4 DAS OFICINAS MUSICAIS AO CURSO TÉCNICO
4.2 PROPOSTAS PEDAGÓGICAS VERSUS INCOMPATIBILIDADE
sucesso do curso tinha de estar atrelado a qualidade profissional do corpo docente”.
(HORTÉLIO, 2015). Ou seja, o curso tinha como foco, educar musicalmente bem esses alunos, para uma boa atuação no mundo do trabalho.
O fato é que, o curso de música do CEDMN, surpreendeu a todos não só pelo êxito obtido em inserir bons profissionais no mundo do trabalho, mas também, em prepará-los de uma maneira consistente para o seu ingresso no nível superior em música, principalmente na EMus/UFBA. Observou-se, que a maior contribuição para que isto acontecesse, foi à busca por uma proposta pedagógica musical diferenciada, que contemplasse as preferências tanto profissionais quanto acadêmicas, por parte dos seus egressos.
Em relação à proposta pedagógica almejada pelo curso, Lydia afirma que: “[...]o
ensino do CEDMN estava voltado principalmente da música popular brasileira para música do mundo, começando claro, pela música feita na Bahia, não só em Salvador[...]” (HORTÉLIO, 2015). Nesse momento, ela refere-se a todo tipo de gênero musical brasileiro,
Frevo e outras várias vertentes musicais existentes no Brasil afora. Segundo ela, as aulas teriam como enfoque não só a música brasileira, mas também a música dos povos mais próximos, como por exemplo, a música dos países Latino-Americanos, Ibéricos, Europa Central (França, Itália e Alemanha), países esses que não só herdaram, mais foram também o berço da música clássica. Sendo assim, para Lydia, ”Percepção Musical” seria a disciplina mais importante do curso, pois só poderia ser através desta referida disciplina, que os alunos entenderiam as estruturas harmônicas e rítmicas de todos os tipos de músicas advindas de qualquer lugar do mundo. Essa percepção deveria ser principalmente trabalhada por osmose, ou seja, através do ouvido. (HORTÉLIO, 2015).
Em relação às aulas de História da Música, ela ainda afirma que era imprescindível primeiro aprender a história da nossa música, “A História da Música Popular Brasileira”, não só através dos livros, mas através de uma história contada por meio de audições musicais em salas de aula. Para tanto, se fazia necessário associar cada gênero musical da nossa terra às suas respectivas tradições, estabelecendo assim, uma análise sobre suas influências e contribuições para a música popular brasileira num todo. (HORTÉLIO, 2015).
Como forma de reafirmar a sua maneira de pensar em relação a essa referida proposta pedagógica, Lydia recorda a frase que serviu de um slogan desde o início de fundação do curso: “Para que tenhamos lugar no concerto dos povos nós queremos nesta
escola: ouvir o mundo e cantar o Brasil”. Por isso, o CEDMN tinha que ser uma escola
brasileira de música e não uma escola de música brasileira somente. (HORTÉLIO, 2015). Vale ressaltar, que todos os professores entrevistados nesta pesquisa foram unânimes em avaliarem como entre boa, ótima e excelente a proposta pedagógica elaborada pelos idealizadores do projeto. Porém, na prática, alguns posicionamentos de certos profissionais por parte do corpo docente, no decorrer da trajetória do curso, foram contraditórios.
O Prof. nº3, em entrevista concedida a este trabalho, expõe sua opinião a respeito da proposta pedagógica inicial:
A proposta pedagógica era clara, era uma proposta inusitada, pelo fato de você trazer a música popular para dentro do estudo, a linguagem da música popular para dentro do estudo. Por não existir ainda uma sistematização, só o fato de você fazer isso!. Inclusive eu lancei meu livro de percepção musical, enquanto estava lá. Aquele livro eu já vinha trabalhando com ele há muitos anos desde a época da AMA, rascunhos e tudo, então era um material que eu já tinha pronto.. mas só o ato de você saber que música popular se prepara na escola também.... muita gente ainda pensava que música popular você aprende a tocar na rua, que a linguagem popular você aprende na rua, mas né não, não tem nada disso, não tem nada desse papo. Do contrário, música popular ela serve pra você se aprofundar na música, através da música popular, cê tá entendendo?! Se eu for explicar pra você a
linguagem do impressionismo, se eu for usar a música popular como exemplo, você vai entender com muito mais segurança o que eu vou falar sobre o impressionismo, do que se eu começar a discorrer sobre Debussy, etc..etc... Aí você não chega em lugar nenhum[...]
