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E STUDO DA IDENTIDADE PORTUGUESA COMO REPRESENTAÇÃO SOCIAL : MATERIAIS E METODOLOGIA

B. Materiais e sua recolha

5. Questionário complementar: segunda validação experimental do núcleo central

Este último instrumento de inquirição tem por objectivo específico testar, através do que designámos por cenário ambíguo, a constituição do núcleo central da representação dos Portugueses delimitada nas fases anteriores e, tal como afirmámos anteriormente, inspira-se no método ISA.

Atendendo aos objectivos visados, na construção do presente instrumento, a selecção dos itens centrais a incluir no cenário foi feita a partir dos resultados obtidos nas fases A e B e mediatizada pelas referências eruditas.

CAPÍTULO 3 - Estudo da identidade portuguesa como representação social: materiais e metodologia 63 Ao conjunto das seis características anteriormente testadas (imagens ambíguas) retirámos uma característica considerada periférica (revoltar-se com injustiças sociais) e juntámos outra hipotetizada como central (ser sentimental), retirada de uma referência erudita (afirmação de Unamuno, apresentada no Quadro 3).

O Cenário Ambíguo elaborado consistiu na descrição de um personagem fictício (H.), sem que fosse feita qualquer referência quer à nacionalidade quer a traços de personalidade que pudessem influenciar as respostas dos inquiridos. A estes era pedido que, numa escala de 6 níveis, avaliassem a possibilidade de H. ser uma pessoa de nacionalidade portuguesa. No total, empregámos sete versões do cenário ambíguo: seis afirmando as características em estudo e uma negando Dar importância à amizade, versão que se apresenta em seguida (Quadro 5).

Quadro 5: Exemplo de Cenário Ambíguo

“H. é uma pessoa de um determinado país que gosta de conhecer pessoas de outros países.

Do contacto com algumas delas, apercebeu-se de que partilha com todas certas características pessoais. No entanto, também já se apercebeu de que tem determinadas características que é mais frequente encontrar entre as pessoas do seu país que nas de outros países. Entre estas características, aquela que considera mais evidente é ser uma pessoa que não dá importância à amizade.” 31

Em seu entender, poderemos considerar H. uma pessoa do seguinte tipo:

Descritores Muito provavel -mente não [1] [2] [3] [4] [5] Muito provavel -mente Sim [6]

Uma pessoa de nacionalidade portuguesa. Uma pessoa corajosa.

Uma pessoa trabalhadora. Uma pessoa simpática. Uma pessoa criativa.

Uma pessoa que dá muita importância à amizade. Uma pessoa atenciosa e agradável nas relações sociais.

A cada sujeito inquirido foi apresentado apenas um cenário para descrição de H.

31

O texto de cada cenário foi concluído de forma diferente, consoante a característica que se pretendia testar.

64 CAPÍTULO 3 - Estudo da identidade portuguesa como representação social: materiais e metodologia Aplicando os pressupostos do método ISA anteriormente referidos, ao ser descrito por um cenário que negue uma característica central, o objecto representado H. não será reconhecido enquanto português, mas sê-lo-á se a descrição afirmar essa característica; contrariamente, a confrontação com um cenário onde figurem apenas características periféricas não permite ao sujeito concluir se H. é ou não o uma pessoa de nacionalidade portuguesa.

Para além do reconhecimento da nacionalidade, solicitava-se ainda aos inquiridos que completassem a caracterização de H. através de uma grelha constituída por seis descritores. Estes descritores repetem os itens empregues na constituição dos diferentes cenários, tendo-se ainda adicionado o descritor Simpático, em função dos resultados obtidos nas Fases D a F. Esta caracterização suplementar tinha por objectivo avaliar se a composição dos cenários influenciava ou não a atribuição de outras características a H.

Inquirição e amostras

A recolha de informação empírica, como já foi referido, realizou-se entre 1988 e 1995 no Algarve e no Alentejo, e constou de várias fases (Quadro 6). Em seguida apresentam-se as populações utilizadas em cada fase e faz-se uma breve descrição das amostras inquiridas. Uma descrição mais completa será feita no momento de apresentação dos resultados na Terceira Parte.

Quadro 6: Populações e amostras inquiridas

Fases População Inquiridos

Fase A Cidadãos comuns N = 215 (113 masc. + 100 fem. + 2 s/dados) Fase B Estudantes universitários N = 131 (49 masc. + 82 fem.)

