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Em linhas gerais, pode-se afirmar que a atitude mais comum assumida pelos países árabes vizinhos em relação aos refugiados palestinos, com exceção da Jordânia, foi a de tentar preservar a “identidade palestina” através da manutenção de seu status como refugiado. O que se nota é que, por um lado, havia certo consenso de que a “integração” ou o “reassentamento” de palestinos em seus territórios poderiam minar a demanda pelo “retorno dos refugiados” ou isentar o Estado de Israel da responsabilidade de resolver este problema. Por outro, os países árabes não queriam responsabilizar-se pela manutenção dessa população, o que supostamente ocorreria com a concessão de cidadania (Shiblak, 1996).

Com efeito, para os países árabes que receberam a maioria dos palestinos, a responsabilidade pelo “problema dos refugiados” era de Israel, uma vez que ele teria expulsado os palestinos e impedido o seu retorno, e também da ONU e dos países que votaram a favor da partilha da Palestina, dado que legitimaram as demandas sionistas pela criação de um Estado judeu na Palestina histórica. Partindo disso, os países árabes recusaram- se por muitos anos a contribuir para o orçamento da UNRWA (Akram, 2002) e também se mostraram críticos aos “programas de trabalho” que visassem à integração dos refugiados ou à redução do número de pessoas que pudessem gozar da assistência (Peteet, 2005).

No final da década de 1960, a OLP, grupo que lutava pelo direito de se tornar o único representante dos palestinos a partir dos princípios da autodeterminação e independência, juntamente com a Liga Árabe, enquadraram o problema dos refugiados como coletivo. Com

isso, tal organização posicionava-se como absolutamente contrária a qualquer forma de solução individual do problema e conclamava sua população a não requerer refúgio nos países ocidentais. Ela insistia, ainda, para que o ACNUR não se envolvesse no reassentamento dos palestinos fora dos países árabes (Akram, 2002:42-43). Esta demanda por uma solução coletiva constituía, segundo Feldman (2008:502), uma demanda por uma solução política e não técnica do problema dos refugiados. Tal visão de que a solução individual e a coletiva eram contraditórias enredavam os palestinos numa tensão: serem reconhecidos como refugiados, merecendo, portanto, a assistência e a proteção internacional advindas deste status; ou como nacionais palestinos, com necessidades e direitos distintos.

No que toca à relação dos países árabes com os palestinos, Akram (2002:44) explicita que, historicamente, o tratamento dispensado aos refugiados tem sido absolutamente instável, sofrendo variações conforme o período, as políticas administrativas locais e o andamento das relações políticas com a OLP ou, mais recentemente, com a Autoridade Nacional Palestina (ANP). Isso porque os direitos ou o status dos refugiados na maioria desses países não seriam formalizados legalmente, estando sujeitos às considerações políticas e de segurança de seus governos. Além disso, os benefícios recebidos, longe de estarem inseridos no rol dos direitos, seriam vistos como privilégios, sendo passíveis de revogação a qualquer momento e por motivos diversos30.

A instabilidade da condição dos palestinos nos territórios árabes pode ser visualizada a partir de uma multiplicidade de situações. A Jordânia, por exemplo, foi o único país que, após o Acordo de Armistício de 1949, concedeu cidadania a todos os palestinos que se encontravam tanto em seu país, como na Cisjordânia. Lembrando que, a partir desse Acordo, houve a união das duas margens do Rio Jordão, com a anexação da Cisjordânia à Jordânia. Em 1988, porém, após a Primeira Intifada, e diante da proclamação do Estado palestino como independente, a Jordânia anunciou a separação administrativa e legal da Cisjordânia, privando ¾ de um milhão de palestinos deste território de sua cidadania (Davis, 1996). Com esta ação, segundo Brand (1995:54), o rei da Jordânia abria mão de sua histórica reivindicação de lealdade dos palestinos deste território – questão que ensejava disputa com a OLP, desde 1964 –, abrindo caminho para o estabelecimento de uma entidade política palestina.

Tal atitude transformou, do dia para a noite, cidadãos da Cisjordânia em sem-estado, na medida em que a Palestina estava longe de possuir independência e soberania. Para Davis (1996:49), “with the Royal Decree of dismantling the links, the Hashemite Kingdom of

30 Para mais informações sobre o status legal, os direitos civis e de residência dos refugiados em alguns países

Jordan ceded sovereignty to a fiction, a non-existent State of Palestine, and thereby stripped the jordanian citizenship of all palestinian whose registered ordinary residence is the occupied West Bank and Gaza, making them stateless”. Após essa medida, os passaportes dos residentes palestinos da Cisjordânia tornaram-se temporários, passando a ser considerados apenas “documentos de viagem” com validade de dois anos. Esta medida foi acompanhada, ainda, da perda de direitos civis, políticos, sociais e econômicos destes palestinos no território da Jordânia (Davis, 1996; Shiblak, 1996).

