CAPÍTULO 5 – FINALMENTE O FIM
5.2. ECO92
O primeiro desafio colocado para a análise dos documentos gerados no âmbito dessa conferência está em sua forma de apresentação, em formato jurídico. Tratam-se de produtos de conflitos políticos, efeitos do que se torna possível diante do problema apresentado e das condições que as nações, em suas diferenças, conseguem produzir. Compreendemos que esses documentos são o resultado de um jogo de forças e antagonismos entre diferentes atores sociais e interesses. No entanto, para o objetivo dessa tese, tomamos os documentos como a expressão
possível desses conflitos, que, ao ser publicada por uma instituição que se auto intitula “a voz dos povos do mundo”, cristaliza-se de modo a deixar perceber as tendências de maior influência nesses jogos.
Os produtos desta conferência são de três tipos: declarações, convenções e a Agenda 21. Há duas declarações, uma mais geral, que é a declaração do próprio encontro, a Declaração do Rio sobre meio ambiente e desenvolvimento (ONU, 1992); e a Declaração dos Princípios sobre as Florestas (DPF, 1992), cujo objetivo é expor os princípios para “um consenso sobre o manejo, conservação e desenvolvimento sustentável de todos os tipos de florestas” (Ibidem, p.1), diferindo das convenções por não ter poder vinculante.
Já as três convenções temáticas versam sobre diversidade biológica (CDB, 1992), desertificação (UNCCD, 1992) e mudanças do clima (CQMC, 1992). Ao contrário da declaração das florestas, são instrumentos vinculantes, em forma de um contrato entre partes sobre seus temas.
Por fim, a Agenda 21 é compreendida neste trabalho como um manual de boas-práticas ambientais a ser reproduzido pelas diferentes nações.
5.2.1. Governança das perdas do mundo
Priorizaremos neste capítulo a análise das convenções dado seu caráter contratual, que expressa uma formação de compromissos globais envolvendo todas as nações signatárias, “um tratado mundial para enfrentar o problema” (CQMC, 1992, p.2). Junto a elas, incluímos a Declaração de princípios sobre as Florestas, publicada neste formato já que os debates não culminaram em acordos que pudessem se efetivar em compromissos. As florestas estão em convergência com a diversidade biológica, com a desertificação e com a mudança do clima enquanto preocupações comuns, e já figuravam em Nosso Futuro Comum; tornam-se os riscos mundiais a serem enfrentados por meio do regime sustentável, e concentram um aspecto importante em relação às nossas outras ameaças de perdas. As florestas são formas de defesa contra várias perdas:
O papel vital de todos os tipos de florestas na manutenção de processos ecológicos nos níveis local, nacional, regional e global através de seu papel na proteção de ecossistemas frágeis, bacias hidrográficas e os recursos de
água doce e como ricos depósitos de biodiversidade e recursos biológicos e fontes de material genético para produtos de biotecnologia, bem como a fotossíntese, deve ser reconhecido (DPF, 1992, p. 3)
A não transformação desse documento em convenção é um indicador da dificuldade em produzir acordos que contemplem as diferentes nações nas relações internacionais. Além das dimensões sintetizadas no fragmento citado, as florestas estão ligadas aos debates relativos à matriz energética global, já que atuam no “sequestro de gás carbônico” (CORDANI et al. 1997, p. 401). Esta matriz energética global é eminentemente sustentada por combustíveis fósseis, fator importante da discussão geral sobre crise ambiental desde 1973, com a crise do petróleo. O olhar sobre a gestão dos “recursos e serviços ambientais” (DPF, 1992, p. 1) procura traduzir a relação entre os gases de efeito estufa (GEE) e as florestas como sumidouros para esses gases (CRUTZEN, 1970), que ganha a feição de riscos à sobrevivência do sistema econômico, energético-dependente (SWYNGEDOUW, 2010).
O sistema ONU procura prescrever uma reorganização das nações para que funcionem em uma mesma chave de operação: o Desenvolvimento Sustentável, como um disciplinamento dos corpos nacionais (PASSETTI, 2013) sendo regidos pelos mesmos princípios globais, emitidos por esta instituição. Contudo, sua narrativa multilateralista mostra a necessidade de afirmar a soberania das nações, flexibilizando o local no global, com práticas que devem enfrentar de problemas além das fronteiras; produzindo desta forma protocolos sem fronteiras para enfrentar os maiores problemas para a sobrevivência da humanidade (ONU, 1987), comportando toda a diversidade do mundo, embora englobada no regime único.
