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CAPÍTULO 2 – GLOBALIZAÇÃO E A CRISE SOCIOAMBIENTAL

2.1 EFEITOS DA GLOBALIZAÇÃO

A globalização econômica é um modo desenvolvido pelo sistema capitalista, cujo propósito é alastrar seu domínio, aumentar a produção e os lucros. Esse sistema ainda em expansão, mas já consolidado precisa utilizar-se dos recursos naturais disponíveis e da mão de obra dos seres humanos. Segundo Santos (2008, p. 81) “todo e qualquer pedaço da superfície da terra se torna funcional às necessidades, usos e apetites de Estados e empresas”. Globalização que se pauta como diz Santos (2008, p. 30) pela “concorrência extremamente feroz, pela mundialização do produto, dinheiro, crédito, dívida, consumo e informação”.

Nesse processo ocorre a demanda por mais ciência, tecnologia, melhor organização, mas como está atrelado ao capital, segue os preceitos da ordem econômica. Dessa forma, escapa ao domínio político e se torna subordinado ao mercado, diminuindo cada vez mais o controle do Estado e aumentando a interferência do setor privado.

De acordo com Torres (2011, p. 94) a aceleração da dinâmica do mercado proporcionada pelas novas tecnologias aumentou a interdependência econômica entre os países. Num mundo, segundo Santos (2008, p. 33) onde a crise é “estrutural, permanente e sucessiva”, a crise de um país afeta outros e se produzem crises de efeitos globais, conjuntura que mantém a dinâmica do mercado sob o controle hegemônico.

Na contemporaneidade, para o capital não há fronteiras nacionais, as regras que o regem são globais, fazem-se sentir em toda parte, contudo há consumidores e eles se encontram em todos os lugares. A inserção do capital com a imposição de suas regras causa conflito com as regras nativas e, dessa forma o impacto da globalização no mundo está levando à desintegração das identidades culturais nacionais, devido ao crescimento da homogeneização cultural e a substituição por novas identidades híbridas, uma mistura de várias culturas, em que se impõe a cultura hegemônica, como descreve Hall (2006, p. 78),

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mas para o qual também é mais provável que ocorra uma nova articulação entre o global e o local e não numa substituição de identidades.

Em contraposição, verifica-se uma fascinação pelo que é diferente o que desperta o interesse pelo local, devido à possibilidade de mercantilização de bens e serviços. A possibilidade de exploração da riqueza cultural local pode afetar a identidade local e, segundo Hall (2006) uma nova articulação entre o global e o local pode produzir simultaneamente novas identidades globais e novas identidades locais. Essa mistura produz efeitos sobre os indivíduos à medida que desloca identidades e vincula o local ao global. Uma crise de identidade pode ser desencadeada pela dúvida em relação ao que se suponha sólido, como diz Hall (2006, p. 9) “a descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos pode constituir uma crise de identidade para o indivíduo”.

As modificações expressivas nas comunidades tradicionais tiveram impulso com o advento da revolução industrial, a necessidade crescente de mão de obra recrutou o trabalhador da sociedade camponesa artesanal para o desempenho de novas formas de trabalho nas fábricas. Fenômeno que incorreu no que diz Baumann (2003, p. 30) na transformação das sociedades anteriores “autônomas, resistentes à manipulação e à mudança” para uma “massa trabalhadora”, destituída de hábitos comunitários. E para o sucesso desse propósito da indústria, todo esforço foi empenhado a fim de manter a ordem e a adaptação à nova rotina “artificial imposta e monitorada” e, reprimir todas as formas de resistências. De acordo com Baumann (2003, p. 28), a partir dessa época, “a guerra contra a comunidade foi declarada”. Por isso, durante os longos anos de adaptação dos camponeses à nova disciplina, a comunidade local continuava a ser percebida como “perigosamente poderosa”, como destaca Baumann (2003, p. 34), considerando o fato de que essa adaptação não foi tranquila nem fácil, já que consistia em uma mudança no estilo de vida solidificada por várias gerações.

Paralelamente à adaptação das massas ao novo estilo de vida, as políticas empresariais foram se moldando e se aperfeiçoando. Foram impulsionadas e se alastraram após a queda do socialismo soviético, com a ajuda dos organismos financeiros internacionais como o Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio. Esse sistema se fortalece e se alastra à medida que aumenta o intervencionismo dos países dominantes nos assuntos dos países periféricos, através da interferência nas questões internas, muitas vezes com a utilização da força. (TORRES, 2011, p. 95).

Nessa tentativa da homogeneização do comércio em âmbito global ocorreu a promoção da ampliação do papel-político das empresas na regulação da vida social, desconsiderando e modificando o enfoque do que é de domínio público. Como diz Santos

(2008), o trabalho de assistência social passa ao controle de empresas privadas que escolhe a quem, onde e como privilegiar. Esse comportamento tem a ver com os pressupostos do poder “panóptico” utilizado em grande parte da história do capitalismo como forma de dominação, descrito por Baumann (2003, p. 35), como sendo a postura das classes altas de cuidarem dos pobres, para assim obterem vigilância e controle contínuo.

