Freud (1901/1904) considerou as lembranças da infância um tema de enorme relevância em todos os seus estudos. Em Lembranças Encobridoras, ele salienta a pouca importância dada às lembranças dos primeiros anos de vida, afirmando que é perfeitamente possível que o esquecimento da infância nos possa
fornecer a chave para o entendimento das amnésias que, segundo suas
descobertas, estão na base da formação de todos os sintomas neuróticos (p.55). Em nossa investigação, ratificamos a importância das marcas primordiais no processo de constituição psíquica da criança e, conseqüentemente, na vida adulta, uma vez que estas inscrições não se apagam. Por meio da escrita de suas trajetórias de vida escolar, os professores pesquisados puderam revisitar sua infância e narrar aquilo que ainda permanece na lembrança.
Como B. que se recorda do início da sua escolarização, realizada em casa por seus pais:
Era o seguinte...eu já sabia o alfabeto, já formava algumas palavras (...) Era um hábito na minha época de infância aprender as primeiras letras em casa. É, não existia, naquela época, como tem hoje maternal, maternalzinho, nada disso não tinha (...) As crianças eram alfabetizadas em casa e já iam para a escola sabendo ler alguma coisa...eu já lia algumas palavras...escrevia meu nome e construía o alfabeto.
Assim, também, L., inicia sua memória recordando-se de quando entrou na escola, narrando dois incidentes marcantes:
Entrei na escola com 4 ou 5 anos, não tenho certeza..(...) Lembro-me de uma professora chama I. que me deu uma
reguada nas pernas, porque eu não estava sentada virada para frente (...) Nesta mesma escola tive vergonha de pedir à professora para fazer xixi, temendo receber um não; ocorreu que acabei fazendo ali no lugar onde eu estava, dentro da sala.
De acordo com Freud (1917), podemos explicar o significado de lembranças da primeira infância, como as relatadas por L., a partir da própria recordação à qual ela dá prioridade, aquela que relata em primeiro lugar, com a
qual introduz a história da sua vida, vem a ser a mais importante, a única que contém a chave das páginas secretas da sua mente (p.160-161). No caso do
relato, duas marcas: a agressão sofrida pela professora e a vergonha, em conseqüência do medo de pedir licença à mesma professora.
Ao narrar um de seus casos clínicos, Freud (1917) esclarece que
quando, na análise, duas coisas são trazidas uma imediatamente após a outra, como de um só fôlego, temos que interpretar essa proximidade como uma conexão de pensamento (p.165).
Em outros casos, é possível perceber aquilo que mais marcou a trajetória de vida a partir da ausência ou omissão, ou ainda esquecimento, daquilo que aconteceu no início da infância e, até mesmo, na adolescência:
A opção por Ciências Biológicas deve-se em parte a um relativo sucesso que tinha com a disciplina biologia... S.
Em sua Memória, S. não relata um fato sequer dos períodos da infância e adolescência, iniciando sua narrativa já da época em que iniciou seus estudos
de graduação; o que será elucidado mais adiante, quando ela fala da sua insatisfação com a escolha profissional.
Ao se recordar dos antigos mestres C. faz referência a duas professoras que teve na infância:
“...tem uma que ficou em mim...e foi AM, foi a que mais me marcou...era um lado assim amigo...e depois, que eu vim conhecê-la mais profundamente (...) ela se dava muito bem, então eu sempre preservei isso; mais do que aquela professora do primário que era muito rigorosa, me podava muito (...) e AM não. Eu era eu, do meu jeito. Ela gostava da gente, como a gente era e a gente gostava dela (...) os alunos se sentiam felizes (...) eu me sentia feliz com a presença dela e não sentia medo.”
Importante observarmos que a primeira referência parece ter sido bastante positiva, a começar pela lembrança do nome. Da segunda professora, do primário, ela não se recorda do nome na entrevista.
Freud (1901) esclarece que o esquecimento temporário de nomes próprios:
o esquecimento de nomes, acompanhado por uma ilusão de memória, ocorre com freqüência incomum (...).Quase todas as vezes em que pude observar esse fenômeno em mim mesmo, pude também explicá-lo (...) como motivado pelo recalcamento.(p. 23)
Ela afirma, também, que essas predisposições são indispensáveis para possibilitar ao elemento recalcado apoderar-se, por associação, do nome esquecido, arrastando-o consigo para o recalcamento, conforme aconteceu com
...teve uma...(pensativa, tenta se lembrar do nome)....teve uma de geografia (...) me marcou pela exigência, ela era muito rígida!
Mais adiante, quando ele já falava na experiência da escrita da memória educativa, ela acaba se lembrando do nome da antiga professora de geografia:
...eu acho que o nome dela era M...eu me lembro que ela fazia um dossiê. Naquela época, eu já fazia dossiê, imagine?!...Foi a primeira vez que eu ouvi a palavra dossiê (...). E retornei agora neste dossiê da vida...da vida...ai me lembrei daquele momento (faz referência à memória educativa como um dossiê da vida).(...). Ela não sorria, era uma criatura assim magrinha, entrava na sala, não sorria!Teve um dia que ela falou alguma coisa sobre o dossiê, ai eu dei risada...eu não me lembro mais....foi alguma coisa que alguém falou e eu dei risada (...) Ela exigiu meu dossiê e deu aquele sermão terrível...ela era assim! (relato de B).
