2.1 IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA: TENSÕES DA MEMÓRIA
2.1.2 Ellen G White: carisma, poder e memória fundadora
O ministério profético de Ellen G. White e o surgimento da IASD são inseparáveis. Com isso, “tentar entender um sem o outro tornaria ambos ininteligíveis e inexplicáveis” (DOUGLASS, 2001, p. 182). Com efeito, entre os Adventistas do Sétimo Dia, o chamado de Ellen G. White para o ministério profético não exigia, apenas, a confirmação desta como profetisa, mas a própria articulação teológica a respeito do significado de “profeta”. Timm (2002) relembra que os primeiros adventistas sabatistas criam que o dom profético de Ellen G. White consistia mais um sinal do que uma doutrina – muito embora o aspecto doutrinário fosse vital para a aceitação das experiências sobrenaturais de Ellen G. White. Aqui já vemos a tensão entre o místico e o racional, entre “a letra que mata e o espírito que vivifica”. O que tem relação direta com o que Halbawchs acusa ser a base para a constituição da memória, afinal, para ele é preciso um local geográfico, uma pessoa e/ou evento para a consolidação e conservação da memória e sua transmissão. Acreditamos que, no adventismo, temos tanto o evento (o desapontamento, tal como articulado anteriormente) como a pessoa, aqui representada por Ellen G. White. É claro que a crítica de Rivera (2010a; 2010b) é válida, pois esses aspectos são, sim, mais fluídos do que o espaço geográfico. No terceiro capítulo veremos uma possibilidade futura que poderia vir a ser aceita como o local do adventismo.
Como uma das expectadoras do desapontamento de 22 de Outubro de 1844, a princípio, Ellen G. White e seu ministério profético carregavam, grosso modo, duas ênfases complementares: por um lado, ela procurava encorajar os crentes a rejeitar o fanatismo religioso, desencadeado de diversas maneiras pelo desapontamento; por outro, ela reforçava a certeza que Deus ainda guiava o seu povo, e que a data estipulada para a sua vinda possuía outros significados (WHITE, A., 2015, p. 22-34). Dessa forma, durante a confusão e o desespero que se seguiram ao dia 22 de Outubro de 1844, Ellen G. White alegava que Deus havia se aproximado de seu povo. Por meio de uma adolescente de 17 anos, Ele estaria
animando os crentes a reestudar a Bíblia. Muitos autores denominacionais do adventismo acreditam que Ellen Harmon fez a perplexidade e a tristeza que envolveram o Grande Desapontamento se tornar esperança e ânimo (DOUGLASS, 2001, p. 39).
Como principal confirmação do ministério profético de Ellen G. White, os adventistas costumavam comparar suas experiências sobrenaturais físicas àquelas encontradas no Antigo Testamento, em contextos relacionados a sonhos e visões (Dn 10:8, 17-19).39 O que poderia pender para uma justificativa mais mística de seu ministério. Entretanto, é interessante considerar as observações de Douglass (2001, p. 435), sobre o presidente da Associação Geral no Congresso Bíblico de 1919, ou seja, quatro anos após a morte dela, de que a prova mais convincente da autenticidade do dom profético de Ellen G. White foi o desenvolvimento do movimento adventista ao longo de sua vida, e não as demonstrações físicas exteriores. É interessante perceber que aqui temos uma legitimação posterior do papel de Ellen White. Se até sua morte era possível vê-la em visões, muitas vezes passando vários minutos sem respirar, isso já não seria mais suficiente para a geração de adventistas que não teriam condições de conhecer pessoalmente a autora. Não se nega o passado, mas se faz preciso pensar como tender as novas demandas para a transmissão da memória.
Essas considerações fazem eco ao pensamento weberiano de que “a profecia carismática converte-se [...] inevitavelmente em dogma, doutrina, teoria, regulamento, disposição jurídica ou conteúdo de uma tradição que vai se petrificando” (WEBER, 2004, p. 332). Ellen G. White teria um seu ministério a partir da dominação carismática fornecida por seus seguidores.
a dominação carismática genuína desconhece disposição jurídica, regulamentos abstratos e a jurisdição “formal”. Seu direito “objetivo” é o resultado concreto de vivência extremante pessoal da graça celestial e força heroica semelhante àquela dos deuses e significa renúncia ao compromisso com toda ordem externa em favor da glorificação exclusiva do autêntico espírito profético e heroico (WEBER, 2004, p. 326).
