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Como relatado no referencial teórico dessa pesquisa, Schaufeli et al. (2002) definiram o engajamento no trabalho como sendo uma condição que se relacionaria de forma positiva na mente das pessoas, uma condição realizadora vinculada ao trabalho cujas características seriam o vigor a dedicação e a absorção. Das características expostas, o vigor e a dedicação poderiam ser consideradas opostas, de forma respectiva, à exaustão e desumanização, sendo o engajamento identificado também pelos altos níveis de energia e pela grande identificação que os colaboradores teriam com o seu trabalho.

A característica inicial analisada referente à teoria de engajamento no trabalho de Schaufeli et al. (2002) foi o vigor. Essa situação foi tratada primeiramente no tópico 7, sendo que foram obtidos, dentre outros, os seguintes posicionamentos:

Eu não tenho problema nenhum em me dedicar mais. Na verdade, eu estou sempre à disposição, inclusive, agora nós vamos ter essa oportunidade. Se o curso superior que pretendemos implantar aqui for aprovado, vamos ter que sair fazendo a divulgação, eu vou suar a camisa, mas vejo isso mais como uma oportunidade. (ENTREVISTADO 10) Eu vesti a camisa desde o início, eu acredito que a instituição casou mesmo com o que eu esperava profissionalmente. Fora do ambiente de horário de trabalho eu também me dedico a isso. É uma coisa natural. (ENTREVISTADO 12)

Eu já me dediquei muito no início, eu chegava aqui às 07 horas da manhã e saia às 07 horas da noite. Depois pegava o ônibus às 22 horas e ia para o doutorado. Hoje eu me dedico menos pois têm pessoas mais novas entrando no processo e contribuindo. Entendo que nós sempre estamos dispostos a nos doar, mas a crítica que eu faço agora é em relação à estrutura maior, a questão política. Ela atrapalha muito, a questão política se sobrepõe ao planejamento. (ENTREVISTADO 3)

Eu diria que hoje eu estou mais aberto a me doar. A partir do momento em que você vai conhecendo o Instituto e vai se adaptando, você quer que ele cresça. Eu diria que estou

bem-disposto. Temos até um projeto que estamos trabalhando justamente visando essa situação. Talvez não diria que estou completamente pronto para atingir esse nível e me doar física e mentalmente, mas é o que estou buscando. Eu pretendo chegar nesse nível, eu tenho consciência de que estou caminhando para que essa completa disposição física e mental venha, eu estou aberto a essa situação. (ENTREVISTADO 9)

Schaufeli et al. (2002) afirmam que uma das características do vigor é a vontade que o colaborador tem em investir esforços na sua instituição. Os relatos dos entrevistados afirmando que vestem e suam a camisa pela organização, que se dedicam e querem se dedicar ainda mais, até de uma forma natural, e que estão buscando atingir um nível de excelência para se doar ainda mais, demonstram uma sintonia com a característica vigor da teoria estudada.

O outro tópico que tratou sobre o vigor foi o de número 8. Nesse tópico, buscou-se avaliar o nível de energia que os entrevistados entendiam dispensar nas atividades do trabalho e fora desse ambiente. Os posicionamentos encontrados foram nos seguintes sentidos:

Na verdade, eu vejo que estou utilizando atualmente a maior parte da minha energia no trabalho, por isso, eu já decidi que vou ficar na função (em comissão) que atualmente ocupo somente até o final desse ano. (ENTREVISTADO 1)

Eu entendo que eu gasto mais energia aqui na instituição, mas a energia que eu gasto aqui é diferente da que eu gasto nas minhas atividades fora da instituição. A energia de fora da instituição me absorve de um jeito diferente. (ENTREVISTADO 13) Eu utilizo muito mais energia aqui no trabalho, eu venho cedo e quando eu saio já está acabando a energia. Eu chego em casa e diante de qualquer tarefa eu penso primeiro em descansar. Como eu chego geralmente sempre cedo, às vezes opto por vir só à tarde e à noite justamente para ter um tempo de manhã para me dedicar a essas atividades em casa. Se eu vier para o trabalho pela manhã eu já sei que vou passar o dia inteiro no serviço e acabo chegando em casa sem nenhuma energia. Vejo que a minha dedicação é tanto física quanto mental e intelectual. Eu gasto aqui uma energia muito grande, muito grande mesmo. (ENTREVISTADO 2)

A outra e principal característica do vigor segundo Schaufeli et al. (2002) é referente ao alto nível de energia que os colaboradores experimentam enquanto estão no trabalho. Pelos relatos, é possível identificar claramente que os entrevistados despendem a maior parte da energia diária no trabalho, com indicações de uma utilização bem alta. Em contraponto, as entrevistas mostraram que a grande quantidade de energia gasta durante as atividades do trabalho acaba, na percepção dos entrevistados, prejudicando de alguma forma as atividades fora da instituição.