Percebemos que a fala sobre a memória a fez lembrar daquela situação. Mesmo depois de dizer que não se lembrava mais do que havia acontecido, ela acaba narrando quase tudo.
Percebemos o porquê do esquecimento do nome depois da narrativa. A marca que a professora havia deixado em sua vida, de forma negativa e constrangedora, havia ficado recalcada e foi trazida à tona quando teve a experiência de escrever a sua Memória Educativa, dispositivo que ela comparou com o Dossiê, que fora solicitado pela professora. Talvez isso explique, também, a restrita narrativa feita na Memória.
A dificuldade de vivenciar novamente aquela sensação que havia ficado no passado, reprimida com a função primeira de evitar a revivescência do sofrimento, do desprazer, conforme ratifica Freud (idem):
quando analiso os casos de esquecimento de nomes observo em mim mesmo, quase sempre descubro que o nome retido se relaciona com um tema que me é de grande importância pessoal e que é capaz de evocar em mim afetos intensos e quase sempre penosos .(p.36)
Freud (ibidem) assevera que, não demora muito, os motivos da lembrança ‘esquecida’ são descobertos, tornando compreensíveis a distorção e o deslocamento da experiência vivenciada; em concomitância, Freud (1901) afirma
que esses erros na recordação não podem ser causados simplesmente por uma memória traiçoeira (p.56). Trata-se de lembranças encobridoras.
Bom, eu tenho uma vaga lembrança do início da minha escolarização (pausa para lembrar). Fui alfabetizada por uma professora de banca (...) ela era muito autoritária!Qualquer briguinha que a gente tinha com um colega, ela batia na gente. (Relato de R.)
Ao tentar entender o porquê dessas recordações não se apagarem e resistirem ao passar do tempo, Freud (1917) esclarece que para que essas lembranças possam ser apreciadas, seria necessário um trabalho de interpretação (leia-se: análise pessoal).
Essa interpretação mostrava que seu conteúdo exigia ser substituído por qualquer outro conteúdo, ou revelava que essas lembranças relacionavam-se com outras experiências inequivocamente importantes e que haviam surgido em seu lugar com aquilo que conhecemos por lembranças encobridoras (p.160).
Para Freud (idem), essas recordações não devem ser desprezadas. E complementa dizendo que podemos conjecturar que aquilo que a memória
preserva é o elemento mais significativo em todo o período da vida, quer houvesse tido tal importância na época, quer tivesse adquirido importância subseqüente por influência de eventos posteriores (op. cit.).
Ainda sobre as marcas da infância, estas estiveram muito presentes nas falas e narrativas dos professores pesquisados, especialmente quando falavam da influência dos seus pais na escolha profissional:
É...como eu falei, foi muito a influência de minha mãe; ela, por não ter formação, estudou pouco. Ela é do interior e, naquela época, professor era tudo e eu sempre gostei de crianças. Não sei lhe dizer exatamente o que me levou a ser professora, acho que foi essa influência familiar e o gostar de criança. Acho que foi isso. (Fala de B)
Do mesmo modo, S. também foi influenciada pela família:
Minha mãe, que era professora, gostaria muito que eu fosse professora, que fizesse Pedagogia...Meu pai também queria que eu fosse professora e que me casasse.
Além de interferirem na escolha da profissão, os pais de S. conseguiram decidir o destino da sua vida pessoal. Hoje, ela é professora e casada, tendo realizado os desejos parentais.
Aqui, vale recordarmos a afirmação de Cordié (1996), quando fala da demanda dos pais em relação ao futuro dos filhos:
A criancinha ouve bem cedo a demanda que lhe é feita: ela deve aprender, ela deve ser bem-sucedida. Desde a pré- escola, alguns pais se inquietam com as performances intelectuais de seus filhos e com suas possibilidades de sucesso (...) A criança percebe muito bem que ela tem de responder a uma expectativa (p. 23-24).
Mesmo depois de adulta, os pais continuavam dando as diretrizes para a sua vida e profissão – a narrativa é da época em que entrou na faculdade. Ainda hoje, ela continua atendendo às idealizações dos pais.
Cordié (idem) salienta que à época da dissolução do Complexo de Édipo, se a criança não consegue descolar-se de sua ligação com sua mãe, permanece numa relação de dependência sujeito-objeto, Este processo de separação representa um doloroso trabalho psíquico de remanejo das posições
subjetivas. Em vez de ser objeto que satisfaz o Outro, a criança deve se tornar um sujeito por inteiro. Passa, então, do status de objeto, que satisfaz o Outro, para o de sujeito desejante, capaz de fazer suas próprias escolhas (p.28).
Entretanto, alguns pais, mesmo depois de ter os filhos crescidos, continuam projetando seus ideais narcísicos neles, não suportando a idéia de que eles construam sua própria história.
Desse modo, também L. atendeu aos desejos parentais, quando fez sua escolha profissional:
Minha mãe falava sempre que quem quisesse constituir uma família tinha que ser professora, pois dava para conciliar o trabalho com os afazeres do lar e com a dedicação aos filhos...Fui, então, fazer magistério.