D E UM SÉCULO AO OUTRO : DOIS AUTORES , DUAS OBRAS
A. Agostinho da Silva e a Educação de Portugal
2. Portugal e os novos tempos: a liberdade e o amor irrestrito
Para Agostinho da Silva, a representação de Portugal alicerça-se, tal como no passado, numa missão a cumprir e em tarefas à escala planetária para realizar.
No mundo actual anuncia-se já uma nova era e é para intervir activamente nesta nova fase da Humanidade que Portugal é convocado. Nos novos tempos, as estruturas sociais irão ser transformadas, favorecendo a acção individual. A função da organização económica e nela o sentido do trabalho humano, bem como a função institucional da escola, serão reorientadas em torno de valores que promovam a expressividade pessoal. Trata-se de uma visão prospectiva-profética em que Agostinho da Silva concebe o ser humano consciencializando a sua incorporação individual no mistério da existência do mundo, substituindo o terror pelo amor:
“estamos na época da história que marcará a ascensão final da humanidade à abundância dos meios de existência, à curiosidade sem limites por todos os aspectos do grande espectáculo, do magnífico conto de fadas que pode ser a vida, à possibilidade de mergulhar sem medo no mistério que nos cerca; estamos no início de tempos em que nos parecerão incompreensíveis a economia em que o homem foi utensílio e não destino; a informação que foi limitada segundo as conveniências dos que, deste ou daquele grupo, detinham o poder; e os sistemas e instituições em que o terror do mistério foi mais forte que o seu apaixonado amor.”(ob. cit., p. 11).
82 Sobre a religião fundada por Portugal poder-se-á pensar no que Fernão Lopes
designou como “Evangelho Português” (Rebelo, 1983, pp. 81-9). Trata-se, no entanto, do Culto Popular do Espírito Santo, como repetidamente o autor esclareceu.
CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras 133
Quadro 18: Portugal, factos e trajectórias
1º período - Origens
Criação da nação “juntar numa unidade permanente dois países tão distintos um do outro como o
Norte e o Sul, fazendo dela a nação mais antiga da Europa e provando, pela tarefa pronta, a capacidade de outras unidades que estarão no futuro, foi o primeiro grande feito de portugueses, herdeiros aí do génio romano para a agregação e a paz. Portugal é uno do Minho ao Algarve” (ob. cit., p. 14).
2º período - Sécs. XIII-XV - Época de espiritualização e democratização
Franciscanismo
Reinado de D. Dinis
“encontrou o franciscanismo em Portugal o seu terreno de eleição, tanto para percorrer o espírito como para calcorriar o globo” (ob. cit., p. 34).
“foi [Portugal] na sua melhor época, na única época boa que até hoje teve, uma federação de repúblicas constitucionais, as do foral, coordenada por um rei, igualmente constitucional” (ob. cit., p. 33).
3º período - Séc. XVII-XVIII - Traição aos valores democráticos e espirituais Aspectos negativos Recusa da diferença Ignorância Inferioridade das elites Atraiçoamento aos valores do Espírito Aspectos positivos Descobrimentos Brasil, o melhor de Portugal Resistência popular
“dir-se-ia até que foi [Portugal] uno demais, porque excluiu judeus e mouros e viu como inimigos, em todas as épocas a partir do século XVI, os que se recusavam a pensar exactamente como quem dominava” (ob. cit., pp. 13-4).
“Portugal se distingue, nos séculos XVII e XVIII, por ignorar; os intelectuais não sabem e não o sabem; o povo, ao menos, sabe que não sabe; os intelectuais desprezam o que não sabem, o povo prezaria sabê-lo; no pombal dos intelectuais só moram pombas cativas, qualquer que seja a cor da plumagem; no pombal do povo nem uma pomba objectiva e real; há apenas a pomba do culto e do desejo; a pomba da Fé.” (ob. cit., p. 23).
“sentimento de que são inferiores [os de cima] a si próprios e a ele reagem, fantasiando virilidades que não tiveram, representando valentias de que não deram provas, orgulhando-se de obras que sentem ruins, intitulando-se o mais possível, (...) inferiores o mais possível porque se quereriam superiores; e, julgando-se incuráveis, mais delirando a cada dia que passa; dando-lhe às vezes o delírio para a humildade circunspecta, isto é, a que olha à volta; e para a falinha comedida, isto é, a calculada e mansa” (ob. cit., p. 36).
“nosso império se construiu sobre mortos, e que realmente somos todos nós um Infante D. Henrique que ao irmão atraiçoa para que Ceuta não caia; e Ceuta, afinal, caiu; ou não teve ainda, pelo menos, destino que se visse.” (ob. cit., p. 10).
“Terras todas elas a que foram e em que se instalaram a imaginação e a audácia portuguesas” (ob. cit., p. 30).
“o Brasil, onde floresceu o que de melhor havia em Portugal, aparece como terra de promissão (...) e como modelo de convivência racial a todas as nações que têm problemas de contacto” (ob. cit., p. 20).
“O espantoso de Portugal, no seu conjunto, com o povo do Minho e do Algarve, povo do Pará ou do Rio Grande, povo da Lunda ou de Sofala, povo da Taipa ou de Baukau, e até povo dos ‘papeamentos cristãos’ de Singapura ou Curaçau, é que tenham resistido praticamente incólumes a todo o desvario de vida que tem rolado de imitação a imitação, de barreira a barreira, e de engano a engano” (ob. cit., p. 35).
134 CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras
Não estaremos muito longe da proposta anteriormente referida de Almada Negreiros para a aventura da individualidade e do seu mistério. O tempo novo, que falta à humanidade viver e que está a chegar, será, para Agostinho da Silva, um tempo em que o ideal humano vai claramente tomar como modelo a aproximação ao divino sem enjeitar a sua fragilidade humana. Será um tempo em que os valores espirituais passam a presidir, nomeadamente o da liberdade, atributo supremo da divindade, e em que a qualidade amorosa constituirá a marca primeira da existência humana.
O autor enuncia esta nova era como tempo de liberdade e tempo de caridade ou “amor irrestrito”, admitindo uma reorientação de Portugal para o cumprimento, conjuntamente como os “Povos de língua portuguesa”, da “missão” que o caracteriza:
“O reino que virá (...) é para homens que não sintam obrigação alguma que não seja a de se aproximarem quanto possível da divindade de ser livre, livre no viver, livre no saber, livre no criar. (...) tempo virá de caridade, entendendo-se caridade não como aquele suplemento de humilhação que se leva aos que caíram na luta, mas como o amor irrestrito que, embora consciente dos defeitos do amado, o ama sem pensar em saldo positivo ou negativo.” (ob. cit., p. 11).
“por critérios internacionais de desenvolvimento, Portugal é pobre, Portugal ignora, Portugal é estático (...) Nada do que é nosso corresponde ao Espírito, a não ser a Fé, nalguns; o Espírito, porém, nos vai chamar; agora.” (ob. cit., pp. 38-9) “(...) nesta nova e definitiva arrancada dos Povos de língua portuguesa para cumprimento da missão a que estão destinados na História.” (ob. cit., p. 57).