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CAPÍTULO 2 – O SENTIMENTO ATERRADOR

2.2. Lugar estranho

No início deste capítulo mencionamos a necessidade de não perder de vista uma ambiguidade contida na ideia de um sentimento aterrador-formidável frente à crise ambiental determinada nessa gramática da técnica. Nesse momento, com a discussão colocada sobre a presença do medo da natureza e de ilusões derivadas, podemos retomar essa ideia. É diante de crises que encontramos a abertura para o ingresso de ilusões que visam aplacar o medo (da finitude) a elas vinculado, e estamos considerando que o discurso tecnocientífico é o revestimento simbólico utilizado diante da catástrofe representada primeiramente pelas Guerras, em um mesmo momento em que se percebe a queda do homo triomphans científico. Estaríamos diante de uma crise suficiente para pensar que a técnica, que vem ao socorro da razão desiludida, ocuparia o lugar antes ocupado por ilusões de outra natureza, isso nos permite compreender a atitude do humano em sua relação com o mundo técnico não muito diferente, em termos de função simbólica, da atitude frente ao mundo mágico, no sentido em que ambos lhe servem de consolo. Encontramos em Adorno e Horkheimer essa compreensão quando afirmam que “o esclarecimento da razão se converte novamente em mito” (ADORNO & HORKHEIMER, 1985),

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Os autores vão na direção de interpretar que o sujeito nessa gramática tem afetada sua capacidade de produzir narrativas de sofrimento, processo de elaboração considerado necessário para atenuá-lo diante dos déficits do próprio discurso que os enlaça.

afirmação que nos parece uma outra maneira de se referir ao processo que Lebrun descreve sobre o discurso tecnocientífico como “deixar crer que tudo é possível”, a razão seria o mito do totalmente possível, mito para o qual a crise ambiental, como o real que mostra a falha, insiste em desmentir. Tratar-se-ia, no caso de uma consciência mítica, de um homólogo cultural do pensamento infantil, marcado pela onipotência de pensamentos, também chamado de pensamento mágico (FREUD, 1918/2006), facilmente constatado nas fantasias infantis. A psicanálise nos ensina que esse tipo de pensamento não é apenas abandonado com o desenvolvimento, mas sobrevive em um nível inconsciente, podendo retornar tão logo encontre nas circunstâncias de vida, como em uma crise, ocasião para seu retorno. Será no discurso sobre a crise que poderemos depreender essas fantasias. A fantasia presente visa recobrir a presença da finitude temida. A finitude é um dos retornos mais recorrentes que podem ser encontrados na clínica psicanalítica, e como postula Randall (2009), também se encontra presente nas narrativas sobre mudanças climáticas. Como lembra Freud, isso se deve ao fato de o inconsciente não conceber sua própria morte e por isso não é incomum a presença de narrativas, historicamente ligadas à religião, que concebem uma imortalidade e reproduzem rituais ligados a essa negação (FREUD, 1919/2006).

Este entendimento pode nos ajudar a pensar a percepção dos riscos nessa sociedade desde algumas construções psicanalíticas enquanto elementos conjugados às transformações verificadas na modernidade reflexiva (BECK, 1995a, LIEBER, R.R. e ROMANO-LIEBER, N.S. 2002). A que gostaríamos de destacar é a concepção de Estranho (Unheimlich) presente na obra freudiana, já que sua expressão estaria entre o assustador e o fascinante. Freud situa o estranho como um tema presente no campo da estética, desde que esta seja entendida como a qualidade do sentir, e o descreve como aquilo que se relaciona “com o que provoca medo e horror (...) com aquilo que desperta medo em geral” (Ibidem, p. 237). Sua descrição passa pela literatura, pela maneira de se referir ao estranho em vários idiomas e pela teoria psicanalítica, até finalmente concluir que

o animismo, a magia e a bruxaria, a onipotência dos pensamentos, a atitude do homem para com a morte, a repetição involuntária e o complexo de castração compreendem praticamente todos os fatores que transformam algo assustador em algo estranho (Ibidem, p. 260).

Uma das maneiras mais comuns de se descrever o estranho é como algo familiar que se tornou estranho por um processo de repressão. Para Freud, para que um material se torne estranho é preciso que algo seja acrescentado (Ibidem, p. 239); este algo é o processo de repressão, característica da sociedade à qual viveu29. No entanto, a generalização do conceito pode ajudar menos do que algumas especificidades presentes no seu esforço de conceituação. Por exemplo, várias das maneiras em que se constata o estranho estão ligadas ao lugar. O termo Heimlich pode ser utilizado como sinônimo de doméstico ou nativo, de modo que Unheimlich, nesse caso daria a impressão de lugar inóspito. Não precisamos ir muito longe para encontrar a relação das discussões sobre a crise ambiental assentada sobre essa imagem de lugar inóspito, dessa imagem de um ambiente degradado sobre o qual lançamos mal ditos sobre o futuro. Seja em uma inclinação mais biológica, a noção de habitat, seja nos relatórios da ONU com a ideia de nossa morada (ONU, 1987), ou na encíclica papal como “nossa casa comum” (IC, 2015), essa inospitalidade se apresenta como uma imagem do futuro, como um estranho mal dito. Lacan (2005) discute a angústia30 desde o conceito de Unheimichkeit (estranhamento); pontua que

devemos pensar o Heim como a casa do humano, e refere: “Deem à palavra ‘casa’

todas as ressonâncias que quiserem, inclusive astrológicas” (Ibidem, p. 58), desde que pensada como o lugar que sustenta a ausência que move, e é quando este lugar falta que surge a “estranheza radical” (Ibidem, p. 58); quando o que “está no lugar Heim é o Unheim” (Ibidem, p. 57).

No texto freudiano poderemos encontrar que uma casa unheimlich só pode ser traduzida como casa assombrada (FREUD, 1919/2006, p. 258). E ainda em outra referência, heimlich e unheimlich significariam uma disposição ou indisposição com relação ao clima (Ibidem, p. 241). Essa característica do estranho como familiar que se tornou assustador, no sentido de pertencente à casa, nos parece uma qualidade do sentir presente no início das discussões dos anos 1960 sobre a crise ambiental, da qual extraímos uma das obras consideradas inaugurais para se pensar o ambiente em sua relação natureza-sociedade: A Primavera Silenciosa, de

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Basicamente podemos descrever o processo de repressão como um represamento de conteúdos que são afastados da consciência para um nível inconsciente.

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O termo freudiano é Angst, utilizado a partir de três acepções: medo, pavor e susto. A tradução Standard das Obras Completas que utilizamos não é traduzida diretamente do alemão, mas do inglês; nesta versão, Angst também é traduzido por ansiedade.

Rachel Carson. Nesta obra, como veremos mais adiante, podemos identificar o estranho que emerge em discurso técnico.

Mas há ainda outros elementos do conceito de estranho para nos ajudar quanto aos riscos mundiais, um deles diz respeito à invisibilidade. Para Beck (2010), além das características espacial e temporal que diferenciam os riscos da segunda modernidade, a invisibilidade e a dificuldade de responsabilização também os caracterizam, e delas decorre uma estreita relação com o saber, já que os riscos precisam ser cientificamente definidos para serem assumidos como tal, isto é, são a verdade na medida em que a gramática técnica os capta e os traduz em sua língua. Quanto a isso, Freud toma de empréstimo a descrição de Shelling para caracterizar esse aspecto do unheimlich: “tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto mas veio à luz” (FREUD, 1919/2006, p. 243), ele irrompe estranhado, como se fosse externo.