Fica claro portanto, que para o Prof. nº 3, a proposta pedagógica era completamente voltada para música popular não só brasileira, bem como do mundo todo. É importante também rememorar que existiam alguns professores com um enorme lastro de experiências adquiridas de outras vivências profissionais. Sendo assim, estes professores foram peças chaves na estruturação pedagógica do curso, pois já haviam sistematizado boa parte do material que serviria de estudo para um dos focos principais do curso: as chamadas disciplinas “Harmonia Funcional, Percepção Musical, Improvisação e Instrumento”.
Ainda sobre a proposta pedagógica, Lydia também não concordava com um modelo conservador de ensino de música e por muitas vezes encontrou dificuldades e resistências por parte do corpo docente, ao expor a sua concepção da música popular brasileira e do mundo, como foco do processo de ensino e aprendizagem do curso. O fato, é que alguns professores do corpo docente, se identificavam mais com a forma de ensino voltada para a música erudita, onde todo o estudo de Harmonia, Percepção e Instrumento principalmente, estariam fundamentados numa estrutura musical tradicional, onde o repertório a ser executado seria geralmente baseado na maioria de compositores eruditos como: Bach, Beethoven, Mozart, Brahms, Debussy, dentre outros.
Isso tudo ia em parte, de encontro à proposta pedagógica idealizada pelos seus elaboradores, que tinha a palavra “inovação” como a idéia principal dentro do ensino da música.
Voltando a teoria dos contextos, para melhor exemplificar esta situação, pode-se observar nesse momento a inclusão do “Contexto de Resultados” no “Contexto da Prática”. Em uma entrevista cedida por Ball a Jeferson Maynardes em 2007, o autor explica a importância da associação do “Contexto de Resultados” e “Estratégia Política” ao “Contexto
da Prática”, como resposta a uma pergunta de Maynardes. Ball também classifica o
“Contexto de Resultados” como de “primeira e segunda ordem” explicando que:
Não é útil separá-los e eles deveriam ser incluídos no contexto da prática e da influência, respectivamente. Em grande parte, os resultados são uma extensão da prática. Resultados de primeira ordem decorrem de tentativas de mudar as ações ou o comportamento de professores ou de profissionais que atuam na prática. Resultados de segunda ordem também acontecem, ou pelo menos alguns deles acontecem, dentro do contexto de prática, particularmente aqueles relacionados ao desempenho, a outras formas de aprendizado. Obviamente, outros resultados só
podem ser observados a longo prazo e desaparecem dentro de outros contextos de realização.(BALL, 2007)
Evidencia-se então, de acordo com relatos até aqui descritos, que os profissionais (professores) que atuam no “Contexto da Prática”, passam a interpretar os textos que tem relação com a elaboração da proposta pedagógica, de uma maneira particular. Eles podem ou não recriar, aceitar ou recusar tudo que faz parte do universo da prática. A partir desse momento eles não são meros espectadores. Eles interpretam os textos ou propostas, de acordo com seus valores, experiências histórias de vida, propósitos e interesses diversos. Ainda para Bowe (1992, p.22):
Além disso, interpretação é uma questão de disputa. Interpretações diferentes serão contestadas, uma vez que se relaciona com interesses diversos, uma ou outra interpretação predominará, embora desvios ou interpretações minoritárias possam ser importantes. (BOWE et al., 1992, p. 22).
Naturalmente, nem todos os docentes, tinham domínio total sobre todos os gêneros e estilos musicais, aos quais se referia à proposta pedagógica. Até aí, perfeitamente normal. O fato é que isso implicava numa certa resistência à inovação oferecida pela referida proposta. Daí o motivo pelo qual estabelecer uma arena de disputas e contestações, pois nesse momento exacerbavam-se as vaidades individuais, associadas às vertentes de gênero musical de cada profissional. Por outro lado, abriam-se as portas para uma oferta diversificada de aprendizagem musical. E foi nesse aspecto que os alunos foram altamente beneficiados. Diga- se de passagem, a maioria dos egressos pertencentes aquela primeira turma que chegou até o final do quarto ano, cuja formatura foi no final de 1996, tinha habilidades suficientes para tramitar em diversos gêneros musicais, com bastante aptidão e consciência.