Fase C Cidadãos comuns N = 14 (7 masc. + 7 fem.) Fase D Estudantes universitários N = 24 (7 masc. + 17 fem.) Fase E Estudantes universitários N = 56 (24 masc. + 32 fem.) Fase F Estudantes universitários (F1) N = 125 (57 masc. + 68 fem.) Estudantes do ensino secundário (F2) N = 100 (41 masc. + 59 fem.) Fase G Estudantes universitários (G1) N = 119 (49 masc. + 70 fem.) Cidadãos comuns (G2) N = 29 (15 masc. + 14 fem.)

CAPÍTULO 3 - Estudo da identidade portuguesa como representação social: materiais e metodologia 65

Fase A

Na definição do plano de amostragem deste primeira inquirição não foi tida em conta qualquer representatividade numérica; pretendia-se apenas que a amostra apresentasse alguma estratificação, pelo que se seleccionaram os respondentes em função de quatro variáveis: sexo, idade, escolaridade, actividade profissional. Contudo, devido à situação actual do Algarve como região migratória de destino, tornou-se possível contar com uma quinta variável – a naturalidade (Algarve / Fora do Algarve). Tendo a inquirição sido dirigida a cidadãos algarvios residentes em Faro e Tavira, obteve-se uma amostra bastante heterogénea, em que a diversidade etária, de habilitações escolares e de áreas profissionais permitiu avaliar com alguma segurança tendências comuns na atribuição de características aos Portugueses. O inquérito realizou-se porta a porta e consideraram-se válidos 215 questionários.

Fase B

Nesta segunda fase de inquirição, procurou-se reduzir a heterogeneidade presente na amostra anterior e no respeitante às variáveis sociodemográficas, dado que a análise dos resultados não revelara incluência significativa das mesmas (Capítulo 6). A população-alvo nesta fase foram apenas jovens estudantes universitários frequentando a Universidade do Algarve nos cursos de Biologia Marinha e Pescas, Engenharia Hortofrutícola, Línguas e Literaturas Modernas, Economia e Gestão de Empresas e Ensino de Informática na. A recolha de informação foi realizada em Janeiro de 1992 através de questionário e em aplicação colectiva, considerando-se válidos 131 questionários.

Fase C

A fase de avaliação preliminar do modelo de questionário final foi realizada junto de uma amostra estratificada de 14 respondentes em situação de entrevista aprofundada. Não se teve em conta a

66 CAPÍTULO 3 - Estudo da identidade portuguesa como representação social: materiais e metodologia representatividade das quotas utilizadas, uma vez que o objectivo principal era reintroduzir nesta fase de pré-inquérito a diversidade sociodemográfica no discurso produzido sobre os Portugueses. A amostra incluiu igual número de respondentes do sexo masculino e feminino, de três níveis etários (idades compreendidas entre os 18 e os 72 anos), com diferente escolaridade (ensino primário, secundário e superior) e com actividade profissional diversa (domésticas, operários, comerciantes, empregados de serviços, estudantes, professores), residindo em meio urbano (Faro) e meio rural (Fuseta, concelho de Olhão).

Fases D a F

Na primeira destas fases (Fase D), procurou-se testar o modelo de questionário desenvolvido a partir do guião de entrevista aprofundada empregue na fase anterior. A amostra utilizada consistiu em 24 jovens estudantes da Universidade do Algarve frequentando o primeiro ano das licenciaturas em Engenharia do Ambiente e Biologia Marinha e Pescas. Tratou-se de uma amostra que se pode considerar homogénea, em que apenas género sexo e naturalidade introduzem diversidade.

A Fase E consistiu na aplicação de uma versão ligeiramente modificada do questionário empregue na Fase D e compreendeu uma amostra de 56 jovens estudantes dos cursos de Engenharia Hortofrutícola e Línguas e Literaturas Modernas da Universidade do Algarve.

Na Fase F, a versão final do questionário (Questionário Geral) foi integralmente aplicada a uma amostra de 125 jovens estudantes da Universidade do Algarve (alunos dos cursos de Matemática, Engenharia Hortofrutícola, Ensino Informática, Informática de Gestão e Engenharia de Sistemas e Computação) e a uma amostra de 100 estudantes do ensino secundário frequentando a Escola Secundária de Olhão – 12º ano – e a Escola Secundária de Loulé – 10º ano, via técnico-profissional de Informática.