Não foi possível localizar nos estudos de Schaufeli et al. (2002) alguma menção referente a essa situação de prejuízo em relação a energia gasta fora do trabalho. Os

professores que afirmaram despender muita energia nas atividades laborais sentiam que o elevado gasto de energia no trabalho acabava prejudicando, de alguma forma, a energia que sobrava para as demais atividades cotidianas. Do ponto de vista da teoria de Schaufeli et al. (2002), esses docentes experimentavam a sensação de vigor e poderiam, de acordo com as demais sensações, serem considerados engajados. No entanto, em alguns casos, e de acordo com o próprio ponto de vista do entrevistado, essa dedicação muito grande ao trabalho estava prejudicando a pessoa na sua vida privada. Entende-se que essa questão se mostrou importante e deveria ser analisada com uma maior profundidade nos estudos sobre o engajamento no trabalho. Até que ponto uma maior dedicação ao trabalho traz prejuízos para a vida particular do funcionário?

Inclusive essa questão do equilíbrio entre a atividade profissional e a vida privada, e o impacto que isso gera no engajamento do funcionário, também foi identificada no estudo de Rodriguez (2015), que efetivou uma análise quantitativa e qualitativa a respeito do engajamento de acordo com as teorias de Kahn (1990) e Schaufeli et al. (2002), no qual a autora afirma que os “discursos dos empregados sugerem que a preocupação com a vida pessoal e a qualidade de vida não permitem extrema concentração, fazendo com que os níveis de engajamento sejam satisfatórios e não elevados” (RODRIGUEZ, 2015, p. 124).

A segunda característica indicada por Schaufeli et al. (2002) é a dedicação. Entre os conceitos do que seria a dimensão dedicação, os autores afirmam que ela se caracterizaria pelo envolvimento do colaborador com o trabalho e pelo nível de significância atribuído ao mesmo. Como a significância é uma das três dimensões psicológicas propostas por Kahn (1990) e foi tratada no primeiro tópico das entrevistas, o mesmo tópico também serviu para a análise da característica “dedicação” de Schaufeli et al. (2002). Sobre essa questão, foram extraídos os seguintes trechos das respostas dos entrevistados:

Eu sou professor há quase 20 anos, é algo natural já (a valorização). Eu afirmo que sou professor e gosto disso. Eu gosto de alunos e gosto muito de dar aulas. Aqui na instituição eu me sinto realmente valorizado. As pessoas falam muitas vezes que a sociedade não valoriza o professor, mas eu não sinto isso não. Eu nunca tive problemas, trabalhei em escolas estaduais, escolas de periferia, e sempre me senti valorizado. O salário era muito baixo, trabalhava para o Estado, mas sempre me senti valorizado. Eu me sinto muito valorizado como professor. (ENTREVISTADO 2)

Eu tenho uma sensação no desempenho como professor boa e me sinto valorizado, principalmente por parte dos alunos […]. (ENTREVISTADO 5)

Eu acho que o Instituto, dentro do possível, ele dá condições para que a gente desenvolva bem as nossas atividades. Em relação às outras experiências que eu tive,

que para ter um salário razoável tinha que acumular cargos, aqui é diferente. Aqui eu consigo me dedicar exclusivamente e ter um melhor preparo de aulas […]. Dentre as experiências que eu tive, tanto na iniciativa privada quanto na pública, o Instituto foi o lugar que me ofereceu as melhores condições. (ENTREVISTADO 13)

Em relação a minha atuação como professor eu me sinto bem, me sinto satisfeito. Eu não tenho nenhum problema com a desvalorização. Eu acho que o cargo federal é o ápice para quem mexe com docência. Então é o que eu sempre almejei e me sinto realizado por isso. (ENTREVISTADO 11)

Conforme infere-se das falas, e assim como foi na análise da significância de Kahn (1990), é possível notar que os professores atribuem significado ao seu trabalho, sentem-se valorizados e mostram-se satisfeitos com as funções que desempenham. Além disso, os entrevistados demonstraram sentir orgulho por estar na instituição e por ter alcançado o cargo que atualmente ocupam. Esse sentimento de orgulho também está envolvido no conceito de dedicação de acordo com a teoria de Schaufeli et al. (2002).

A última característica verificada na teoria do engajamento de Schaufeli et al. (2002) foi a absorção. Essa característica tem como indicação principal a ideia de que o indivíduo fica tão concentrado e envolvido no seu trabalho a ponto de perder a noção do tempo.

