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D E UM SÉCULO AO OUTRO : DOIS AUTORES , DUAS OBRAS

B. Eça de Queirós e A ilustre casa de Ramires

Eça de Queirós foi um observador atento e crítico dos comportamentos e anseios dos homens do seu tempo e dos Portugueses em especial. Considerado “o mais dotado expoente do realismo oitocentista (...) que consegue associar a uma crítica social (...) uma inédita fantasia” (Saraiva e Lopes, [s.d.], p. 891), Eça foi outro dos portugueses que se impregnou das andanças pelo mundo e das particularidades do seu tempo sem deixar de activar, através da sua escrita, a relação pessoal com Portugal.

A sua inclusão neste trabalho justifica-se, como se indicou, pela ligação que, em nosso entender, estabelece entre discurso antigo (de D. Francisco Manuel de Melo) e o discurso actual sobre o Português.

Portugal n’A ilustre casa de Ramires

A obra, de onde provém o pequeno texto em análise, é do final da vida do autor e simultaneamente do final do século XIX. A sua publicação ocorre no ano da morte de Eça mas depois da sua morte.

Contrariamente ao que se observou com Agostinho da Silva, na Educação de Portugal, não faz Eça de Queirós, n’A ilustre casa de Ramires, uma descrição circunstanciadamente histórico-social das características e projecto nacional portugueses. Trata-se de uma “novela histórica” (Saraiva e Lopes, ob. cit., p. 921), e é através da história de uma família, a notável família Ramires, que se processam a análise e reflexão do autor sobre a historia e identidade nacionais. De Portugal fala-se pouco, quase não se fala; o objecto em observação e discussão é esta antiquíssima família portuguesa, tão antiga que é anterior à nacionalidade, e que, por isso mesmo, foi determinante no início desta, sendo sua meia irmã, e continuando suporte e ânimo em todos os períodos decisivos da consolidação, expansão e renovação de Portugal94.

94 A antiguidade dos Ramires está patente em toda a obra e é logo no início assim

caracterizada por Eça de Queirós: “Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal. (...) Mais antigo na Espanha que o Condado Portucalense, rijamente como ele crescera e se afamara o solar de Santa Ireneia – resistente como ele às fortunas e aos tempos. E depois, em cada lanço forte da História de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou

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Através da família Ramires perpassam os acontecimentos mais significativos e até certas trivialidades da longa vida e história nacionais. Só quase a terminar a obra, mais precisamente na página final, e de uma forma incrivelmente queirosiana em que na última gota se esconde a essência, o último Ramires, na sua extraordinária paradoxalidade, é comparado a nada mais nada menos que Portugal. Ao Portugal verdadeiro e persistente, aquele que por entre avanços e recuos, glórias e fracassos, mantém a chama da identidade nacional.

As duas escassas páginas, em que tudo se esclarece, revelam brilhantemente a reconhecida mestria de subtileza e adjectivação de Eça, ou o autor como “artista ao nível da língua” (Saraiva e Lopes, ob. cit., pp. 925-31), e apresentam, como se irá ver a seguir, um interessante paradigma da representação social dos Portugueses.

“- Extraordinário, aquele Gonçalo!

O Videirinha não findara o seu enlevado sorriso:

- Tem muito talento... Ah!, o Sr. Doutor tem muito talento.

- Tem muita raça! - exclamou o “Titó”, levantando a cabeça. - E é o que o salva dos defeitos... Eu sou amigo de Gonçalo, e dos firmes. Mas não o escondo, nem a ele... sobretudo a ele. Muito leviano, muito incoerente... Mas tem a raça que o salva. - E a bondade, Sr. António Vilalobos! - atalhou docemente padre Soeiro. - A bondade, sobretudo como a do Sr. Gonçalo, também salva... Olhe, às vezes há um homem muito sério, muito puro, muito austero, um Catão que nunca cumpriu senão o dever e a lei... E todavia ninguém gosta dele, nem o procura, Porquê? Porque nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que ofendeu mesmo a lei... Mas quê? É amorável, generoso, dedicado, serviçal, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o amam, e não sei mesmo, Deus me perdoe, se Deus também não o prefere...

A curta mão que acenara para o céu recaiu sobre o cabo de osso do guarda-sol. Depois, corado com a temeridade de pensamento tão espiritual, acudiu cautelosamente:

- Que esta não é propriamente doutrina da Igreja!... Mas anda nas almas; anda já em muitas almas.

Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra, e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

grandiosamente pelo heroísmo, pela lealdade, pelos nobres espíritos. Um dos mais esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha ‘o Cortador’, colaço de Afonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de cavaleiro, velara as armas na Sé de Zamora), aparece logo na batalha de Ourique, onde também avista Jesus Cristo sobre finas nuvens de ouro, pregado numa cruz de dez côvados.” (Queirós, 1980, p. 6).

