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Dos princípios e premissas maiores da semiótica europeia –

3 Da fundamentação teórica: a semiótica de inspiração

3.1 Dos princípios e premissas maiores da semiótica europeia –

Louis Hjelmslev, ilustre linguista dinamarquês, é considerado o fundador da semiótica europeia: no desenvolvimento de sua teoria sobre a significação ou semiose, reconhece as contribuições de apenas um teórico, Ferdinand de Saussure, cujas proposições retoma na tentativa de conferir-lhes maior amplitude e rigor.

Segundo Hjelmslev, a semiótica é uma ciência cujo propósito maior é o estudo dos diferentes sistemas de significação, linguísticos e não linguísticos, utilizados pelo homem. O objetivo da teoria semiótica seria verificar a tese de um sistema subjacente ao processo e de uma constância que subentendem as flutuações, de maneira a conceber as linguagens “não mais como

Hjelmslev acredita que o objeto de estudo por excelência da semiótica é o texto “em sua

totalidade absoluta e não analisada” (HJELMSLEV, 2009, p. 14). Percebe-se aí uma primeira

ampliação em relação às proposições saussureanas: a passagem do signo para o texto. Assim, em sua perspectiva, a semiótica propõe-se a:

... indicar um procedimento que permita o reconhecimento de um dado texto por meio de uma descrição não contraditória e exaustiva do mesmo. Mas ela deve mostrar como é possível, do mesmo modo, reconhecer qualquer outro texto da mesma natureza suposta, fornecendo-nos instrumentos utilizáveis para tais textos (HJELMSLEV, 2009, p. 19-20).

Para o autor, todo o texto, como o signo, contrai uma relação entre duas grandezas, expressão e conteúdo, que mantêm entre si uma relação de interdependência, pressupondo-se mutuamente. À relação contraída por essas grandezas, Hjelmslev denomina de função semiótica.

A função semiótica é, em si mesma, uma solidariedade: expressão e conteúdo são solidários e um pressupõe necessariamente o outro. Uma expressão só é expressão porque é a expressão de um conteúdo, e um conteúdo só é conteúdo porque é conteúdo de uma expressão (HJELMSLEV, 2009, p. 54).

Cada um desses funtivos – expressão e conteúdo –, por sua vez, comporta uma substância e uma forma. Mas “a substância depende exclusivamente da forma”, não podendo ser-lhe atribuída uma existência independente (HJELMSLEV, 2009, p. 55). Dessa maneira, conteúdo e expressão só podem ser estruturados internamente a partir da projeção da forma sobre a substância: tem-se, assim, uma forma de conteúdo e uma forma de expressão. A essa projeção da forma sobre a substância, distinta de uma linguagem para outra, Hjelmslev denomina de sentido

formado. Aliás, cabe ressaltar que a teoria greimasiana recupera essas noções, visto que a

narratividade nada mais é do que uma forma estruturadora da substância do conteúdo.

Segundo Hjelmslev, o sentido organiza-se diferentemente em cada linguagem, que projeta diferentemente uma forma sobre a substância de conteúdo e expressão. Assim,

... a substância não condiciona necessariamente a forma linguística, enquanto que a forma linguística condiciona obrigatoriamente a substância. Em outras palavras, a manifestação é uma seleção na qual a forma linguística é a constante e a substância, a variável (HJELMSLEV, 2009, p. 113).

Não se deve, entretanto, “confundir ausência de conteúdo com ausência de sentido” (HJELMSLEV, 2009, p. 54), pois um conteúdo de uma expressão pode não possuir sentido algum, mas ainda assim ser considerado um conteúdo. Isso porque o sentido é o fator comum que relaciona as diferentes linguagens, ou seja, apesar das diferentes formas assumidas por cada uma das linguagens, há uma grandeza que se mantém comum entre elas: o sentido – que, em cada uma delas, “é ordenado, articulado, formado de modo diferente” (HJELMSLEV, 2009, p. 56).

Hjelmslev (2009, p. 83) acredita que forma e substância são termos relativos: aquilo que de um ponto de vista é substância, pode transformar-se em forma em um outro nível de análise. Ora, o fato de forma e substância serem termos relativos leva, por dedução, ao reconhecimento de uma hierarquia extralinguagem que contrai uma função com a hierarquia de linguagem em exame.

Por outro lado, segundo Hjelmslev, toda significação de um texto “nasce de um contexto,

quer entendamos por isso um contexto de situação ou um contexto explícito, o que vem a dar no mesmo; com efeito, num texto ilimitado ou produtivo (uma língua viva, por exemplo), um contexto situacional pode sempre ser tornado explícito” (HJELMSLEV, 2009, p. 50). Com essas

afirmações, Hjelmslev cria a possibilidade de um alargamento dos níveis de pertinência da análise, do texto em direção a uma textualidade que lhe serve de entorno, tal como propõem estudiosos como Fontanille (2005) e Duarte (2014).

Na perspectiva hjelmsleviana, o texto, objeto de uma análise semiótica, pode e deve ser considerado a partir das noções de sistema e processo. O sistema é por ele compreendido como

“o conjunto das relações de diferença e de semelhança que definem as possibilidades abertas pela organização efetiva do objeto analisado”; o processo seria “o conjunto dos agenciamentos dos elementos selecionados, combinados, e dos quais a co-presença constitui o objeto realizado”

(FLOCH, 2001, p. 13).

Por outro lado, do ponto de vista hjelmsleviano, todo o texto, como o signo, além das relações com o contexto, contrai relações paradigmáticas (ou ... ou) e sintagmáticas (e ... e) com outros textos. “Uma outra distinção, essencial para a teoria da linguagem, é a que existe entre a

função “e ... e”, ou “conjunção”, e a função “ou ... ou” ou disjunção” (HJELMSLEV, 2009, p.

41).

As relações paradigmáticas (correlações) são aquelas que ligam um texto a outros por traços de semelhança e dessemelhança; as de caráter sintagmático (coexistência) correspondem

à articulação, associação e combinatória com outros textos aos quais ele recupera e/ou responde. Esses dois tipos de relações intertextuais são o objeto de estudo do semioticista russo Mikhael Bakhtin, servindo de fundamento para suas noções de gênero e dialogia.

É também na perspectiva de uma intertextualidade que Hjelmslev propõe as noções de semiótica conotativa e de metassemiótica. De acordo com o mestre dinamarquês, “há também

semióticas cujo plano da expressão é uma semiótica e também outras cujo plano do conteúdo é uma semiótica. Chamaremos as primeiras de semióticas conotativas e as segundas de

metassemióticas” (HJELMSLEV, 2009, p. 121 – grifos do autor). Grande parte da obra de

Roland Barthes centra-se no exame da conotação e da metassemiótica (metalinguagem). Acredita-se que, ao conceber as relações antes descritas, Hjelmslev confere maior amplitude ao estudo dos textos, pois prevê a possibilidade de exame não só do contexto ou paratexto como do intertexto, que passam a fazer parte da textualidade, objeto de análise.