possível, ou seja considerado inconveniente deve, valer em pleno, e para o efeito, o princípio da suficiência, julgando-se a questão prejudicial no processo da questão prejudicada. Neste caso, havendo, depois, contradição de julgados, entre estes dois processos criminais, haverá possibilidade de recurso de revisão, nos termos do artigo 449.º, n.º 1, alínea c), do Código de Processo Penal. Contrapondo-se a este autor, defende Paulo Pinto de Albuquerque que “O tribunal penal tem competência para decidir sobre questão prejudicial de natureza penal. A decisão do tribunal penal sobre a questão prejudicial penal não está limitada pelas regras da competência por conexão.”21.

3.1.2. Questões Prejudiciais Penais em Processo não Penal

Já quanto às questões prejudiciais penais em processo não penal, as mesmas não impõem

uma solução ao direito processual penal, sendo o conhecimento das questões prejudiciais uma faculdade, nos termos do artigo 92.º do Código de Processo Civil.

3.1.3. Questão Especial da Prejudicialidade Constitucional ou Constitucionalidade Normativa

Prescreve o artigo 204.º da Constituição da República Portuguesa que “Nos feitos submetidos a julgamento não podem os tribunais aplicar normas que infrinjam o disposto na Constituição ou os princípios nela consignados.”.

18 Figueiredo Dias, op. cit., p. 116. 19 Op. cit., p. 62.

20 Código de Processo Penal anotado, I vol., Reis dos Livros, 2003, p. 97. 21 Op. cit., p.62.

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Admite-se assim, a fiscalização concreta da constitucionalidade de normas jurídicas sempre que no decurso de um processo penal surgir uma questão prejudicial de direito constitucional, tendo o tribunal de conhecer dela obrigatoriamente, ao invés de devolver o conhecimento da questão ao Tribunal Constitucional.

Contudo, o tribunal não poderá declarar a norma em causa inconstitucional, limitando-se a recusar a sua aplicação. Desta decisão de não aplicação é que caberá recurso para o Tribunal Constitucional, nos termos do previsto no artigo 280º da Constituição da República Portuguesa, sendo ainda de referir que o Ministério Público tem de recorrer obrigatoriamente nos casos previstos nos n.ºs 3 e 5 do artigo 280.º da Constituição da República Portuguesa. Destarte, não se trata nem da aplicação do princípio da suficiência prevista no artigo 7.º, n.º 1, do Código de Processo Penal, nem de uma excepção ao mesmo nos termos do artigo 7.º, n.º 2, do Código de Processo Penal, pois que:

– O tribunal criminal não pode apreciar a constitucionalidade da norma, nem pode suspender o processo para que a mesma possa ser apreciada pelo Tribunal Constitucional;

– Nem tão pouco se poderá considerar que o recurso para o Tribunal Constitucional consubstancia uma excepção ao princípio da suficiência, nos termos previsto no artigo 7.º, n.º 2, do Código de Processo Penal, pois que se trata de um verdadeiro recurso para o tribunal competente, nos termos do artigo 221.º e 280.º da Constituição da República Portuguesa, e não uma suspensão do processo criminal para conhecimento da questão da constitucionalidade pelo referido tribunal. (neste sentido, José da Costa Pimenta22).

Com efeito, e nas palavras de Maria João Antunes, “Da norma constitucional que faz do TC um tribunal ao qual compete especificamente administrar a justiça em matérias de natureza jurídico-consitucional (artigo 221.º da CRP), da que determina que os tribunais não podem aplicar normas que infrinjam o disposto na Constituição ou os princípios nela consignados (artigo 204.º da CRP) e das normas que conformam a fiscalização concreta da constitucionalidade (artigo 280.º da CRP e 69.º e ss da Lei da Organização, Funcionamento e Processo do Tribunal Constitucional) resulta que não se trata aqui propriamente de uma questão prejudicial a ser decidida por um tribunal não penal. Note-se por exemplo, que o recurso para o TC é obrigatório para o ministério público quando o tribunal decida recusar a aplicação de uma norma, com fundamento em inconstitucionalidade, e que pode ser sempre interposto recurso para o TC de decisão de tribunal que aplique norma cuja constitucionalidade haja sido suscitada durante o processo ou que aplique norma já anteriormente julgada inconstitucional pelo próprio TC (artigos 280.º, n.ºs 1 e 3, da CRP e 70.º, n.º 1, alíneas a), b), e g), e 72.º daquela Lei).”23.

Também de forma clara, refere Paulo Pinto de Albuquerque que “Na devolução da questão prejudicial para tribunal não penal não se compreende o recurso de fiscalização concreta da constitucionalidade interposto para o Tribunal Constitucional em processo-crime para

22 Op. cit., pp. 184 e 185. 23 Op. cit., pp. 77 e 78.

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apreciação de uma questão de inconstitucionalidade nele suscitada, não constituindo, portanto, este recurso motivo legal para a suspensão da prescrição24 (acórdão do TC n.º 596/2003)”.25

No mesmo sentido, e deixando claro que o recurso para o Tribunal Constitucional, para efeitos de fiscalização concreta da constitucionalidade, não consubstancia questão prejudicial, nos termos e para os efeitos previstos no artigo 7.º, n.º 2, do Código de Processo Penal – na sequência do Acórdão do Tribunal Constitucional n.º 195/2010 – o Supremo Tribunal de Justiça em Acórdão de fixação de jurisprudência n.º 9/2010, de 27 de Outubro, prescreveu que “a pendência de recurso para o Tribunal Constitucional não constituiu causa de suspensão do prazo de prescrição do procedimento criminal prevista no segmento normativo «dependência de sentença a proferir por tribunal não penal»”, previsto na alínea a) do n.º 1 do artigo 120.º, do Código Penal, que vale apenas para as verdadeiras questões prejudicais não penais, que se encontram a ser tratadas nos tribunais materialmente competentes para delas conhecer.

3.1.4. Questões Prejudiciais não Penais em Processo Penal

Do exposto, resulta que o problema dos limites ao princípio da suficiência em processo penal surge na sua verdadeira dimensão e autonomia relativamente às questões prejudiciais não penais em processo penal, quando não tenham sido já decididas ou estejam pendentes em um outro processo.

Nas palavras de Figueiredo Dias, “É para essas questões que o artigo 7.º dita a regulamentação subsumível ao esquema geral de um sistema de devolução facultativa ou suficiência discricionária, que nos cumpre agora examinar”26.

Assim, cumpre, agora, analisar os pressupostos da devolução da questão não penal ao tribunal materialmente competente para conhecer da mesma.

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