A verificação da presença ou não dessa característica no desempenho das funções dos entrevistados foi feita nos tópicos 5 e 6. Como no decorrer das entrevistas as percepções dos professores obtidas a partir do tópico 5 foram sendo remetidas de forma espontânea ao que seria indagado no tópico 6, a análise da característica “absorção” será efetivada com a junção das respostas dadas referentes a esses dois tópicos. Sendo assim, as falas extraídas das entrevistas a respeito dessa situação foram as seguintes:

Sala de aula, o momento de sala de aula é o momento em que eu não vejo a hora passar. Tanto é que eu já peço aos alunos para me avisar quando estiver perto de acabar porque muitas vezes a gente avança os intervalos ou avança para algum horário de outro professor. Isso é porque a explicação está tão gostosa, o debate em sala de aula está tão bom que você acaba extrapolando, você não percebe o tempo de fato passar. Eu diria que me sinto extremamente concentrado e que essa é uma situação constante. (ENTREVISTADO 6)

Às vezes essa situação de não ver o tempo passar acontece comigo em sala de aula. Tem determinada aula que ela flui tão bem que a gente nem vê o tempo passar. (ENTREVISTADO 1)

Essa é uma ótima indagação, entendo que essa pergunta deveria ser feita a todos os docentes e não só aos que se afastaram, porque aí a pessoa iria refletir sobre isso. Eu estava pensando sobre essa situação nesta semana ou na semana passada, não me recordo exatamente. Mas é aqui, exatamente neste local (no laboratório), a gente começa a mexer nesses módulos e eu nem vejo o tempo passar. Eu não vejo, não vejo! Eu estou falando sério, sem brincadeira, eu não vejo o tempo passar. Na hora que eu olho, eu falo: já deu o horário de almoço? Aí eu deixo o horário de almoço e passa o tempo, aí eu falo: ah! Daqui a pouco eu vou almoçar. É porque é muito bom!

É muito bom estar aqui e mexer com esses módulos, mexer com a ciência. Você se envolver mesmo. Eu até pergunto para os alunos: vocês estão gostando? Porque se não estiverem gostando não há sentido de nós estarmos aqui. Tem que gostar, tem que ter prazer. Aí, na hora que você falou de um filme, é como se fosse exatamente a mesma sensação. É como se naquele momento em que eu estivesse aqui mexendo no módulo, acompanhando o aluno, é exatamente igual se eu estivesse em casa assistindo a um filme. Mas lógico que isso é para essa situação. Em uma outra situação, como uma reunião, por exemplo, ou dependendo da aula que eu for dar, se for uma disciplina que eu não tenho assim tanto amor, aí já não é tão satisfatório. Aí você literalmente vê o tempo passar. (ENTREVISTADO 9)

Quando eu estou aqui no Instituto parece que o tempo voa [...]. (ENTREVISTADO 2)

As minhas aulas sempre são assim. As minhas aulas são tão dinâmicas que eu acho que o tempo é curto. São os alunos que informam que o tempo acabou. É uma coisa que eu me sinto bem, então sempre quando eu vejo que o tempo acabou, aí já era. O tempo não é notado. (ENTREVISTADO 3)

O que me satisfaz pessoalmente é justamente quando eu estou na sala de aula e sinto um retorno por parte dos alunos. Essa questão de não ver o tempo passar acontece constantemente comigo em sala de aula. Até os próprios alunos falam comigo: nossa, professor, essa sua aula passa rápido demais! Quando estou no laboratório também sinto a mesma coisa, então eu entendo que tenho um retorno muito bom sobre isso. (ENTREVISTADO 5)

Nota-se claramente que a característica absorção está completamente presente na fala dos docentes. Há algumas variáveis, logicamente, vinculadas ao tipo de atuação, se é dentro ou fora da sala de aula, ao conteúdo que será ministrado e, de acordo com alguns relatos, às turmas em que os docentes vão atuar. Mas a percepção geral é de que há uma completa sensação de envolvimento e concentração no trabalho, sendo que esse elevado nível de envolvimento faz com que o tempo despendido nas atividades laborais passe rapidamente.

Assim como na teoria de engajamento no trabalho de Kahn (1990), a análise das três características da teoria de engajamento no trabalho proposta por Schaufeli et al. (2002) confirmam a percepção de que, de uma forma geral, os docentes do IFNMG beneficiados pela ação de afastamento para qualificação encontram-se engajados no seu trabalho.

Os resultados aqui encontrados corroboram com os que foram obtidos por Lozano-Paz e Reyes-Bossio (2017). Os autores em questão efetivaram uma pesquisa qualitativa, também com a utilização da entrevista em profundidade na modalidade semiestruturada, com o propósito de verificar a auto-eficácia geral e o engajamento no trabalho docente de acordo com os conceitos de Schaufeli et al. (2002). Para isso, eles entrevistaram sete professores de psicologia de uma universidade privada e chegaram à conclusão de que os docentes estão envolvidos no seu labor porque mostram “alegria em seu trabalho, bem como dificuldades para se desconectar do que estão fazendo devido às fortes doses de experiência, prazer e

concentração, sendo que essas características mencionadas mostram a presença de engajamento nos professores” (LOZANO-PAZ e REYES-BOSSIO, 2017, p. 144).

Além do estudo sobre a percepção de engajamento no trabalho, também foi proposto nessa pesquisa um estudo referente à percepção dos docentes sobre a motivação no trabalho. Sendo assim, será efetivada nos próximos tópicos a análise dos dados vinculados à pesquisa sobre a percepção dos professores do IFNMG em relação à motivação no trabalho.

4.5 A MOTIVAÇÃO DOS PROFESSORES DO IFNMG SEGUNDO A TEORIA DA