O POVO PORTUGUÊS E OS P ORTUGUESES NO DISCURSO ERUDITO
D. Alguns paradigmas da identidade portuguesa
2. Vontade descontínua impulsividade irresponsabilidade social
Aquilino Ribeiro distancia-se em parte de Cortesão e Pessoa aos enquadrar de tal modo os defeitos portugueses que aquilo que se poderia considerar vício – vontade fraca, impulsividade, falta de responsabilidade – nos é apresentado como uma visão particular do mundo quase adquirindo uma textura de virtude (Quadro 15).
O conformismo de Cortesão, implícito em Aquilino na “brandura, molice, um certo agastamento perante o esforço, e vontade descontínua” que atribui aos Portugueses, aparece também ligado à enorme adaptabilidade portuguesa mas avaliado de forma mais positiva, seja como tonalidade plástica a suavizar “a rudeza ibérica” 61, seja como sabedoria
existencial. No quadro desta sabedoria, tanto o “descuido”, como “certa lassidão perante a vida e uma certa filosofia de lazzeróne”, se resumem “em considerar a luta como coisa tonta e vã perante a eternidade”. Também a impulsividade (“abandono aos impulsos do bem ou do mal”) decorre desta forma de estar na vida, e a irresponsabilidade, por seu lado, provém do “inaglutinativo” modo de ser dos Portugueses.
Este modo inaglutinativo, que Aquilino caracteriza por uma “aversão pelo associacionismo”, não corresponde propriamente ao desejo de preservar um espaço exterior de liberdade pessoal, de acção individual, característicos do individualismo. Embora tal pareça, quando é dito que se trata de “rebeldia aos vínculos morais, atonia perante o dever social, impropriedade do seu individualismo para tudo o que tenha o carácter de colectivo”; acaba por se entender que, para o autor, o colectivo recusado é o do tipo moderno, dos estados-nação, e que é nesse quadro que se deverá situa a fuga aos deveres estabelecidos, a irresponsabilidade social dos portugueses.
61 Sobre o confronto Portugal - Espanha, Aquilino acaba por afirmar: “Em resumo, uma
Espanha que conserva todo o seu carácter bárbaro, agreste, próprio, um Portugal que, pactuando com usos e costumes de outros povos, deixou esmaecer a rudeza ibérica.” (ANT, p. 15).
CAPÍTULO 4 - O povo português e os Portugueses no discurso erudito 111 Estaremos perante a paradoxal natureza dos Portugueses: o Português é ao mesmo tempo “insolidário com o próximo” e a “gente mais hospitaleira do cosmos”, e Aquilino propõe-se explicar esta contradição. Decorre a mesma de uma descontinuidade da vontade mas apenas para alguns dos seus aspectos, aqueles que se referem à “vida civil” 62; como se o
Português não quisesse ter de ser solidário e sim o fosse perante o desejo sentido em o ser. Esclarece Aquilino que a fraternidade indiscutível dos Portugueses, e que ele fortemente proclama, é uma fraternidade arcaica, uma “fraternidade de casa da malta, impulsiva, sem sanção nem obrigação, toda eventual e caprichosa, pois.” (ANT, p. 22) (Quadro 15).
Quadro 15: Axiomas da identidade portuguesa (Aquilino Ribeiro)
Paradigmas Características resistentes
(constantes e positivas)
Características ocasionais
(tendencialmente negativas)
Sociabilibidade -
adaptabilidade homem mais sociável deste mundo, grande simpatia, bicho
mais adaptável do universo, gente mais hospitaleira do cosmos
Vontade descontínua - impulsividade -
irresponsabilidade social
fraternidade de casa da malta
(eventual, sem sanção nem obrigação, eventual, caprichosa)
vontade fraca, brandura, molice, descuido, lassidão, filosofia de
lazzeróne (luta coisa tonta e vã perante a eternidade),
impulsividade
aversão associativismo, rebeldia, vínculos morais, atonia perante dever social Tal como se observa em Pessoa quando faz decorrer a irresponsabilidade do “excesso de disciplina” 63 nacional, está subjacente
62 Diz o autor: “Sendo o português sociável por excelência, na vida prática, para lá da
boa intenção, é o mais inaglutinativo dos viventes. E porquê? Porque associação implica vontade, disciplina, sobretudo esforço a longo prazo, e o português cinca pela ausência ou atenuamento de qualidades que para o alemão ou o belga são a base da vida civil.” (ANT, p. 22).