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- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe Sr. Padre Soeiro, quem ele me lembra?

- Quem?

- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

- Quem?...

- Portugal.” (Queirós, ob. cit., pp. 336-8).

Gonçalo Mendes Ramires e os Portugueses

A metáfora de Eça de Queirós, de um homem tomado por um país, cria um par (Gonçalo-Portugal) de particular interesse para a caracterização da identidade portuguesa e sua representação há um século atrás.

Através de Gonçalo se nos revela um conjunto de características humanas, esperáveis, segundo Eça, de quem se configure com Portugal. Conjunto suficientemente amplo e diversificado, que esboça contornos claros e revela uma determinada estruturação na representação dos Portugueses. Resulta do referido conjunto um retrato psicológico de tal maneira vivo que não é difícil a nossa imaginação desenhar a figura de alguém conhecido (e dificilmente não amado).

Os traços pelos quais Gonçalo é descrito constituem um modelo de pessoa em que se evidenciam nítida e incisivamente algumas constantes identitárias presentes em autores do século XX anteriormente referidos. Aqui se reencontra a dualidade-complexidade nutrindo abundantemente a base do comportamento português, ao mesmo tempo que se identifica um ponto mais elevado, ou um centro, em que esta dualidade se funde e torna

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o Português uno. A afectividade (bondade) aparece em Eça como o indiscutível catalisador desta síntese.

O eixo afectividade-razão (vontade), que atrás se assinalou, é evidenciado em Eça como em nenhum outro autor. As primeiras palavras situam de imediato a questão: “muito leviano, muito incoerente... Mas tem a raça que o salva. / – E a bondade”, sobretudo, a bondade.”.

A raça poderá aqui ser entendida como a hombridade de que falava Cortesão e que, sendo aceite por Eça, também para ele não parece caracterizar correctamente o Português; enquanto que a bondade, o ser amorável e amado de todos, e talvez mesmo o preferido de Deus..., essa sim, o poderá adequadamente caracterizar.

Com a acutilância que lhe é própria, Eça mostra em primeiro lugar o negativo da imagem (Quadro 22) para, em seguida, a apresentar com todos os tons da sua cor forte e com os matizes de uma surpreendente complexidade.

Quadro 22: Gonçalo (Portugal) e o seu anti-modelo

A bondade e o amor

(alguém bondoso como Gonçalo)

O dever e a lei

(um Catão: o oposto de Gonçalo)

Leviano muito sério

Descuidado muito austero

Com defeitos, com culpas muito puro

Esquece o dever, ofende a lei cumpridor do dever, cumpridor da lei Amorável, generoso, delicado, serviçal,

sempre com palavra doce

nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu

sempre com rasgo carinhoso, todos o amam ninguém gosta dele, ninguém o procura

Igualmente muito claro é o contraditório carácter português. Sob o traço mais forte da bondade descobrem-se diversos traços que lhe asseguram uma antinomia permanente: os fogachos e entusiasmos logo tornados fumo, mas a muita persistência e o muito aferro quando filado à sua ideia; a vaidade de braço dado com a simplicidade; a terrível desconfiança de si acompanhada de uma metade de herói imprevisível.

Se repararmos bem no tipo de traços apontados por Eça, vemos como as duas forças opostas (impulsos centrífugo-centrípeto) de que falava Cortesão lhe são bom enquadramento (Quadro 23).

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Quadro 23: Os opostos e a síntese na representação do Português (Cortesão e Eça)

Impulso centrífugo:

vagamundo, renovador, universalista

(Cortesão)

Impulso centrípeto: telúrico, conservador, castiço

(Cortesão) fogachos e entusiasmos logo em fumo persistência, muito aferro generosidade, desleixo, constante trapalhada

nos negócios

muita honra, escrúpulos quase pueris

imaginação, exagero até à mentira espírito prático, sempre atento à realidade útil vaidade, gosto de se arrebicar, de luzir simplicidade tão grande que dá o braço a um

mendigo

tão palrador, tão sociável fundo de melancolia um dia se decide, e aparece um herói, que tudo

arrasa

desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe

Síntese

franqueza, doçura, a bondade, a imensa bondade

aquela antiguidade de raça, assim todo completo, com o bem, com o mal (Eça de Queirós)

plasticidade amorável (Cortesão)

Finalmente, a inteireza do Português pela bondade é, declaradamente, uma inteireza de afectividade, de impulsividade: “aquele arranque para África... Assim, todo completo, com o bem, com o mal”, com as forças emotivas, que lhe estruturam a imensa bondade.

Bondade que não é unilateral, que não deixa na sombra os vícios. É bondade apesar do mal. E o mal, com que em si mesmo o Português (Gonçalo) convive, é, por isso, um mal concreto e não o mal arbitrariamente decretado pelo dever e pela lei. A pureza abstracta de um Catão não tem sentido para ele, não tem valor.

