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5 DESATIVAÇÃO E REATIVAÇÃO: repercussões e impactos

5.4 EMus /UFBA E PROGRAMAS DE INCENTIVO AO ENSINO SUPERIOR

Os estudantes dos cursos técnicos profissionalizantes das escolas públicas, geralmente representados pelas camadas de baixa renda, lidam com os percalços de uma formação educacional marcada pelas dificuldades e instabilidades típicas deste tipo de ensino. Por conta disso, as oportunidades de ascensão ao ensino superior tornam-se por muitas vezes inacessíveis, provocando assim um distanciamento entre o ensino público e a universidade. Portanto, torna-se imprescindível aprofundar-se na realidade destes estudantes, discutindo seus modelos de vida, valores e propósitos. Desta forma, pode-se então viabilizar caminhos que os permita ter as mesmas oportunidades de ingresso ao nível superior, como as que têm os alunos advindos de escolas particulares.

Para Zago (2006), “estudar essa população para entender as transformações nas demandas e nas práticas escolares, assim como no perfil dos estudantes na sociedade contemporânea, representa uma necessidade para a pesquisa e as políticas educacionais em todos os níveis de ensino”. (ZAGO, 2006, p.236).

Com relação à elitização do ensino superior para as classes de baixa renda, Ortega (2001), afirma que as escolas particulares têm como meta principal, a preparação dos seus

estudantes para o acesso nas boas universidades gratuitas, enquanto as escolas públicas às vezes sequer fornecem informações coerentes relacionadas sobre o ingresso na universidade ao seu alunado.

Além disso, para a autora, os alunos das escolas particulares são privilegiados em relação aos alunos das escolas públicas, por conta ainda de outras vantagens:

• Por estarem previamente decididos a se inscreverem nos vestibulares; • Por estarem informados sobre os vestibulares de diferentes universidades; • Pelo fato da estrutura educacional pública básica não incentivar seus alunos a

tentar o ingresso nas universidades;

• Por possuírem vantagens econômicas e sociais, em relação aos alunos da rede pública. (ORTEGA, 2001).

Alguns autores como Vasconcelos (2004), em concordância com o que já foi descrito em capítulos anteriores, também associam o insucesso de ser ter um maior contingente de alunos inseridos na universidade provenientes de escolas públicas, aos seguintes fatores: falta de uma infraestrutura; material de apoio didático; segurança nas escolas; motivação discente e docente (práticas pedagógicas adequadas); remuneração e atualização de profissionais da área. Ainda para o autor: “... tais fatores de natureza complexa estimulam o surgimento de obstáculos ao desenvolvimento do setor, reduzindo a “competitividade” do aluno de origem de escola pública quando comparado ao aluno de escola particular”.

Nesse sentido, pode-se afirmar que as políticas educacionais de ensino dos anos 90, foram determinantes no que diz respeito ao retorno da velha dualidade entre ensino médio e educação profissional, bem como a degradação dos outros níveis de ensino.

Contudo, após várias décadas de pouco investimento na educação superior, que inclui o governo de FHC e seus antecessores, algumas estratégias foram adotadas desde o primeiro mandato do governo Lula, que segundo Ball (1994a), estão relacionadas ao “Contexto da Estratégia Política”. Para o autor, esse contexto: “envolve a identificação de um conjunto de atividades sociais e políticas necessárias para lidar com as desigualdades criadas ou reproduzidas pela política investigada”. Essas estratégias se reportam a medidas adotadas pelo governo Lula, relacionadas à criação de programas que incentivam o acesso, (principalmente a estudantes advindos da rede pública de ensino), no nível superior de instituições públicas e privadas. Dentre esses programas, podem ser citados aqui os de maior relevância para a democratização do ensino superior.

Inicialmente o Exame Nacional de Ensino Médio - ENEM, criado em 1998, foi considerado um programa de suma importância na avaliação dos estudantes de ensino médio e na condução do processo seletivo de admissão na universidade. Mais adiante, através de uma medida que isentou a sua taxa de inscrição, o Enem possibilitou ainda mais a participação em massa dos estudantes nos exames de seleção para o vestibular. Mas somente em 2004, o Enem ganha uma maior visibilidade, com a criação do Programa Universidade para Todos – Prouni.