Para Weber o direito “do profeta não se pauta pelas formulações legais ratificadas das instâncias jurisprudentes institucionais” (CARVALHO, 2013, p. 134). Em outras palavras, não é a institucionalização e/ou a burocratização do movimento adventista que fornece à Ellen G. White o carisma de ser quem ela é e/ou foi, mas justamente o contrário: o adventismo é, assim, dependente dela, tanto quanto da Bíblia e de sua memorização histórica do desapontamento, para sua identidade formativa. Mas, até mesmo nessas duas últimas coisas, o adventismo em muito é devedor do carisma de Ellen G. White como forma de consolidação de sua mensagem.
39 Para os argumentos e testemunhos adventistas a respeito da veracidade de Ellen G. White como profetisa, ver Loughborough (2014, p. 167-171), Coon (2012, p. 35-46), Vieira (2012, p. 27-33) e Artur White (2000, p. 8-77).
Com efeito, em confirmação desse ponto, é interessante esclarecer que Ellen G. White não pretendia definir-se como uma “profetisa”, de acordo com a utilização corrente do termo. Para ela, a sua responsabilidade, em resposta ao chamado divino, exigia outra terminologia que ampliava o caráter de sua missão. Para ela,
Alguns tropeçaram no fato de haver eu dito que não reivindico ser profetisa; e têm perguntado: Por que é isto? Não tenho tido reivindicações a fazer, apenas que estou instruída de que sou a Mensageira do Senhor, de que Ele me chamou em minha mocidade para ser sua mensageira, para receber-lhe a palavra, e dar clara e decidida mensagem em nome do senhor Jesus. Cedo, em minha juventude, foi-me perguntado várias vezes: sois uma profetisa? Tenho respondido sempre: sou a mensageira do Senhor. Sei que muitos me têm chamado profetisa, porém eu não tenho feito nenhuma reclamação desse título. Meu salvador declarou-me ser eu sua mensageira. “Teu trabalho”, instruiu-me Ele, “é levar minha palavra” [...]. Por que não tenho eu reivindicado ser profetisa? - Porque nestes dias muitos que ousadamente pretendem ser profetas são um opróbrio à causa de Cristo; e porque meu trabalho inclui muito mais do que a palavra “profeta” significa (WHITE, 2007b, v. 1, p. 31-33, itálicos acrescentados).
É interessante notar duas coisas da citação acima, a primeira é a relação que Ellen G. White tinha com seu próprio ministério. A segunda é que ela mesma afirma existir grande números de pessoas que se intitulam profetas, o que indica claramente não ser sua reivindicação algo incomum ou inédito, mostrando como a ênfase pietista já era forte dentro desse período. Essa relação evidencia, mais uma vez, que o adventismo é fruto de uma época específica e trabalha suas estruturas a partir dela. É dentro dela que se começa a cristalizar a teologia do movimento, com um status carismático, assim, não é de se estranhar a continua tradução de livros de Ellen G. White, que em português já somam mais de 70 títulos, com dois centros de pesquisas, em universidades da denominação, destinados à sua divulgação, isso apenas no Brasil, sendo mais de 20 centros espalhados por universidades em todo o mundo.
A influência de Ellen G. White no pensamento adventista é percebida ainda nos dias atuais: “décadas depois de sua morte, sua influência vive através de milhares de páginas de seus escritos e no imortal espírito de divina conquista que possuía. Verdadeiramente, ela estando morta, ainda fala e seu magnificente espírito de liderança marcha à frente do povo de Deus” (DICK, 1994, p. 178; 1986). A relação dos adventistas com os escritos de Ellen G. White, contudo, nunca pretendeu conferir “status bíblico” às suas reclamações, mas considerá-las mormente como exortações e conselhos de caráter homilético, e não hermenêutico (IASD, 2008, p. 110). A aceitação de Ellen G. White como profetisa, nesse sentido, não deveria ser compreendida como necessária para a formação de um Adventista do Sétimo Dia, pois o indivíduo não é obrigado a crer em Ellen G. White para ser adventista, pois, em suas próprias
palavras, “essas pessoas [descrentes do dom profético de Ellen G. White] não devem ser separadas dos benefícios e privilégios de membros da igreja, se no demais a sua vida se prova correta, e tenham um bom caráter cristão” (WHITE, 2007a, v. 1, p. 328).
Atualmente, mesmo que indivíduo seja livre para não crer nela, é certo que o grupo em muito deve a ela a sua formação e consolidação. Mesmo que alguém não a aceite, não temos como negar a relação que o grupo tem com a autora, mostrando aquilo que Halbawchs afirma: a memória coletiva acaba por suplementar a memória do indivíduo, o qual será influenciado mesmo sem saber ou querer. E cremos ser esse o caminho que precisamos desbravar agora. Após analisar as bases da formação da memória identitária do grupo, cabe discutir mais detidamente os conceitos constituintes dessa memória, e não mais tanto a sua formação.