Ao estabelecer, em 1999, o Acordo Macro de Reassentamento com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o Brasil se comprometia a desenvolver um “Programa de Reassentamento”, cujo principal objetivo era o de promover a “integração do refugiado” à sociedade brasileira. Assim é que cidades e instituições deveriam ser escolhidas e contratadas para, respectivamente, receber os reassentados e gerir o programa. Conforme explicita Jubilut (2007), em 2001, o ACNUR estabeleceu acordos com instituições das cidades de Mogi das Cruzes (SP), Natal (RN), Porto Alegre (RS) e Santa Maria Madalena (RJ) para que estas se tornassem “cidades-refúgio”. Em 2007, no entanto, momento da vinda dos refugiados palestinos, as parcerias estavam consolidadas com a Cáritas Brasileira, em São Paulo, com a Associação Antônio Vieira (ASAV), no Rio Grande do Sul, e com o Comitê de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP), no Rio Grande do Norte.
O programa de reassentamento seria desenvolvido no Brasil, conforme mencionei no capítulo anterior, através de um modelo tripartite, no qual o Estado (Conare), a Comunidade Internacional (ACNUR) e a chamada Sociedade Civil (comumente representada pelas entidades confessionais) atuariam de forma conjunta, de modo a possibilitar a integração dos refugiados ao país. Ao longo do trabalho de campo, entretanto, percebi que as funções de cada uma destas partes eram bastante específicas: o Conare seria responsável por conceder a documentação aos refugiados (Registro Nacional de Estrangeiro – RNE, Cadastro de Pessoa Física – CPF e Carteira de Trabalho) e possibilitar-lhes acesso à saúde e educação públicas; o ACNUR, por sua vez, teria a competência de prover e elaborar os parâmetros do programa; já a Organização da Sociedade Civil seria contratada pelo ACNUR para executá-lo, possuindo certa autonomia em como fazê-lo. No Brasil, portanto, o programa de reassentamento seria completamente financiado pelo ACNUR, não havendo um fundo estatal destinado a ele73.
Durante o período de execução do programa, que, em geral, variou entre seis meses a um ano para colombianos e por dois anos para os palestinos, os refugiados contariam, principalmente, com uma bolsa subsistência mensal, com casas alugadas e mobiliadas e aulas de português. No caso de uma família, enquanto o primeiro membro ganharia um valor pré- fixado pelas instituições, decidido entre o ACNUR e as entidades executoras, os demais
73No caso dos programas direcionados aos solicitantes de refúgio, tem havido, dado o menor valor financeiro
investido pelo ACNUR, o início de certo investimento financeiro por parte do Estado brasileiro. Em 2010, segundo o representante do Conare, o Brasil havia repassado cerca de um milhão e duzentos mil reais às entidades parceiras da Sociedade Civil. Tal valor, segundo ele, seria um pouco menor daquele repassado pelas Nações Unidas a este grupo de refugiados. Em 2009, o país destinou cerca de seiscentos e sessenta mil reais.
membros receberiam uma porcentagem do mesmo: assim, no caso dos palestinos, enquanto o primeiro membro ganharia em torno de R$ 350,00, o segundo receberia 75% deste valor; o terceiro, 50%; e a partir da quarta pessoa, 25%. Ademais, os palestinos também receberiam valores referentes a transporte e remédios (quando necessário). No caso da ASAV, também fui informada de que pagavam uma porcentagem dos gastos de eletricidade e água dos refugiados.
3.2 O programa de reassentamento da Cáritas: a experiência com os colombianos
Entre maio e junho de 2007, com a decisão favorável à vinda dos refugiados palestinos pelo governo brasileiro, o ACNUR buscou estabelecer contatos com as entidades da Sociedade Civil tidas como parceiras para a execução do programa de reassentamento. Dentre as três opções existentes naquele momento, a Cáritas Brasileira e a Associação Antônio Vieira, duas das instituições que trabalhavam com o reassentamento de colombianos desde 2003/4, ao serem consideradas melhor preparadas para a recepção de refugiados, foram consultadas sobre a possibilidade de trabalhar com os palestinos, tendo aceitado a proposta74.