Do Português Amoroso, saudoso de D. Francisco Manuel de Melo para o Português amorável, bondoso de Eça, o princípio afectivo persiste. Além deste princípio também temas maiores, anteriormente identificados nos autores do século XX que se analisaram, se evidenciam em Eça e na sua representação da identidade nacional. Na descrição de Gonçalo, como se exemplifica a seguir, podem ver-se em funcionamento diferentes planos da

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representação da identidade portuguesa: a relação consigo, a relação com os outros, a atitude global face ao mundo (Quadro 24).

Quadro 24: Gonçalo Ramires e os Portugueses

Eça de Queirós (Gonçalo/Portugal) (séc. XIX) Diversos autores (O Português) (séc. XX)

Esperança no milagre Crença milagreira Jorge Dias Resistência à adversidade pela crença

Cunha Leão Fogachos e entusiasmos breves Vontade descontínua - impulsividade

Aquilino Ribeiro Persistência, aferro Persistência Agostinho da Silva Desconfiança de si / acobardado Insegurança Cunha Leão

Agudo sentido do ridículo / inibição Jorge Dias

Relação consigo

Herói Doméstica sensatez não Agostinho da Silva Não sabe viver sem sonho e sem glória

Jorge Dias

Sentimentos de honra Hombridade Jaime Cortesão

Melancolia Melancolia Agostinho da Silva

Inquietação Inquietação Jorge Dias

Jaime Cortesão Imaginação Imaginação sonhadora Jorge

Dias Predomínio da imaginação sobre a inteligência Fernando Pessoa Espírito prático Fundo prático e realista Jorge Dias

Astucioso realismo Fernando Namora Povo realista, teimosia do sonho

Agostinho da Silva Viveza, facilidade em compreender Capacidade eminentemente compreensiva

Jaime Cortesão

Vaidade Ostentação Jorge Dias

Sociável e palrador O homem mais sociável deste mundo

Aquilino Ribeiro

Relação com os outros

Simplicidade Fraternidade da casa da malta Aquilino Ribeiro Fraternal e universal Agostinho da Silva

Bondade imensa (amorável, generoso, carinhoso)

Humano, sensível, amoroso e bondoso Jorge Dias Riqueza amorosa Jaime Cortesão Grandes amorosos F. Cunha Leão País de amadores Jorge Sena

Relação com o mundo

Desleixo, trapalhada nos negócios

Descuido, lassidão, filosofia de lazzeróne Aquilino Ribeiro Atonia para o dever social Aquilino Ribeiro

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Síntese

Os Portugueses retratados em Gonçalo Mendes Ramires apresentam as seguintes características:

1. São fortemente paradoxais nas relações consigo e com o mundo persistentes e de entusiasmos breves, generosidade e trapalhada nos negócios, imaginação e espírito prático, desconfiança de si e decidido herói... −, mas apresentam grande coerência na relação com os outros através da dimensão afectiva − imensa bondade.

2. Esta bondade (amorável) tem como anti-modelo o dever e a lei. A seriedade, austeridade, o cumprimento de deveres formais são subalternizados em detrimento da leviandade e de defeitos vários que não impedem o rasgo carinhoso sempre pronto.

3. Ainda que subtilmente expresso, poder-se-á concluir que, tal como em Agostinho da Silva, o modelo desta qualidade amorável seja a divindade − para quem Gonçalo talvez seja mesmo o preferido − e que o processo de identificação com o divino constitui uma forma humana de ser ainda não plenamente vigente − “Que esta não é propriamente doutrina da Igreja!... Mas anda nas almas, já anda nas almas.”.

Considerações

Em análise complementar ao corpus literário de autores do século XX, anteriormente analisado, estudaram-se aspectos referentes à identidade portuguesa em Agostinho da Silva e Eça de Queirós. Com esta segunda abordagem ao discurso erudito pretendeu-se explorar de forma mais alargada − passado-presente-futuro − a perspectiva diacrónica deste trabalho, procurando identificar elementos relativos à persistência da componente afectiva na representação social dos Portugueses.

Focalizadas de forma diferente, as características afectivas são apontadas pelos dois autores como traço e aspiração mais fundamente inscritas na identidade nacional − imensa bondade em Eça, amor irrestrito em Agostinho da Silva.

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Apesar de uma orientação temporal distinta − Eça revitalizando a memória do vivido através da figura tutelar da antiquíssima família Ramires (portuguesa, embora anterior à própria nação), Agostinho da Silva insistindo no desabrochar pleno dos valores que estruturaram os primeiros séculos da nacionalidade e em interregno desde há 500 anos −, diversos aspectos aproximam entre si estes autores, aproximando-os igualmente das caracterizações paradigmáticas apresentadas no capítulo anterior.