O Prouni, cujo acesso está atrelado mediante realização das provas do Enem, concede bolsas em instituições privadas para estudantes carentes, que tenham alcançado pontuação mínima nos exames estabelecidos pelo programa. Outro pré-requisito para obtenção da bolsa do Prouni, é o fato do estudante ter freqüentado todo o ensino médio em escola pública ou em escola particular, porém, na qualidade de bolsista. O Prouni contempla também instituições como a FUNAI e reserva vagas para quilombolas, negros e indígenas além de portadores de deficiências físicas. Todavia, para serem aprovados, todos os estudantes têm que obedecer aos critérios de seleção dos demais candidatos. Esse programa oferece dois tipos de bolsa: a integral, para estudantes com renda bruta familiar de até um salário mínimo e meio; e a parcial, que oferece desconto de 50% para estudantes com renda familiar bruta de até três salários mínimos.

Em relação ao Enem, vale ainda ressaltar que as universidades públicas também aderiram como parâmetro de seleção total ou parcial, as notas obtidas pelos estudantes nesse referido exame, como forma de substituição ao vestibular tradicional ou equivalente a este. Observa-se também, que o Enem ao longo dos últimos anos, se afirma como um programa que acompanha todos os processos recentes de mudanças educacionais provenientes da LDB e colabora efetivamente na sistematização das estruturas curriculares em todas as etapas e modalidades de ensino no Brasil. Junto ao Enem, podemos enfatizar a criação do Sistema de Seleção Unificado - SISU criado pelo MEC. O SISU é um programa informatizado, que oferece vagas em instituições públicas de ensino superior por ordem de classificação dos candidatos participantes do Enem, e que obtiveram nota superior a zero na redação.

Ainda como estratégia da não elitização do ensino superior às classes menos favorecidas, o governo federal aprova em 2012, a lei 2.711, a chamada “Lei das Cotas” (Brasil 2012). Essa lei confirma o direito a ¼, ou seja, 25% das vagas em todas as universidades e institutos federais, para os alunos que cursaram todo ensino médio em escolas públicas. Metade delas, são reservadas a estudantes com renda mensal familiar equivalente a um salário mínimo e meio , bem como a pardos, negros e índios.

Porém, em que pese a contribuição desses programas, está longe ainda de conseguirmos promover uma democratização completamente satisfatória de acesso ao ensino superior, uma vez que as desigualdades regionais do ensino no Brasil são imensas. Sendo assim, a suposta igualdade de concorrência e acesso, esbarram nas diferenças socioculturais e econômicas concretas por parte dos candidatos. .

Deste modo, ao explanar brevemente sobre o panorama de políticas públicas educacionais no Brasil que visam oportunizar o acesso as universidades públicas e privadas aos estudantes de baixa renda, o presente trabalho também abre um parêntese sobre a atual realidade da EMus/UFBA, no que se refere à disponibilização de vagas nos seus respectivos cursos, oferecidos no nível superior e o sistema de distribuição de cotas.

A pesquisa constatou então, que através de dados coletados na secretaria da EMus/UFBA (2015), o curso de música do nível superior da EMus/UFBA dispõe de 80 vagas, sendo que: 25 para instrumento, 20 para licenciatura, 10 para canto, 10 para composição e regência e 10 para os cursos oferecidos na graduação em música popular. Em relação ao sistema de cotas, dessas 80 vagas, 20 lhe são destinadas. (SECRETARIA DA ESCOLA DE MÚSICA, 2015).

Contudo, tratando-se desses programas que incentivam à democratização do ensino superior aos estudantes de escolas públicas, em relação ao ensino de música na Bahia, não podemos afirmar a presença dessas estratégias acima citadas à época de criação do curso de música do CEDMN. Para melhores esclarecimentos, a seguir, a pesquisa fará um breve relato sobre o processo de formação musical, que antecede o acesso ao nível superior em música na Bahia.

5.5 O CURSO DE MÚSICA DO CEDMN E A DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR EM MÚSICA NA BAHIA

O ensino profissionalizante em música na Bahia sempre ocupou um lugar secundário, no que diz respeito às políticas públicas para educação. A distância entre a criação de um curso de nível secundário em música e a implantação da graduação em música no estado da Bahia revelam uma lacuna na formação musical, que deveria anteceder ao ingresso do aluno na Universidade. As informações a seguir, discorrem brevemente sobre como ocorreu o processo do ensino musical na cidade de Salvador-BA, desde os seus primórdios até os dias atuais .

O início da educação musical em Salvador é marcado primeiramente com a chegada dos jesuítas em 1549, no Governo Geral de Tomé de Souza, restrito somente ao contexto religioso. Sendo assim a partir de 1818, Salvador passa a ter o primeiro professor de música destinado ao ensino público, que se chamava José Joaquim de Souza Negrão. Após o seu falecimento em 1832, passa a ser substituído por Domingos da Rocha Mussurunga, na data de 28 de março de 1846, que meio século depois, consegue criar o primeiro conservatório de música de Salvador, denominado “Instituto de Música”. (PERRONE, 1997).