Foi através de minha conversa com a ex-agente de integração da Cáritas – Janaína – que passei a compreender aspectos do funcionamento do programa de reassentamento, assim como os preparativos envolvidos para a chegada dos palestinos. A jovem cientista social foi contratada, em 2004, pela Cáritas. Conforme contou, ela havia acabado de terminar seu curso de mestrado em ciências sociais quando foi chamada para participar de uma oficina de treinamento e de seleção destinada aos candidatos às vagas de “agente de integração” do programa de reassentamento que seria executado pela Cáritas. Os selecionados iniciariam seu trabalho com os colombianos, tendo em vista o Plano de Ação do México firmado pelo país naquele ano. Após três dias de curso, cujo conteúdo, ministrado em parceria com o ACNUR, versou sobre temas como refúgio, reassentamento, Plano de Ação do México, situação da
74 Em São Paulo, embora a “Cáritas Arquidiocesana” fosse a entidade que tradicionalmente trabalhasse com os
“solicitantes de refúgio”, os “refugiados reassentados” ficaram a cargo da “Cáritas Brasileira”. Isso porque os programas e os recursos destinados a estes refugiados, classificados como diferenciados um do outro, eram bastante distintos, podendo gerar, segundo o coordenador do programa de reassentamento da “Cáritas Brasileira”, comparações e ressentimentos por parte dos “solicitantes de refúgio”. Enquanto os reassentados são recebidos no país a partir de um programa pré-definido que lhes garante subsídios mensais e o pagamento de aluguel, os solicitantes de refúgio não contam com um programa estruturado de recepção ou integração no país. Apenas os “solicitantes de refúgio” que comprovam não ter qualquer recurso para o auto-sustento podem solicitar vagas em alojamentos das entidades confessionais, nos quais apenas podem passar a noite, e uma ajuda mensal, destinado a um pequeno número de pessoas, no valor de R$ 300,00, durante o período máximo de seis meses. Ademais, poderiam tentar se inserir em cursos de português ou profissionalizante, conseguidos a partir de parcerias entre as entidades confessionais e instituições como SESC e SENAC.
Colômbia e o perfil das famílias que seriam reassentadas, Janaína foi convidada para atuar como coordenadora técnica do programa em São Paulo. Além dela, foram contratadas uma assistente social e uma psicóloga para trabalharem, respectivamente, como “agentes de integração” em Campinas e em São José dos Campos. Todas estariam subordinadas a Antônio, o responsável da Cáritas pelo programa.
Entre os anos de 2004 e 2007, os refugiados colombianos aceitos pelo programa foram reassentados em diversas cidades do estado de São Paulo. Segundo Janaína, as cidades de Campinas, Mogi das Cruzes e São José dos Campos funcionaram como núcleos, a partir dos quais as agentes de integração aí lotadas estenderiam sua assistência às demais cidades próximas. Assim é que a agente de integração responsável por Campinas, por exemplo, também atenderia aqueles reassentados em Sumaré, Itatiba e Jundiaí; a responsável por São José dos Campos, por sua vez, atenderia Taubaté e Tremembé; e o núcleo de Mogi das Cruzes se estenderia a Santa Izabel e Guararema. As cidades, de acordo com ela, seriam escolhidas tanto a partir do perfil profissional dos solicitantes, quanto da existência de parcerias com as igrejas, pastorais e Cáritas locais, além de empresas e prefeituras.
Vale notar que, entre os colombianos, os refugiados reassentados não possuíam necessariamente uma relação de proximidade na Colômbia, não tendo morado em campos de refugiados ou numa mesma localidade antes de ingressarem no país. Como indiquei no capítulo anterior, para serem reassentados, os colombianos passam por um processo seletivo, no qual uma equipe local, formada por membros do Conare e das entidades confessionais, fazem entrevistas com os candidatos ao reassentamento sugeridos pelo ACNUR. Uma vez selecionados, eles (famílias ou indivíduos) chegam em distintos momentos à São Paulo, não tendo necessariamente conhecimento de todos os escolhidos. Ao chegarem, a proposta da Cáritas é tanto o de mantê-los afastados entre si, quanto o de não comunicá-los sobre a presença de outros colombianos no Estado. A principal razão disso, segundo Janaína, era a garantia da segurança dos colombianos, haja vista o desconhecimento das posições ocupadas pelos refugiados em seu Estado de origem, seja como membro das FARCs, do governo, ou do exército, seja como lideranças comunitárias ou professor universitário, de modo que o risco de perseguição não se estendesse ao país de reassentamento. O atendimento aos refugiados, assim, se daria através de visitas das agentes de integração às cidades onde estavam, ocorrendo de modo pontual e individualizado.
