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3. As ciências naturais e o desenho curricular

3.2. Dos museus de ciência aos centros de ciência

A evolução dos espaços de divulgação de ciência está intimamente relacionada com a própria evolução da sociedade e, ultimamente, têm sofrido mudanças marcantes e profundas na sua concepção de acessibilidade do público em geral, quer seja ou não especializado em assuntos de ciência. Esta evolução, segundo alguns autores, tem mais de

três séculos, mas é com a organização de exposições internacionais que surgiram na Europa, em meados do século XIX, que assistimos às primeiras manifestações de divulgação de ciência e cooperação entre ciência, técnica e indústria. A primeira Exposição Internacional, que ocorreu em Maio de 1851, foi inaugurada em Londres. As máquinas expostas nesta exposição eram símbolos dos tempos modernos em que a ciência e a técnica conjugavam esforços para promover o progresso (Neves, 2001).

Na década de 60, surge no contexto internacional uma forte discussão sobre a prática e o papel social dos museus. Até aí eram entendidos como espaços de preservação dos artefactos marcantes da história da ciência e lugares onde se desenvolviam investigações sobre estes artefactos, considerados símbolos da evolução científica e tecnológica, com o intuito de difundir o conhecimento científico junto de públicos jovens e de os recrutar para as áreas da ciência. Após este período surge um tipo de museus de ciência com uma intervenção mais diversificada e mais voltada para públicos diferenciados. Mas é nos Estados Unidos que esta intervenção é mais notória e evidente com fortes alterações de dinamização, com carácter “multidisciplinar, integrando ciência, tecnologia e arte e recorrendo amplamente às técnicas interactivas de carácter experimental…denominados de science centers espaços que provocam, atraem, seduzem e motivam o visitante…” (Valente et al 2005:189) a entrar em contacto com os conteúdos de ciência e tecnologia recorrendo a actividades de experimentação do tipo «faça você mesmo».

Baseada em estudos de opinião desenvolvidos por investigadores da área, os centros de ciência dirigem a sua acção mais para a interactividade no sentido de colmatar a iliteracia (o termo literacia impõe-se como forma de diferenciar o que é ensinado e o que é percebido por quem está exposto aos vários contextos do conhecimento) científica. A valorização do processo comunicativo entre os visitantes e a ciência é mediada por um enfoque na interactividade, que o sujeito estabelece com os artefactos de ciência, dando relevo à acção do sujeito na apropriação do conhecimento. Privilegia-se nestes espaços de divulgação de ciência o conhecimento não-formal estabelecendo um diálogo entre a ciência e a sociedade.

Ao tentar analisar a área de intervenção dos museus de ciência deparamo-nos com uma questão, que reside em perceber quais os objectivos destas instituições, como espaços de divulgação de ciência. Esta discussão remete-nos para a diferenciação proposta por

Montpetit (1998), ao considerar três abordagens: a ontológica, a histórica e a epistemológica.

Segundo este autor, na abordagem ontológica, a preocupação museológica reside em mostrar a realidade (a natureza e suas causas), representando-a por minerais, animais e vegetais, ou seja, a globalidade do universo. Pela abordagem histórica entende-se o museu como espaço de narrativa coerente com a história da ciência e da técnica, com recurso a momentos áureos e personagens que ilustram esses acontecimentos científicos, a partir de colecções e de artefactos. Assim, Montpetit relembra que “essa aproximação histórica liga o domínio da ciência e das técnicas à aventura humana e mostra as influências que as ciências e suas aplicações tiveram sobre a vida em sociedade (1998:176). Já a abordagem epistemológica para Valente et al (2005) está presente nos museus que focalizam a análise, a construção e o desenvolvimento do discurso científico em si, através da acção. Demonstram, por meio de construções, os modelos e instrumentos científicos, como se constroem os processos científicos e como acontecem os fenómenos científicos. Daqui se percebe que a diferenciação entre os museus de ciência reside nas diferentes abordagens e concepções de ciência e de técnica, mas também na relação que é promovida com o seu público. As instituições que enfatizam a abordagem ontológica promovem exposições centradas em colecções de relevância científica e apresentam de forma exaustiva numerosas espécimes. Para o autor a sua origem remonta aos gabinetes de curiosidades, têm um carácter enciclopédico e contam com a contribuição de diferentes áreas do conhecimento. Como exemplo deste tipo de abordagem, referiremos o Muséum National d´Histoire Naturelle de Paris.

Por outro lado, os museus que privilegiam a abordagem histórica situam-se nas áreas da etnografia e antropologia. Exploram temáticas sobre o desenvolvimento das técnicas e das ciências nas diferentes culturas, especialmente a passagem da sociedade tradicional para a sociedade industrial. Como marcos históricos do progresso científico deste período temos a invenção da máquina a vapor e a electricidade. São o Science Museum de Londres ou o Musée National de Téchnique de Paris, exemplos da perspectiva histórica. Já a perspectiva epistemológica, centraliza a sua acção na experiência científica, mas numa primeira fase é destinada essencialmente a especialistas, com recurso a espaços onde funcionam salas de anatomia, institutos, laboratórios e universidades. É a partir da abordagem epistemológica, embora dirigida a um público não especialista, que surgem os

«science centers» durante o século XX e que procuram de acordo com Valente et al uma “aproximação com o público a partir de preocupações marcadamente pedagógicas” (2005:193).

Estes espaços de divulgação da ciência e da técnica consolidam-se na década de 60 com a abertura do Ontario Science Centre, em Toronto e do Exploratorium, em São Francisco. Na década de 80 ocorre a explosão de novos espaços de ciência interactiva, acolhendo Paris o Cité des Sciences et de L´Industrie – La Villette. Nestes espaços os visitantes tinham a oportunidade de desenvolver acções e descobrir como sujeitos activos, através de uma relação directa (manipulação e observação) com os módulos de ciência propostos, induzindo indirectamente a aquisição de conhecimentos. Com esta dinâmica o público experiencia de forma directa, activa e lúdica o fenómeno científico.

Em Portugal este movimento de divulgação da ciência e promoção da cultura científica junto da população em geral surge em 1996, com o Programa Ciência Viva. Este programa tem como objectivo apoiar acções dirigidas para a promoção da educação científica e tecnológica na sociedade portuguesa, com especial ênfase nas camadas mais jovens e na população escolar dos ensinos básico e secundário (ANCCT).