Ao comentar em entrevista, para essa pesquisa, sobre o que achava da proposta pedagógica do curso, o aluno Lula, demonstra claramente a sua preferência sobre essa forma de aprender música:
Eram aulas que de certa maneira estavam vinculadas com nosso cotidiano. Eu precisava entender harmonia daquela forma como o professor C ensinava, associando a todo o momento os assuntos teóricos ao cancioneiro popular, a bossa nova, choro, a MPB, jazz, Beatles, até exemplos no axé music. Tocava na noite, comecei a enriquecer minhas harmonias, entender as harmonias complicadas de Chico, Jobim, Edu Lobo, Gil, Caetano. Adorava estudar percepção musical daquela forma como eles faziam lá, aprendi intervalos memorizando o som através de melodias de música desse pessoal todo aí que citei anteriormente, facilitou muito a saber escrever uma melodia, ditados, a maneira como era ensinado, tudo com música e principalmente música popular. Só que tinham professores que queriam ensinar daquela maneira como aprenderam na universidade, queria que cantássemos aquelas obras para coral de compositores de séculos passados, e aí a gente fazia forçado, era chato.Por que não fazia um arranjo e cantava músicas populares famosas? Ficou assim meio dividido o corpo docente nesse aspecto. (LULA,2015).
É importante que se tenha idéia da dimensão dessa proposta pedagógica não conservadora a que Lydia se refere e que o Prof. nº 3 defende, principalmente no aspecto que diz respeito ao uso de uma linguagem musical que fosse a mais prazerosa e adequada para os alunos. O estudo da música pela própria música popular seja ela do Brasil ou de qualquer outro continente, parecia estar em total sintonia com o perfil de alunos que adentravam àquela instituição.
Muitos estudantes já vinham com bagagem musical mais ampla, com história musical própria. Tinham bandas, tocavam na igreja, em casamentos, em barzinhos à noite, alguns até tocavam em trios elétricos. Esta abordagem que vem do “Contexto da Prática”, portanto, assume que os professores e demais profissionais exercem um papel ativo no processo de interpretação e reinterpretação das políticas educacionais e, dessa forma, o que eles pensam e no que acreditam, têm implicações para o processo de implementação das políticas. (MAYNARDES, p.53).
Portanto, é importante reiterar, que em relação ao curso técnico de música do CEDMN, o perfil de formação dos alunos provenientes dos resultados dessas interpretações, disputas e realizações entre o corpo docente, foram e são determinantes para o fortalecimento das tendências relacionadas a gêneros e estilos musicais. Isso também se dava de acordo com as escolhas e facilidades despontadas pelos alunos no gênero musical de sua preferência.
Nesse momento, os profissionais exercem um papel ativo no processo de interpretação e reinterpretação não só das políticas públicas de educação, mas nas escolhas, por parte do corpo discente, de concepções teóricas e práticas da música, como é o caso dos alunos que se formam no CEDMN.
Também é importante atentar, que nesse sentido, em relação ao aspecto pedagógico observamos um racha, uma fissura na política de ensino do CEDMN, quando dentro do “Contexto da Prática”, alguns professores, diferem no quesito interpretação do papel do colégio e da formação adequada do músico popular dentro das propostas pedagógicas previstas.
Começam então entre os alunos, uma busca incessante por identidade musical. Criam-se grupos dentro da própria escola, influenciados pelos diversos gêneros musicais compatíveis com a formação individual dos professores. Observava-se nitidamente a formação de diversas alas musicais por parte dos alunos do curso, assim denominadas: a ala da mpb, dos chorões, dos bossa novistas, dos improvisadores (que tinham como admiração o jazz e blues) e a ala dos eruditos ou clássicos.
Existiam também alguns poucos alunos que procuravam tramitar na maioria dos