Segundo Janaína, no ano da chegada dos palestinos, havia 154 refugiados - colombianos e equatorianos - reassentados em São Paulo. Sua experiência com esse grupo
serviria de parâmetro para a organização do reassentamento dos palestinos, sendo também uma das principais referências para o estabelecimento de comparações sobre sua integração.
3.3 Os preparativos para a chegada dos palestinos
A definição de como se daria a divisão dos palestinos de Ruwesheid entre São Paulo e Rio Grande do Sul, assim como a escolha das cidades nas quais seriam reassentados, foram decididas conjuntamente pelo ACNUR e pelas entidades confessionais parceiras. Para tanto, eles se pautaram, segundo Janaína, nas orientações e relatórios sobre o perfil de cada refugiado trazido, em junho de 2007, por Fátima, uma brasileira de origem libanesa que trabalhou por dois anos como oficial de proteção do ACNUR na Jordânia. Neste país, ela era uma das principais responsáveis pelo campo Ruwesheid, tendo como função coordená-lo, além de buscar soluções alternativas para o problema dos palestinos. Após a decisão brasileira de reassentá-los, Fátima, por sua nacionalidade brasileira e experiência com os refugiados aceitos, tornou-se tanto uma porta-voz do campo Ruwesheid no Brasil, de modo que as informações sobre os refugiados palestinos foram apreendidas pelo ACNUR e entidades confessionais locais apenas pelas informações por ela trazidas; quanto uma porta-voz, em Ruwesheid, das condições que o Brasil ofereceria aos palestinos. Ressalto como sua nacionalidade brasileira, neste caso, a alçou à condição de mediadora deste processo de reassentamento. Para muitos dos refugiados com quem conversei ao longo da pesquisa, ela, por ser brasileira, teria sido a responsável pela articulação política com o Brasil para que pudessem ser reassentados. Além disso, como discutirei mais adiante, eles afirmariam que, ao falar sobre o Brasil e o programa de reassentamento, Fátima teria feito um conjunto de “promessas” sobre os benefícios que aqui receberiam, gerando-lhes uma série de expectativas. Por ora, ressalto que o reassentamento dos palestinos foi estruturado a partir das informações transmitidas por Fátima, não tendo havido o envio de uma comissão local a Ruwesheid para um levantamento do perfil e das condições dos palestinos. Ao chegar ao Brasil, em junho, a oficial de proteção do ACNUR-Jordânia se reuniu com membros do ACNUR local, da Cáritas e da ASAV para lhes apresentar o perfil dos refugiados e lhes auxiliar no processo de escolha das cidades de reassentamento.
Segundo Janaína, Fátima teria acompanhado os representantes do ACNUR e da Cáritas para a seleção das cidades em São Paulo. A ideia era a de buscar locais onde houvesse uma comunidade árabe e/ou muçulmana que pudesse auxiliá-los no “processo de integração”. Assim é que, inicialmente, eles teriam agendado reuniões com representantes das mesquitas
de Campinas, São Bernardo dos Campos e Mogi das Cruzes, tendo, não obstante, ouvido, nas duas primeiras, restrições ao reassentamento proposto. O mesmo teria ocorrido, conforme me contou Janaína, em Foz do Iguaçu, cidade na qual Fátima teria ido acompanhada de uma representante da ASAV e do ACNUR. Quando perguntei à Janaína que tipo de restrições foram colocadas por eles, contou-me que sugeriram tanto que “o que tinham para oferecer era pouco”, que “a estrutura era pequena”, “que não podiam garantir nada, mas que também não excluiriam ninguém”, “deixa esses bandidos lá, não se meta com eles”, quanto afirmações, no caso de Foz do Iguaçu, de que eles “não queriam refugiados naquela cidade”. Segundo seus depoimentos, portanto, houve dificuldades de encontrar lideranças locais – árabes e/ou muçulmanas - que se dispusessem a auxiliar no projeto de reassentamento dos palestinos.