Nesse cenário, segundo Santos (2008) da busca constante pelo dinheiro, do estímulo à competitividade como regra geral, do uso da força para subjugar forças contrárias, se intensificam valores como o egoísmo e o individualismo e se propaga o abandono da solidariedade, do respeito às regras de convivência, da responsabilidade pelo outro e pela coletividade. A produção da violência e do medo generalizado também são frutos desse sistema, no qual ainda segundo Santos (2008), ocorre a “produção de novos totalitarismos, fim da ética e da política”.

O modelo de desenvolvimento neoliberal não acolhe a totalidade da população global, já que a solução dos problemas sociais não faz parte de seus preceitos e, somente mostra preocupação com a deterioração da qualidade da vida e a espoliação dos recursos naturais quando afeta diretamente os objetivos, ou seja, a possibilidade do aumento dos lucros. As empresas globais, os chamados atores da economia dominante não têm “preocupações éticas” com o bem estar do outro e do coletivo social, segundo destaca Santos (2008, p. 66-67).

Essa globalização que estimula o acúmulo de capital e os individualismos, conforme Santos (2008, p. 63-65) “não está a serviço da humanidade”, porque suprime as riquezas produzidas pela maioria da população e as retém nas mãos de poucos, não refletindo justiça na distribuição dos bens produzidos. Aos trabalhadores cabe uma pequena parcela, suficiente para mantê-los reféns do emprego, pois os baixos salários não lhes permitem aquisição e acúmulo de bens, tampouco supre todas as necessidades mínimas ou proporciona uma estabilidade financeira. A dependência em relação ao emprego mantém o trabalhador disciplinado, a falta de estabilidade o mantém com medo.

A esse sistema, Santos (2008, p. 37) se refere como uma “globalização perversa”, da “violência do dinheiro e da informação”, uma vez que quem não consegue dinheiro “no estado puro” não consegue adquirir bens de consumo, não consegue suprir suas necessidades básicas, não adquire status, nem satisfação e provoca reflexo sobre a vida do sujeito individual e afeta a organização do coletivo social. Essa perversidade, como diz Santos (2008, p. 19-20) pode ser perceptível nas mudanças que ocorrem a nível global e incidem diretamente sobre questões relacionadas ao trabalho e é verificado facilmente, “na baixa dos salários médios”, junto com a “diminuição da qualidade de vida, surgimento de novas

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doenças, retorno de velhas doenças, altos índices de mortalidade infantil, educação de qualidade mais inacessível, males espirituais e morais, egoísmos, cinismos, corrupção”.

A globalização se faz visível na quantidade de excluídos do sistema, um mundo em que milhões de pessoas passam fome, não tem água potável, nem sistema de esgoto e, há uma imensa quantidade de deslocados e refugiados políticos e ambientais. Nesse mundo, como diz Santos (2008, p. 58-59) o desemprego e a pobreza são crescentes e vistos pelo poder hegemônico dentro de uma normalidade.

Os excluídos desse sistema se concentram em grande parte, nos países onde há pouca ou nenhuma política pública que atenue ou solucione seus problemas, principalmente nos países considerados subdesenvolvidos e atrasados, que não conseguem dar um impulso para o desenvolvimento econômico, à medida que não absorvem e não se amoldam ao sistema hegemônico.

Sistema, que se enraíza e se perpetua através das tecnologias da informação, que Santos (2008, p. 63) descreve como uma “perversidade da informação” que se processa na “intermediação deformante” e, se dá através da “propaganda insistente e enganosa”, como ainda destaca Santos (2008, p. 40).

A informação, enquanto controlada por poucas empresas, sempre manipuladas a favor do capital, molda opiniões através das mídias e, cada vez mais atraentes confundem o consumidor. O chamamento ao consumo feito pela propaganda e publicidade, de forma a produzir primeiro o consumidor e depois o produto, como relata Santos (2008, p. 48), induz cada vez mais as pessoas ao consumo, criando consumidores em potencial, cujo direcionamento está sendo feito cada vez mais cedo e com maior intensidade, buscando formar já nas crianças um comportamento consumista.

Esse consumo, como diz Baudrillard (1979) é o fetichismo predominante na atualidade que arrebata o consumidor através dos desejos dos signos colados às mercadorias, como a ideia de liberdade, da juventude, do status e da sensualidade. Cada vez mais é produzido o desejo de consumo dos produtos da moda, que se tornam rapidamente obsoletos e descartáveis, jogando o consumidor num ciclo vicioso de compra e descarte. É o consumo que alimenta o sistema e produz através da cultura do rejeite, os ricos lixões do planeta, do qual muitos excluídos se alimentam e retiram sua subsistência.

Poucas empresas dominam as riquezas do mundo e determinam os rumos da humanidade e, nesse percurso afetam o modo de vida e a relação com o meio. Tanto a exploração dos recursos pelo poder hegemônico quanto à necessária utilização dos recursos pelos pobres do mundo afetam nosso habitat e causam problemas socioambientais.

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