Essa forma protocolar se mostra nas três convenções que têm a mesma estrutura, trabalham de acordo com os princípios e valores do Desenvolvimento Sustentável e preveem que seus efeitos possam ser arbitrados em ritual específico: das convenções surge a Conferência das Partes (COP). A COP é assim chamada por consistir em reunião entre partes contratantes: os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento – e dentre eles, os países afetados, sob os quais há o
21) para a governança que, em 1992, é marcada pelo princípio de “responsabilidades comuns, porém diferenciadas56 (CQMC, 1992, p. 3).
Nosso Futuro Comum (1987) já reconhecia as diferenças dos países e enunciava que o tipo de desenvolvimento predatório deveria ser substituído por um desenvolvimento sustentável; isso incidiria de maneira diferente entre os países em diferentes estágios de desenvolvimento. Este princípio se tornou mais nítido na Eco92 ao colocar os países em lugares diferentes de enfrentamento dos problemas ambientais a partir de sua responsabilização também diferenciada.
Este grau de diferenciação aparente em 1992 flexibiliza o objetivo inicial de encaminhar acordos globais de modo a propor mudanças institucionais. Nos documentos podemos encontrar essa defesa, seja na forma de “responsabilidades comuns” (CNUMAD, 1992), “desafios comuns” (Agenda 21, 1995, p. 15), ou “preocupações comuns” (CQMC, 1992, p.3). Lembremos que os países desenvolvidos propunham na década de 1970 limites para o crescimento, enquanto os países pobres passaram a construir uma narrativa sobre direito ao desenvolvimento, um conflito conciliado na construção “comum, porém diferenciado”.
Todas as convenções da Eco92 têm a mesma mensagem de cooperação internacional no contexto do desenvolvimento sustentável; em que destacamos uma relação recorrente com o saber: transferência de tecnologia e extração de conhecimento sobre os territórios. E são nessas formas que aparecem as responsabilidades diferenciadas das partes: países desenvolvidos, com poder econômico e de tecnologias, e países em desenvolvimento, com limitados recursos financeiros e científicos, dependendo da ajuda internacional. Podemos encontrar nas convenções, a seguinte construção: “(...) as Partes países desenvolvidos devem tomar a iniciativa no combate à mudança do clima e a seus efeitos” (CQMC, 1992, p. 7). Os países do norte assumem os compromissos de colaboração a partir de seu saber para implementar imediatamente medidas para reverter as alterações ambientais quanto à biodiversidade, à desertificação e às mudanças do clima. Esses
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Pode-se encontrar essa construção na Declaração do Rio, em seu princípio sétimo e na convenção do clima; e indiretamente sua presença se encontra na convenção sobre biodiversidade e sobre desertificação, desde que o entendamos como princípio que rege as obrigações das partes países desenvolvidos e as partes países em desenvolvimento e afetados.
países devem arcar financeiramente com as medidas e proceder a ajuda financeira e com transferência de tecnologia às Partes países em desenvolvimento.
A contrapartida dos países em desenvolvimento visava a construir um saber sobre seus territórios, um saber transparente, fornecido por meio de relatórios periódicos, apresentados à COP. Há um trabalho de construção de uma base de dados global sobre as condições dos recursos de todas as partes do planeta. Conforme podemos destacar da convenção sobre diversidade biológica, o objetivo de: “Estabelecer a forma e a periodicidade da comunicação das informações a serem apresentadas (...), e examinar essas informações, bem como os relatórios apresentados (...)” (CDB, 2000, p. 20).
Além disso, com a ajuda financeira e o apoio em tecnologia, visa-se o
desenvolvimento desses países que para tanto devem estruturar-se
institucionalmente, atuar com capacitação de suas populações, produzir saber, modificar sua forma de produção tornando-a eficiente para crescer economicamente e reduzir a pobreza. Em nosso entendimento, trata-se também de apropriar-se do território por meio do saber, um saber tecnocientífico em forma de dados. As convenções atribuem à COP a arbitragem sobre os dados fornecidos à comunidade internacional; dessa forma, a colaboração de todas as nações significa que voluntariamente produzem dados para o processamento de futuros relatórios da ONU. Notadamente, foi após 1992 que a ONU passou a emitir relatórios globais (LAFER, 1995) cada vez mais sofisticados, tornando-se uma espécie de referência global nas projeções sobre as perdas do mundo, uma espécie de agente tanto de monitoramento quanto de antecipação de cenários futuros sobre as condições ambientais. O saber que retorna costuma ser referido como um balizador de decisões políticas; é produção de saber que retorna ao jogo de poder para a tomada de decisões. E o fazer movido pela constante necessidade de eficiência incide sobre ambos, o norte e o sul globais, como já havíamos encontrado em Brundtland: “assegurar que as novas tecnologias cheguem a todos que precisam delas [...]” (CMMAD, 1987, p.95). O pacto das convenções contribui para a construção de uma máquina institucional de saber sobre o mundo, reconfigurado em dados, e propiciado pela cooperação internacional.