63 Fernando Pessoa caracteriza o excesso de disciplina pelo excesso de acção em grupo,
que permite a indeterminação da responsabilidade individual: “nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco.” (ANT, p. 9).
112 CAPÍTULO 4 - O povo português e os Portugueses no discurso erudito
em Aquilino uma acentuação da base grupal-comunitária do modus vivente português.
Noutra perspectiva que vai para além da base grupal e dos valores partilhados, situam alguns autores outra chave da identidade nacional. Trata-se da acentuação do psicológico, de uma procura individual do sentido mais profundo da vida, do anseio de transpor limites, de renovar repetidamente o estabelecido ou, como diz Pessoa, de “obter a proporção fora da lei, na liberdade” (ANT, p. 10). Anseio a que Cortesão se refere como decorrente de um impulso centrífugo (renovador), do duplo apelo cavaleiro andante-místico franciscano.
Quer a proporção fora da lei quer a força centrífuga poderão ser entendidas como abertura ao universal, característica mais atribuída e sobrevalorizada por Almada Negreiros, ao constituir simultaneamente uma abertura ao mais profundo e particular do humano.
Efectivamente, em Almada, o tema da universalidade é apresentado de uma forma muito interessante porque se trata do universal interior, ou seja de uma vivência consciente da individualidade de cada pessoa e da sua procura de conhecimento e expressão da “incógnita” personalidade individual (ANT, p. 18).
Afirmando, no seu estilo ousado mas convicto, que “o português tem uma acessibilidade melhor dos sentimentos universais”, Almada leva-nos a recordar as premissas de D. Francisco Manuel de Melo ao referir, no século XVII, “E pois parece, que lhes toca mais aos portugueses, que a outra nação do mundo, o dar-lhe conta desta generosa paixão, a quem somente nós sabemos o nome, chamando-lhe: saudade” (Melo, 1977, p. 289). Ambos sobrevalorizam os Portugueses ao atribuírem-lhes uma posição privilegiada como receptores e depositários das características mais nobremente ou mais fundamente humanas. D. Francisco ligando o humano (racional) à possibilidade de se ascender ao afectivo e à unidade de todas as coisas, ao universal:
“É a saudade, uma mimosa paixão da alma, e por isso tão subtil (...) Assim prova ser parte do natural apetite da união de todas as coisas amáveis, e semelhantes; (...) Compete por esta causa aos racionais, pela mais nobre porção, que há em nós; e é legítimo argumento, da imortalidade do nosso espírito, por aquela muda ilação que sempre nos está fazendo interiormente, de que fora de nós há outra coisa melhor que nós mesmos com que nos desejamos unir.” (Melo, 1977, pp. 290-1).
CAPÍTULO 4 - O povo português e os Portugueses no discurso erudito 113 Almada remetendo para a procura e respeito da individualidade mais extrema como riqueza última do humano e abertura ao universal e ao seu mistério:
“Eu creio que o português tem uma acessibilidade melhor dos sentimentos universais do que qualquer outro povo da terra. E mais creio que esta acessibilidade do universal é historicamente portuguesa, por mais pesados que ainda caiam sobre nós os nossos antecedentes. (...) Sem o respeito pela individualidade e personalidade de cada ser humano, seja ele qual for, não há nada começado neste mundo. (...) O respeito por cada uma das pessoas é a única ligação que teremos no diálogo das gerações e no encontro da humanidade com a própria humanidade. Enquanto em Portugal cada uma das pessoas humanas portuguesas não tiver a possibilidade de entregar-se totalmente a fundo, à incógnita da sua própria personalidade, continuará tudo ainda por começar. O humano é a única varonia da humanidade. O humano deve ser a única varonia de Portugal.” (ANT, p. 18).