O Líbano, por sua vez, além de não ter concedido cidadania aos refugiados palestinos, lhes aplicou a mais dura política de restrições de direitos. Desprovido de uma lei de refúgio ou asilo que pudesse regular o status dos palestinos, o Líbano os definiu como “estrangeiros sem- estado”, privando-os dos benefícios concedidos a um cidadão: trabalho, sistema de saúde, educação superior, voto etc. É preciso reconhecer ainda que a posição dos palestinos neste Estado sofreu profundas variações ao longo dos anos, haja vista a política de não assentá-los no país, as tensas relações com a OLP e as divergências sectárias dos partidos do Líbano.

Ao atribuírem aos refugiados palestinos parte da responsabilidade pela péssima condição em que o país se encontrava diante da Guerra Civil, o Líbano estabeleceu que o assentamento permanente de palestinos era inconstitucional. Este tema passou a figurar como ponto de disputa entre muçulmanos e cristãos maronitas, dado que estes últimos temiam que o assentamento de palestinos, em sua grande maioria muçulmanos, pudesse transformar o equilíbrio demográfico e o poder político do país. Ademais, após a guerra, os campos de refugiados palestinos passaram a constituir espaços de extrema pobreza e de confinamento, com a introdução de cercas, check-points armados e outros mecanismos de segurança. A melhora das condições do campo era rechaçada pelas lideranças libanesas, dado que era visto como uma forma de facilitar a integração permanente dos palestinos, integração esta desaprovada por muitos refugiados. Assim, conforme sugere Knudsen (2009:59), “the rejection of permanent settlement was legitimized as a service to Palestinian nationalism and preserving the refugee right of return”.

Fora dos países árabes registrados pela UNRWA, a condição dos palestinos também é instável, na medida em que a maioria deles os define como simples “migrantes trabalhadores”. Nesse sentido, eles podem ser mandados para o país de primeiro refúgio a qualquer momento, independentemente de seu status no mesmo. Em 1995, a Líbia, visando demonstrar desaprovação em relação ao Acordo de Oslo assinado por Yasser Arafat, expulsou centenas de palestinos de seu território. No mesmo período, o Líbano modificou as regras locais para a obtenção de visto, impedindo os palestinos da Líbia que possuíam o visto de seu

país de retornarem (Knudsen, 2009:59). Com isso, muitos palestinos permaneceram em tendas na fronteira do Egito e da Líbia ou em barcos ancorados em Chipre. Com o tempo, alguns tiveram permissão para retornar à Líbia e outros encontraram refúgio na Síria.

Da mesma forma, em 1991, milhares de palestinos foram expulsos do Kuwait, devido ao apoio dado pela OLP à invasão deste país pelo Iraque. Se, antes de 1990, estimava-se a presença de 400 mil palestinos no Kuwait, cinco anos depois eles contabilizavam apenas 26 mil31. Segundo El-Najjar (2001), uma campanha de terror (explosões, perseguições, ameaças, prisões, assassinatos etc.) foi utilizada para forçar a saída dos palestinos do Kuwait.

Tais situações demonstram que o problema dos refugiados palestinos também vem sendo constituído pelos países árabes, seja através de políticas de manutenção do status de refugiado, seja pela aplicação de profundas restrições de direitos em relação aos nacionais ou de instabilidade de residência local. Se, após a criação do Estado de Israel, muitos intelectuais e políticos, principalmente israelenses, defendiam que a questão dos refugiados palestinos seria gradualmente eliminada, tanto sob o argumento de que eles seriam assimilados pelos países árabes, dada a semelhança linguística, cultural e religiosa, quanto pela ideia de que eles contariam com o auxílio financeiro da UNRWA para se integrarem ao primeiro Estado de asilo, após mais de cinquenta anos, o processo de construção de uma identidade palestina teria se fortalecido. Conforme Shiblak (1996), tal fortalecimento seria tanto decorrente da organização de movimentos nacionais palestinos, quanto da manutenção do “status de refugiado” pelos países árabes e o consequente tratamento excludente no âmbito dos direitos a que foram submetidos.

A explicação de como os refugiados palestinos foram conformados por múltiplas esferas políticas e sociais ao longo da história é essencial para compreendermos o caso dos palestinos que viviam no Iraque. Seguindo a orientação dos demais países árabes, o Iraque não concedeu cidadania aos evadidos da Palestina ou aos seus descendentes nascidos no país. Os acontecimentos de 2003 e a vida nos campos de refugiados nas fronteiras do Iraque serviram para atualizar as profundas questões políticas e a condição de instabilidade que tem constituído o status de refugiado palestino.

31 Em relação aos que foram expulsos do território, 300 mil foram à Jordânia, quatro mil aos Emirados Árabes e

outros países do Golfo; 21 mil emigraram para o Canadá, Austrália e outros países desenvolvidos; 2.200 ingressaram nos EUA; e o restante conseguiu retornar aos territórios ocupados da Palestina.