Em 1897, o Instituto de Música inicialmente, funcionou como um conservatório anexo a Escola de Belas Artes, sendo assim a segunda escola de música fundada no Brasil. Porém somente em 1918, este conservatório foi legalizado e reconhecido com o nome de Instituto de Música da Bahia, através da junção deste com a Sociedade Auxiliadora. Hoje, é o atual Instituto de Música da Universidade Católica de Salvador. (PERRONE, 1997, p.225)

Bem mais adiante, em julho de 1954, se dá então o primeiro passo para o surgimento do curso superior em música, através dos I Seminários Internacionais de Música da

Universidade Federal da Bahia, organizado pelo músico alemão Hans-Joachim Koellreutter e

a professora Maria Rosita de Góes Salgado, a convite do então reitor Edgar Santos.

Ainda assim, a questão da democratização do acesso ao ensino de música, não ocorre com a criação do curso superior de música da UFBA, uma vez que as classes menos favorecidas, não poderiam ter oportunidade à formação musical, que as preparassem para entrada nessa referida instituição.

O que se viam desde aquela época, eram os chamados cursos de extensão (oficina e básico) oferecidos pela própria instituição (EMus-UFBA), como alternativa de preparação musical para o indivíduo que almejasse adentrar no nível superior em música, bem como o curso técnico do Instituto de Música da Universidade Católica da Bahia. (SECRETARIA DA ESCOLA DE MÚSICA, 2016). Esses cursos eram pagos e geralmente não contemplavam de maneira satisfatória as camadas de baixa renda. Outras formas de preparação para o ingresso na graduação eram e ainda são os cursos de música existentes pela cidade ou aulas particulares com professores capacitados para esse tipo de situação. Porém todas essas alternativas envolviam e envolvem custos financeiros e muitas vezes até elevados, impossibilitando assim o acesso à devida preparação das classes menos favorecidas.

Somente no início de 1993, com a criação do curso profissionalizante de música do CEDMN é que verdadeiramente foram abertas as portas para o início de uma democratização que permitisse o acesso ao nível superior, da população advinda das classes de baixa renda.

Compromissados com o social e engajado numa proposta pedagógica idealista que trazem desde as raízes iniciais de criação do curso, o corpo docente do curso de música do CEDMN, ainda garante uma formação sólida e consistente dos seus egressos, independente das dificuldades que ocorrem dentro do sistema de políticas públicas relativas ao nível profissionalizante de segundo grau.

Sobre a relevância do curso de música do CEDMN, como ponte de acesso para o nível superior em música da UFBA e em relação à formação técnico profissionalizante do estudante de música, o Profº. nº 6 afirma:

Buscamos preparar nossos alunos não só para a atuação musical profissional como instrumentistas, mas também é nossa preocupação ajudá-los em sua formação humanística, dando atenção aos aspectos comportamentais e éticos de sua formação. Pleitear a inserção no nível superior de educação passa a ser uma meta natural e legítima para os jovens que se habituam a buscar o desenvolvimento, almejando sempre o aperfeiçoamento que certamente deverão encontrar na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. (PROFESSOR nº6, 2015)

O Profº. nº 10 da EMus/UFBA,reconhece não só a importância do curso, bem como a qualidade da maioria dos professores do corpo docente:

A importância dum curso desse para a referida camada populacional é imensa. Em Salvador da atualidade, onde os menos favorecidos aprenderiam, formalmente música? Destaco, também, o nível dos professores de lá, que conheci e conheço. (PROFESSOR nº 10, 2015).

Observemos agora outros depoimentos de professores do CEDMN e da EMus/UFBA, emitindo suas opiniões sobre a importância do papel de um curso profissionalizante em música como o do CEDMN, no que diz respeito à democratização do acesso ao nível superior em música da EMus/UFBA, para os estudantes de baixa renda.