No que se refere ao conjunto de perguntas elaboradas, como se referiu, o texto inicial do questionário foi sofrendo alterações, pelo que nem todas as perguntas foram objecto de inquirição nestas três fases. Embora os resultados que se vão analisar na Terceira Parte deste trabalho provenham, na sua maioria, da versão final do questionário, em alguns casos o conjunto

CAPÍTULO 3 - Estudo da identidade portuguesa como representação social: materiais e metodologia 67 da informação que se apresenta aglutina respostas colhidas ao longo das diferentes fases de inquirição. Sempre que assim acontece, os efectivos da amostra deixam se ser os 225 inquiridos da Fase F, variando em função das fases em que a pergunta em apreciação foi apresentada e atingindo um máximo de 305 respondentes.

Fase G

A informação recolhida na Fase G destinou-se a uma segunda e última verificação experimental da presença de itens afectivos no núcleo central da representação social dos Portugueses, tendo ainda como objectivo tornar esta verificação extensiva a inquiridos não estudantes.

A inquirição decorreu em dois momentos distintos, recorrendo-se em cada um deles a amostras e a procedimentos diferentes.

A primeira amostra incluiu 119 estudantes universitários frequentando cursos de licenciatura na Universidade de Évora (Ensino de Física e Química) e na Universidade do Algarve (Matemática, Bioquímica, Ensino de Informática, Informática de Gestão e Engenharia de Sistemas e Computação), podendo ser caracterizada, em traços largos, como homogénea no que respeita à idade e nível de formação escolar. Os estudantes foram inquiridos através de questionário aplicado colectivamente, tendo-se procurado garantir que os sete cenários ambíguos construídos fossem utilizados em igual proporção.

Dado que na constituição dos cenários ambíguos se incluía uma característica extraída do discurso erudito, pretendeu-se averiguar se este discurso era igualmente partilhado por franjas mais heterogéneas da sociedade portuguesa, tal como se revelara entre os estudantes. Com esta finalidade inquiriu-se uma pequena amostra socialmente diversificada, nomeadamente quanto à situação socio-económica dos informantes, de 29 cidadãos residentes no Algarve. Em consequência, esta segunda amostra caracteriza-se por uma notória diversidade interna quanto a idade (idade média de 47 anos), níveis de escolarização (57% até ao ensino primário) e actividade profissional (cerca de um terço dos respondentes distribuídos pelos sectores primário e secundário). A inquirição fez-se por entrevista, e, para encurtar a realização desta fase, usaram-se apenas cenários ambíguos referentes às características hipotetizadas como constituintes do núcleo

68 CAPÍTULO 3 - Estudo da identidade portuguesa como representação social: materiais e metodologia central. Consequentemente, os resultados obtidos com esta amostra poderão ser tomados como reforço de âmbito mais alargado ao teste da hipótese inicial deste trabalho.

Como nota final sobre as populações inquiridas e a preferência dada à população jovem importará dizer o seguinte.

Em primeiro lugar, os estudos exploratórios, desenvolvidos nas Fases A a C, mostraram que a diversidade etária e sócio-económica das populações inquiridas não introduziu diversidade sistemática nos modos de resposta, pelo que o trabalho com uma população homogénea se nos apresentou como opção metodológica defensável.

Em segundo lugar, o principal objectivo deste estudo é verificar se a afectividade permanece elemento do núcleo central da representação da identidade portuguesa. Deste ponto de vista, os jovens são, de entre os cidadãos portugueses, aqueles que se apresentam com maior capacidade para intervir no processo de manutenção/transformação das representações sociais da identidade nacional. Por um lado, constituem um extremo etário, no que se tornam um estrato adequado para estudar quer a permanência quer a eventual transformação dos conteúdos identitários nacionais. Por outro lado, são a parte da população nacional que poderá ou não assegurar a passagem da antiga imagem do Português Amoroso.

Em consequência, e como amostra principal, inquirimos jovens universitários e estudantes da fase final do secundário. Por razões logísticas decorrentes da nossa situação como docente na Universidade do Algarve, esta opção viabilizou, em parte, os custos inerentes ao processo de inquirição.