A colaboração entre as nações no âmbito da crise ambiental funcionaria, no nosso entendimento, como forma de circulação, espelharia o processo de governo global em que as informações deveriam estar disponíveis à tomada de decisões
sobre recursos e riscos. Esse saber produz aberturas a serem preenchidas com o desenvolvimento de novas tecnologias e campos para a transferência, já que os diagnósticos estão cada vez mais precisos e as políticas das nações se alinharam ao funcionamento do Desenvolvimento Sustentável.
O resultado da Eco92 foi operacionalizar o regime sustentável, o estilo de vida de Gaia, em que pese a formação do órgão supremo (COP) de arbítrio sobre as perdas dos pedaços do mundo, além da agenda de atuação, a Agenda 21, como o modelo ao qual as nações devem se espelhar para alcançar o desejado Desenvolvimento Sustentável. O alinhamento e adequação ao modo unificado de operação favorecem o fluxo de circulação global, tornam-no mais eficiente. O Desenvolvimento Sustentável, desde Brundtland, busca oferecer uma resposta para reverter as perdas de pedaços do mundo.
5.2.2. Os pedaços do saber
Duas dimensões se repetem por todos os relatórios da Eco92: eficiência e inovação tecnológica. Incluímos neste momento também a Agenda 21 por seu conteúdo que, neste trabalho, tomamos como um manual de boas-práticas globais a servir de espelhamento para as agendas locais das nações.
Rezende (2012), autor que faz uma análise sobre outros relatórios da ONU, especificamente sobre desenvolvimento humano desde a década de 1990, depreende de sua estrutura que esses documentos “comungam com uma ideia recorrente: a de que o investimento no fator humano resulta em desenvolvimento econômico capaz de beneficiar a sociedade como um todo” (REZENDE, 2012, p.134). As conferências sobre desenvolvimento e meio ambiente parecem seguir o mesmo padrão, destacando-se, neste caso, a transferência de tecnologia, o fomento da produção do saber sobre os territórios, a defesa da eficiência em práticas que desenvolvam formas de maximizar o uso de recursos com o mínimo de impactos, a incorporação das formas tradicionais às modernas, o desenvolvimento de medidas de adaptação a condições extremas e a mitigação ou reversão de processos degradantes. Por exemplo, no artigo quinto da Convenção-Quadro sobre a Mudança do Clima, intitulado Pesquisa e observação sistemática, a colaboração entre as partes favorece esse tipo de práticas:
Apoiar e promover o desenvolvimento adicional, conforme o caso, de programas e redes ou organizações internacionais e intergovernamentais que visem a definir, conduzir, avaliar e financiar pesquisas, coletas de dados e observação sistemática, levando em conta a necessidade de minimizar a duplicação de esforços (CQMC, 1992, p. 12)
Na declaração das florestas:
A investigação científica, inventários florestais e avaliações realizadas por instituições nacionais que tenham em conta, sempre que relevantes, variáveis biológicas, físicas, sociais e econômicas, bem como desenvolvimento tecnológico e sua aplicação no campo do manejo florestal sustentável, conservação e desenvolvimento, deve ser reforçada através de modalidades eficazes, incluindo a cooperação internacional (DPF, 1992, p. 5)
Esses trechos buscam exemplificar como as soluções propostas vão formando arranjos embasados pela perspectiva de produção de um saber a ser gerido eficientemente. Conforme Rezende (2012) refere, a ONU não se deixa constranger pela necessidade de mudanças estruturais como a concentração de propriedade, de renda e de poder; conforma-se em reproduzir que cabe a cada nação capacitar-se para reduzir a pobreza no circuito de trocas levado a cabo em forma de colaboração internacional. Esse valor de capacitação constante circula no discurso em nível global, no nível nacional e no nível individual como investimento no fator humano.
Tomemos a Agenda 21 que foi recebida à época como a implementação do Desenvolvimento Sustentável (LAGO, 2006, 2013). A Agenda 21 é a formação de compromissos mundiais para o Desenvolvimento Sustentável no próximo milênio; estabelece objetivos e, em vários casos, prazos, com previsão orçamentária para a execução. Tem um papel de modelo em que todas as nações do globo são instadas a produzir suas próprias agendas nacionais de modo a espelhar os compromissos expressos globalmente (FERRARI, 2014). Estes compromissos funcionam como ordenamento mundial sob as bases do regime sustentável, de modo a ter como efeito esperado uma reforma institucional para o funcionamento unificado das diferentes estruturas dos países.
