CAPÍTULO 5 – FINALMENTE O FIM
5.4. Rio+20
Mais uma década passada e novamente o Rio de Janeiro sedia a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (ONU, 2012), também chamada de Rio+20. Ocorrida em 2012, esta conferência reuniu 191 Estados-membros das Nações Unidas, além de organismos internacionais, com mais de 80 chefes de Estado ou de Governo.
A Rio+20 foi construída de forma a reafirmar os acordos e direcionamentos tratados em conferências anteriores, essa é a maneira que os diversos temas aparecem: reafirmar, ressaltar e reforçar. Por exemplo, na seção II – Renovação do
Compromisso Político, encontramos:
14. Reafirmamos a Declaração de Estocolmo [...]; 15. Reafirmamos todos os princípios da Declaração do Rio [...]; 16. Reafirmamos o compromisso de implementar plenamente a Declaração do Rio [...], o Programa de Implementação da Agenda 21, o Plano de Implementação da Cúpula Mundial [...], o Programa de Ação para o Desenvolvimento, Sustentável dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, [...] Programa de Ação de Istambul, [...] Programa de Ação de Almaty [...], a Declaração do Milênio [...] e o Documento final da Cúpula Mundial de 2005 [...], o Congresso de Monterrey [...], a Declaração de Doha [...], o documento final da Reunião Plenária de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidades sobre os ODM, [...] o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento [...] e da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim (ONU, 2012, p. 5).
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Nestes 40 anos que separam a primeira conferência da última, há uma pulverização dos assuntos, com convenções, acordos, planos de ação e implementação, objetivos, metas e agendas sendo constantemente reafirmadas, de modo que sob o título O Futuro que Queremos, a Rio+20 pretende renovar “o nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável e com a promoção de um futuro econômico, social e ambientalmente sustentável para o nosso planeta e para as atuais e futuras gerações” (Ibidem, p. 3).
Há, no entanto, dentre as reafirmações colocadas uma nova afirmação: a defesa da “economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável” (Ibidem, p. 11) sendo incorporada como a forma de se alcançar esse tipo de desenvolvimento e reduzir a pobreza, que se mantém como o grande desafio do milênio (idem). A defesa da economia verde está expressa na declaração, sem, contudo, haver uma definição clara sobre o que é economia verde. A ausência de definição, todavia, não impede que sejam expressos os termos da crença que a subjaz, que podem ser sintetizada no parágrafo 60:
Reconhecemos que a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza vai aumentar nossa capacidade de gerir os recursos naturais de forma sustentável e com menores impactos ambientais negativos, aumentar a eficiência dos recursos e reduzir o desperdício (Ibidem, p.13)
A Câmara de Comércio Internacional (ICC58) a descreve como um ideário no qual “o crescimento econômico e a responsabilidade ambiental trabalham juntos de maneira mutuamente reforçada ao mesmo tempo em que apoiam o progresso no desenvolvimento social”59
. Há 10 condições para alcançar a economia verde: mercados abertos e competitivos; métricas, contabilidade e relatórios; finanças e investimento; consciência; abordagem de ciclo de vida; eficiência; emprego; educação e habilidades; governança e parceria; política integrada e tomada de decisões. Conforme Moreno (2012)60, há um percurso para que a economia verde chegue à Rio+20. A autora ressalta a criação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional em 1944 no âmbito da Convenção Brentton Woods de
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International Chamber of Commerce: Câmara de Comércio Internacional (em tradução livre) 59
Disponível em: <https://web.archive.org/web/20160505222844/http://www.iccwbo.org/products-and- services/trade-facilitation/green-economy-roadmap/>. Acessado em 27/08/2018.
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Disponível em: <http://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/reportagem/linha-do-tempo-do-cinismo- ambiental>. Acessado em 27/08/2018.
gerenciamento econômico internacional, vinculada à criação da ONU e ao contexto de reconstrução do mundo pós-guerra. Reconstrução que tratava de fazer uma Revolução Verde, com investimento tecnológico na agricultura e ao mesmo tempo escoar a produção de agentes químicos utilizados durante a Segunda Guerra; uma estratégia de duplo propósito: maximizar a produção de alimentos por meio da monocultura e combater o avanço do modelo do bloco comunista. A oficialização da Economia Verde na Rio+20 estaria ligada, contudo, à conferência anterior, a Rio+10, que, conforme coloca a autora, teria sido o momento em que houve maior penetração do setor privado no governo do mundo; muito embora esta perspectiva já estivesse desenhada em Nosso Futuro Comum, desde o final da década de 1980. Um terceiro aspecto pontuado por Moreno está na produção de um estudo no intervalo entre as duas conferências realizadas no Rio de Janeiro, A Economia das
Mudanças Climáticas, ou Relatório de Stern, encomendado pelo governo britânico,
documento que sugere a destinação de 1% do PIB mundial ao combate às mudanças climáticas, defendendo que o custo-benefício é maior do que o imobilismo. A inação custaria ao PIB mundial entre 5-20% ao ano, o que criaria um desequilíbrio econômico e social equivalente à Guerra Mundial (STERN, 2010).
A Rio+20 acontece em um contexto de crise global econômica, iniciada em 2008, que abalou os mercados internacionalmente. A exemplo da Rio+10, quando o tema que desloca o problema é o terrorismo, nesta última é a crise econômica que assume este papel. Manfredo & Ferreira (2015) fazem um trabalho sobre as perspectivas de participantes da conferência e pontuam uma impressão geral de que o poder político impediu que houvesse avanços frente aos diversos diagnósticos já feitos, e mencionam ainda que “a Rio+20 teria sido uma repetição do encontro de 2002, (...) onde (...) ninguém decidiu nada” (Ibidem, p. 277). As autoras relatam “um retrocesso em vários sentidos” (Ibidem, p. 280) em que a “crise econômica serviu de aparente justificativa para silêncios e postergações” (Idem)
Parece-nos interessante notar, quando olhamos para as conferências da ONU sobre desenvolvimento e ambiente, que o diagnóstico de Beck (2010) sobre o século XXI parece se confirmar; para este autor, as crises deste século, na sociedade de risco, se manifestariam em três dimensões primordialmente: ecológica, econômica e o terrorismo. Como mostramos, todas elas se encontram presentes nestes 40 anos de debate ambiental no âmbito da ONU, em que o risco ambiental teve seu efeito político para a instalação do Desenvolvimento Sustentável como
perspectiva a orientar o debate sobre a finitude sem comprometer o ilimitado do crescimento; solução que, desde então, passa a ter maior penetração do setor privado (MORENO, 2012) e se esforça em dar maior tonalidade econômica, culminando com a economia verde nesta última declaração