No caso de Campinas, no entanto, local onde pude entrevistar Gamal, um dos representantes do Instituto Jerusalém, organização laica e de promoção da cultura árabe que fora consultada pela Cáritas, seu depoimento apontava que, em alguns casos, era o auxílio que eles se dispunham a oferecer que não atendia às expectativas da entidade confessional. Gamal contou-me que seu Instituto fora consultado entre junho e julho de 2007 sobre o reassentamento. Naquela ocasião, ele teria chamado a atenção dos funcionários da Cáritas para toda a dimensão política que envolvia a questão dos palestinos, ressaltando aspectos como a “limpeza étnica” engendrada por Israel, a busca pela dispersão proposital dos palestinos e a luta política pela criação de um Estado autônomo. A resposta do coordenador da Cáritas, segundo rassaltou Gamal, foi a de que seu foco não estava na “questão política”, uma vez que sua atuação frente aos refugiados era “humanitária”, de forma que não era importante diferenciar colombianos e palestinos. Diante desta resposta, Gamal teria tanto enumerado as diferenças entre estes refugiados, quanto proposto ministrar um curso de formação aos funcionários da Cáritas, tendo estes aceitado a sua proposta. Assim, Janaína, a agente de integração que coordenaria o programa em Mogi das Cruzes, Antônio, o coordenador geral do programa, assim como as “agentes de integração” de Campinas e São José dos Campos, participaram do curso ministrado durante dois dias por Gamal, cujo objetivo foi apontar a especificidade histórico-política do refugiado palestino.
Ao inserir a discussão dos refugiados palestinos numa dimensão política, Gamal afirmava não ser contrário à vinda dos mesmos, desde que esta ocorresse com “dignidade”. Ao receber da Cáritas os relatórios com o perfil de todos os refugiados de Ruwesheid, ele teria sugerido um programa de recepção e integração deles ao Brasil, com a presença de médicos, psicólogos, sociólogos e professores que falassem a língua árabe, os quais poderia contatar a partir de sua rede de relações. Ressalto que a proposta de Gamal não era a de que sua
instituição trabalhasse voluntariamente no processo de reassentamento, mas que recebesse pelos serviços prestados à Cáritas. Após o curso, no entanto, ele não teria sido procurado por Antônio, sendo informado, tempos depois, que a ideia de reassentar dez famílias em Campinas retrocedeu e que todos os refugiados foram reassentados em Mogi das Cruzes. Após esses contatos, Gamal não se prontificou a trabalhar voluntariamente no projeto de reassentamento proposto pela Cáritas.
Assim, se os representantes de algumas mesquitas, como apontou Janaína, apresentaram algumas restrições à recepção dos refugiados, o depoimento de Gamal também sugere que o apoio esperado pela Cáritas das “instituições” e “representantes” árabes era tanto o de que estes contribuíssem “voluntariamente”, quanto o de que atuassem apenas “humanitariamente”, o que implicava no afastamento de qualquer dimensão política que pudesse estar aí envolvida. O receio de que os refugiados palestinos fossem tratados como uma questão política também teria levado alguns membros da Cáritas, conforme veremos mais detidamente no capítulo 5, a evitar que membros de organizações palestinas locais se aproximassem dos refugiados.
Após as visitas às cidades, Janaína contou-me que a Cáritas teria optado por alocá-los conjuntamente em Mogi das Cruzes. Isso porque nesta teria “havido uma abertura da mesquita, de forma geral, por toda a comunidade muçulmana que não apresentou empecilhos, a princípio, e [devido] à proximidade de São Paulo, com a ligação com o trem, além da questão do orçamento”. A presença, em Mogi das Cruzes, de uma mesquita e de uma expressiva comunidade muçulmana, composta principalmente por pessoas de origem libanesa, além da disposição de determinados representantes desta instituição em contribuir “voluntariamente” com o reassentamento, sem enquadrá-lo numa “dimensão política”, teriam favorecido sua escolha. Assim, se a presença de uma “comunidade” árabe e/ou islâmica na cidade se apresentava como um dos principais critérios para sua seleção, a expectativa de membros da Cáritas era a de que esta tivesse uma atuação “humanitária” frente aos refugiados, auxiliando-os, principalmente, quando seus funcionários não estivessem disponíveis, pois, segundo Janaína, era impossível o estar 24h por dia.