No entanto, quando se olha mais detidamente para a composição da Agenda 21, é sua característica de gestão que toma evidência. Dividida em quatro seções (Dimensões Sociais e Econômicas; Conservação e Gestão de Recursos
para o Desenvolvimento; Fortalecimento do Papel dos Grupos Principais; e Meios de Implementação), esse documento revela algumas particularidades. Por exemplo, a
participação dos povos indígenas se apresenta no princípio 22 da Declaração do Rio como valorização do conhecimento e práticas dos povos locais; no entanto, esse princípio de valorização sofre, na Agenda 21, uma refração tecnocientífica, porque há a necessidade de considerar os grupos minoritários e ao mesmo tempo funcionar nos parâmetros do regime. Assim são construídas frases “de consenso” como a que pode ser vista no capítulo 26, intitulado Reconhecimento e Fortalecimento do Papel
das Populações Indígenas e suas Comunidades: “Aumentar a eficiência dos
sistemas de manejo de recursos das populações indígenas, promovendo, por exemplo, a adaptação e a difusão de inovações tecnológicas apropriadas” (Agenda 21, 1995, p. 375). Defende a valorização dos modos de vida minoritários e conhecimentos tradicionais, mas a aplicabilidade prática está baseada por um único modo de vida, cujo valor inscrito nas trocas sociais e simbólicas reproduz os conhecimentos validados pela gramática da técnica, querendo difundir inovações.
É possível extrair da análise desse documento um discurso que enfatiza a produção de um saber sobre os corpos territoriais para conservá-los na medida mesma em que deles se apropria para a sua extração com eficiência, por meio das ciências que orbitam na construção do saber da ecologia, submetidas à economia. A Agenda 21 ocupa a função de uma ferramenta de operacionalização desse processo. Pode ser verificada, ao longo de seus 40 capítulos, a ênfase sobre a construção de um sistema de informações ambientais, sobre todos os territórios do planeta, para se construir uma base de dados a ser constantemente avaliada e monitorada. Os efeitos dessa organização já estão disponíveis: a ONU passa a construir quadros e painéis de monitoramento, uma forma de pôr o mundo em tela, transparente na apresentação dos dados codificados em forma de índices de destruição (degradação, desertificação, emissão de gases, perda de biodiversidade, diminuição das florestas, aumento do nível do mar, acidificação dos oceanos, dentre outros). Uma das constantes que se repete na Agenda 21 é a necessidade de desenvolver pesquisas, sobretudo nos países em desenvolvimento. O que em
Nosso Futuro Comum aparecia como capacitação de recursos humanos, retorna na
Agenda 21 sob a fórmula: capacitação, cooperação, monitoramento e avaliação. Essa é a proposta institucional para a administração global das perdas dos pedaços do mundo. Com essa operacionalização, o Desenvolvimento Sustentável
se prolifera como modo predominante até o ponto de parecer intuitivo que enfrentar a crise ambiental seja sinônimo de alcançar suas metas. É isso que queremos dizer, desde a psicanálise, quando o tomamos por significante mestre, isto é, um referente que assume a posição de agenciador da articulação significante, esta parece ser justamente a força desse arranjo: fazer trabalhar às nações sob um mesmo regime.
Podemos considerar que o otimismo renovado das sociedades capitalistas liberais que constrói esses agenciamentos parece afetar também a perspectiva sobre os riscos vinculados à crise ambiental. A Eco92 faz um investimento na cooperação internacional, necessidade reproduzida já em Nosso Futuro Comum, buscando uma integração ecológica para o desenvolvimento, de modo que o enfoque volta-se à administração e já não apresenta a mesma ênfase sobre as ameaças como anteriormente feito naquele relatório; o otimismo se aglutina à segurança de termos encontrado o caminho da conciliação que cremos possível. Podemos pensar que, até a publicação deste relatório, precisávamos da força da ameaça no futuro comum, fator de identificação segundo a psicanálise, mas na década de 1990, nosso espírito já é outro, as ameaças ingressam em outra racionalidade, em que a aposta é a gestão empresarial como o contorno simbólico às inseguranças presentes na sociedade de risco; uma confiança imaginária no planejamento e controle por meio de instrumentos de monitoramento e avaliação que seriam construídos pela tecnociência, e estratégias de capacitação e aperfeiçoamento trabalhariam para sanar as insuficiências verificadas. Estaríamos, dessa forma, tamponando os buracos que os riscos apresentam. Uma crença de que basta seguir a agenda para proteger os recursos e serviços ambientais, enfrentar a pobreza e alcançar o bem-estar global para esta e as futuras gerações.