Se partirmos de um conceito que considera a identidade na contemporaneidade como cada vez mais fluída, existindo diversas opções a escolha de cada indivíduo, é de se esperar que também exista uma crise quanto a tal decisão identitária por parte de grande parte dos seres humanos (BAUMAN, 2010; 2005). E é dentro desse paradigma cultural que Castells (2000) argumenta que vários movimentos sociais podem ser vistos como exercendo importante papel
na busca e na construção da identidade, incluindo aqui de movimentos ambientais aos fundamentalismos religiosos. Dentro do desdobramento socioteológico, devemos pensar uma análise do processo da “pregação e missão” como parte de um movimento de convencimento do outro quanto a uma “verdade”. O adventismo se baseariam no conceito de que precisariam convencer as pessoas racionalmente a optarem pela sua visão do evangelho e, consequentemente, conseguindo uma adesão ao seu quadro de membros.
Dentro dessa realidade, a visão adventista da interpretação de Apocalipse 14 auxilia na codificação da forma como a IASD verá a utilização dos meios de propagação e construção de sua mensagem/identidade. Ao entendermos a situação do sistema doutrinário construído a partir dos pioneiros adventistas, é possível afirmar o que temos argumentado até esse momento: a IASD é caracterizada por uma forte preocupação missiológica, pois entende ser essa uma missão profética especialmente fornecida a ela. E a entende assim devido a pensar ser ela a continuadora direta da mensagem dada a Deus no passado. Apesar das necessidades de rupturas, o movimento trabalha muito mais a noção de continuidades. É verdade que muitas coisas precisaram ser repensadas, refeitas e realocadas, mas isso não tira o foco de sua identidade fundadora: Deus tem um povo na Terra o qual chama para pregar sua mensagem. E o adventista se considera, devido ao seu processo de fundação, tal povo.
Por surgir em pleno século 19, o qual se vê tomado pela grande expansão da ciência e do pensamento modernista/iluminista, e, retomando muitos dos ensinos provenientes da Reforma Protestante, é de fácil entendimento as razões da tradição que o movimento tem em buscar sistemas lógico-doutrinários para formular suas crenças fundamentais, o que afeta diretamente como tal conhecimento será transmitido e readaptado. Ao considerarmos a batalha ideológica dentro de qualquer construção hegemônica da maneira mais ampla e dialógica, entenderemos o pensamento de Castells (2000, p. 22) ao considerar a identidade como um “processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais) prevalece(m) sobre outras fontes de significado”. Pois bem, essa ideia nos lembra a afirmação de Staples (1991, p. 66) de ser o adventismo não apenas “um sistema de crença”, mas, sim, “um estilo de vida”. O perigo mais temido pelo movimento é a “destruição da identidade cristã adventista da igreja remanescente. [...] A unidade é uma verdadeira credencial divina que identifica os cristãos adventistas como a igreja de Deus no tempo do fim” (VELOSO, 2004, p. 245).
Este medo teria levado o adventismo a se preocupar em passar um sistema de crença no qual existe uma necessidade intrínseca de ser mais teórico do que emocional (VELOSO, 2004, p. 244), assunto que precisaremos nos desbravar de maneira ainda mais profunda no próximo
capítulo. Imaginamos aqui que tal prática foi uma das maiores produtoras de identidade, no sentido fornecido por Castells (2000), e também ajudou na geração de um senso proselitista muito comum ao movimento. Identidade aqui pensada como um processo que envolveria autoconstrução, individualização e diferenciação do outro. O que se relaciona com a busca de um significado e não tanto com a função do indivíduo. Ao argumentarmos que o adventismo se encontra, desde o seu início, em um movimento aparentemente paradoxal entre racionalidade da modernidade e os efeitos emocionais provindos em detrimento a ela. Ao o vermos entre uma religião moderna, em sua ênfase racional e libertária, e fundamentalista, em sua visão bíblico- profética; entenderemos a colocação das fronteiras identitárias vividas e articuladas constantemente dentro do movimento. O que poderia ser visto como um paradoxo, na verdade é mais uma indicação de natureza moderna, em um processo de bricolagem, sendo uma das respostas aos problemas suscitados pela própria modernidade recente.
2.5 CONSIDERAÇÕES DO CAPÍTULO
Propusemos pensar o adventismo como ele próprio se entende. Utilizamos, tanto quanto possível, autores e fontes primarias. Abordamos como se deu o início do movimento e como todos os acontecimentos pós-despontamento serviram como ponto central do que viria a ser a ressignificação profética conduzida pelos primeiros adventistas, a qual, acreditamos, estar presente no movimento ainda nos dias de hoje, embora sempre sendo rearticulada para fazer sentido as novas gerações de crentes.
Traçamos o histórico social do grupo, desde o millerismo, passando pelo desapontamento, surgimento da igreja mundial e a formação de sua maneira de pensar e agir dentro sua práxis missiológica. Essas memórias servirão como práxis missiológica que não apenas justificará os investimentos por parte da igreja, mas também para as doações financeiras e de tempo por parte dos membros, os quais, ao acreditarem servirem como porta vozes de um movimento profético, adquirirem unidade e motivação para concluir a missão a qual creem.
Ficaram claros os processos percorridos, sempre em tensão, para que a memória oficial do grupo seja continuamente articulada durante o decorrer dos anos, devido às diversas mudanças trazidas pela modernidade recente. Percebe-se que o mecanismo mais utilizado é a ideia da “verdade presente”, que liberta, a partir da teologia, o adventismo para se atualizar na velocidade que a contemporaneidade exige. Entretanto, essas mudanças precisam estar sempre articuladas com as histórias fundantes do grupo, dando um sentido de continuidade, importante para a unidade identitária do movimento.
Essa ideia, associada a muitas outras elencadas neste capítulo, nos possibilitará discutir como o adventismo tem se portado em seu uso da mídia, mas, antes, acreditamos ser preciso discutir esses aspectos aplicados ao adventismo brasileiro. Sendo assim, o próximo capítulo servirá como aplicação empírica dos assuntos aqui abordados, ao nos debruçarmos em textos publicados na Revista Adventista. Por fim, no quarto capítulo, poderemos realizar o objetivo do presente trabalho: analisar a construção da memória adventista aplicada ao uso da mídia eletrônica (rádio, tv e internet).