O reassentamento dos refugiados em uma única cidade era uma experiência nova para a Cáritas, uma vez que o usual era a separação deles entre várias cidades do Estado de São Paulo. Segundo Janaína, deixá-los conjuntamente na mesma cidade lhe despertava certo receio e desagrado. Se a dispersão dos colombianos era justificada pela necessidade de protegê-los, a ideia de que os palestinos também deveriam ser espalhados apontava outras dimensões de tal distribuição pouco evidenciadas no primeiro caso.
Sônia - Porque você acha que o ideal seria colocá-los em cidades separadas, como
os colombianos?
Janaína - É porque se pode tratá-los com mais individualidade. Com um menor
grupo você consegue parcerias locais diferentes. De repente você tem até famílias que ajudam nessa integração porque a equipe não está disposta 24 horas por dia. Não tem como ter alguém disponível 24 horas por dia e daí com as relações de amizade isso é facilitado. Que nada melhor que ter alguém da cidade mesmo, que compartilha as mesmas dificuldades, que está ali.
Sônia - E a seleção das casas se deu de acordo com o perfil das famílias?
Janaína - Isso, com quem era próximo de quem. A gente recebeu pela [Fátima]
quem eram as famílias que tinham que ficar próximas, quem não podia estar em outra cidade porque tinha um vínculo de parentesco. Então como a gente optou por uma cidade só não tinha muito esse problema. É mais a questão da proximidade dos bairros porque é impossível... E também não é legal fazer essa coisa de ter um Chinatown, por exemplo. Sou super contra essa coisa de guetos. Então quanto mais você tem acessos, mais você constrói as relações no seu dia-a-dia, não só com aqueles que você considera iguais. Então essa coisa de você ter menos pessoas em cada bairro, ter em bairros diferentes, pra que tenha também uma integração das próprias famílias, pra que eles possam ter outros amigos além daqueles que já conviviam anteriormente, para que possam aprender o português. Então tinha toda essa preocupação na escolha. Ver os perfis, os tamanhos das casas e a disponibilidade do mercado, principalmente. Porque não é essa coisa de “ah, vamos alugar um prédio inteiro.” Deus me livre, não é essa a saída, apesar de ter sido o sonho de vários. Concordo, existia já toda uma convivência e tal, mas aqui é outra realidade. Tem que ter esse espírito de uma vida nova. Pode ser um grupo sim, mas que sejam respeitados enquanto indivíduos.
Para Janaína, o reassentamento deveria ser encarado como o início de uma “nova vida”, na qual os refugiados deveriam conviver com novas pessoas, fazer novos amigos e aprender uma nova língua. Para isso, sua dispersão em várias cidades se apresentaria como um meio eficaz para o alcance de tais objetivos, seja pela possibilidade da Cáritas estabelecer parcerias variadas com os dirigentes dos municípios e com famílias voluntárias locais, sem que isto se apresentasse como um peso para a cidade e para a própria instituição, seja para a promoção de um atendimento individualizado, o que para ela seria realizado a partir do distanciamento do grupo do qual fazia parte. Nesta perspectiva, a concentração dos refugiados, retratada a partir da ideia de “guetos”, não funcionaria como modo eficiente para a “integração” desejada. Para Janaína, assim como para Antônio, o representante da Cáritas, um dos pressupostos de suas ações era a de que seria desejável separar para integrar.
Tal pressuposto também foi acionado pela ASAV, a instituição confessional responsável pelos refugiados no Estado do Rio Grande do Sul. Neste Estado, os palestinos foram reassentados em cinco diferentes cidades – Venâncio Aires, Rio Grande, Pelotas, Sapucaia do Sul e Santa Maria –, cuja escolha foi pautada nas indicações de representantes de organizações palestinas locais (Sociedade Árabe Palestina e Federação Árabe Palestina), haja
vista a presença nelas de uma expressiva comunidade palestina e de membros desta que poderiam atuar como “agentes de integração” locais75. Conforme apontou Melissa,