A formação musical profissionalizante pré-acadêmica na escola pública aumenta as possibilidades de acesso ao curso superior na EMUS-UFBA, já que possibilita ao indivíduo com baixa renda a aquisição prévia de conhecimento e prática musical de qualidade, capazes de facilitar a sua permanência na universidade e a conclusão do curso superior de música. (PROFESSOR nº 4, 2015)

É de grande importância a existência de um curso desta natureza para a preparação de estudantes de baixa renda que não tem recursos para custear aulas particulares de música ou pagar um curso de extensão em instituições de ensino voltada para a música. Além de servir, de maneira indireta, como preparação de alunos para o vestibular em música, este curso oferece aos estudantes a oportunidade de estudar e vivenciar práticas musicais básicas com boa qualidade de ensino. (PROFESSOR nº 11, Emus/UFBA, 2015)

Acredito que um curso profissionalizante de música para a população de baixa renda vem preencher uma lacuna que é a carência de cursos no ensino público de música que tragam o conhecimento necessário para aqueles que pretendem ingressar num curso superior de música. As aulas obrigatórias de música nas escolas trazem conhecimentos iniciais, mas não um ensino direcionado para suprir as exigências de um programa para ingresso na universidade. Dessa forma, considero extremamente importante um curso desse nível para dar oportunidade de

ingresso da população de baixa renda em cursos superiores de música, principalmente na universidade pública. (PROFESSOR nº 12, Emus/UFBA, 2015)

A Prof.ª nº7 destaca ainda o valor do curso para o mercado de trabalho:

Eu vejo como um papel muito importante para a vida desses estudantes que querem viver da música e que não tem como pagar para estudar um instrumento. Esse curso dá uma oportunidade maravilhosa a esses alunos de baixa renda poder estudar música, que é um curso caro, e ainda se prepararem para ingressar na faculdade de música proporcionando assim, a inserção deles também no mercado de trabalho. (PROFESSORA nº 7, 2015)

Para a Prof.ª nº 9, a função de um curso profissionalizante em música como o do CEDMN, não implica só na preparação do seu alunado em direção ao nível superior em música ou para o mercado de trabalho. Ela acha necessário também, estimular o indivíduo a estabelecer contato coma música como um meio de desenvolvimento das suas aptidões, através do próprio curso:

O papel da escola é estimular as faculdades cognitivas, afetivas, sociais e motoras para desenvolvimento do aluno. Muitos adolescentes iniciam o curso sem saber se querem seguir a profissão de músico ou frequentar uma faculdade de Música, porém querem muito estudar música, um instrumento. Apesar de o curso ser ‘profissionalizante’ não podemos perder de vista esta realidade que os alunos estão trazendo. Isto não quer dizer, que estudem menos, ao contrário, participam dos desafios apresentados com muito empenho. (PROFESSORA nº9, 2015).

O Profº. nº 13, ainda realça o nível e a qualidade dos alunos que estudaram nessa escola:

Os exemplos de músicos que passaram pelo CEDMN e se tornaram grandes artistas e profissionais são muitos. É importante termos escolas técnicas vinculadas ao segundo grau, apesar do aparecimento de algumas opções paralelas como os cursos da Funceb31, Pracatume algumas escolas particulares. (PROFESSOR nº 13,2015). Para Franciel, que ingressou no curso de música do CEDMN em 2002, algumas disciplinas foram de fundamental importância para o seu ingresso no curso de Licenciatura da EMus/UFBA:

Sim. O curso me ajudou muito. Pude experimentar inúmeras vivências musicais. As aulas de piano com a professora Graça Ferreira, as aulas de teoria musical e percepção musical, enfim, tudo o que aprendi lá me preparou muito para ingressar na universidade. (FRANCIEL, 2015).

O egresso Moura, ao qualificar o curso, aponta para um traço relacionado ao nível de ensino do curso, que o chamou atenção na sua época:

Não só para entrar na faculdade como dar toda base e suporte para o desenvolvimento profissional. Na parte teórica, na época o curso do Manoel Novais tinha mais qualidade do que a própria faculdade, além do acompanhamento educacional do corpo discente. (MOURA, 2015)

De acordo com os depoimentos anteriores, observa-se a confirmação da real necessidade de um curso profissionalizante como o do CEDMN dentro do processo de democratização do ensino de música na Bahia, tendo como foco não só a inserção dos seus estudantes no mercado de trabalho, bem como o acesso das camadas de baixa renda ao nível superior. É interessante também reiterar que fica evidente à preocupação por parte do corpo docente, com a concepção e os resultados das metodologias de ensino de música adotados por eles, de maneira a virem a ser adequados ao seu público alvo. Falas como a do Profº. nº 6 “...

é nossa preocupação ajudá-los em sua formação humanística, dando atenção aos aspectos comportamentais e éticos de sua formação” e da Prof.ª nº 9“... o papel da escola é estimular as faculdades cognitivas, afetivas, sociais e motoras para desenvolvimento do aluno”,

também demonstram as suas impressões sobre a função e significado da música na formação de um indivíduo, seja ela em qualquer nível de escolaridade.