2.3 Sentimentos: mobilizando emoções a importância do vídeo “Nenhum lugar para
2.3.4 Problematizando o procedimento de acolhida dos refugiados
Na reunião do Conare que culminou na decisão de recepção dos refugiados palestinos, portanto, os participantes não dispunham de informações precisas sobre os sujeitos que seriam reassentados. Ao contrário da forma habitual como era feito o reassentamento, a decisão sobre a vinda dos palestinos foi tomada sem um processo seletivo. Quando, numa entrevista, perguntei a Melissa, representante da ASAV, como era o processo costumeiro do reassentamento e para que servia a seleção, ela explicou que o objetivo desta não era o de definir quem é mais ou menos refugiado, mas avaliar as possibilidades da sua integração ao país.
Normalmente se faz uma missão de entrevista. A gente vai lá, e eu já participei de missão de entrevistas no Equador, Costa Rica, Panamá, no caso dos colombianos, e entrevistamos os casos que estão sendo apresentados para o Brasil. Esse é o procedimento: a gente vai lá, primeiro no país de asilo, e entrevista, traz para o Brasil (traz os relatórios sobre os refugiados para a reunião do Conare), apresenta, e aí é aceito ou não. E qual é o critério do aceite? O aceite não é escolher refugiado,
ou se ele é mais ou menos refugiado, mas sim para onde e como eles podem se integrar no Brasil, em qual região do Brasil. Então se a família tem três ou quatro idosos, com problemas crônicos de saúde, muitas vezes não é recomendado vir para
o Brasil. Porque no Brasil a gente tem até um sistema de saúde bom, uma saúde bem boa, mas há limites, né? Tem que reconhecer isso, que não tem como ficar bancando para sempre uma pessoa muito doente. Aí casos de saúde crônica vão para Suécia, Canadá... Que tem lá um sistema de atendimento exemplar. E o governo aceita isso, banca tudo. Não é nem o ACNUR, é o governo que banca tudo. E para nós aqui são pessoas de perfil rural urbano porque a gente coloca em cidades pequenas. Com perfil universitário também porque a gente encaminha para universidades para seguir os estudos. Com crianças também porque temos creches municipais, muito boas. O que é diferente também do perfil de quem vai para o Rio Grande do Norte. A maioria das pessoas com crianças vão para São Paulo ou para cá, para o Rio Grande do Sul, porque no Rio Grande do Norte o sistema de ensino já é mais precário. A saúde também. Então, tem que ser jovens lá. Que vão trabalhar com o ramo turístico, com hotelaria, que tem muito campo de trabalho lá. Então mais ou menos é o perfil, assim. Ou então: ‘Ah tenho bronquite asmática, não posso no frio!’ Então tá, então vai para Natal. E aí a gente respeita um pouco essas afinidades, assim. Ou com frio, ou com calor, ou que gosta de trabalhar com pesca, e aí vai para a área litorânea... E no caso palestino, isso não aconteceu. Trouxe como estavam. Aquele grupo de 106 que estavam no campo vieram como estavam. Não teve entrevista, não teve nada.
Conforme explicita Melissa, o processo de reassentamento se inicia com a entrevista, no país de asilo, dos candidatos que foram indicados pelo ACNUR. Após essa etapa, os relatórios referentes às entrevistas são encaminhados à reunião do Conare para avaliação e decisão. Esta, em geral, seria tanto tomada tendo como base a possibilidade de integração do refugiado ao país, quanto considerando o Estado que lhe ofereceria as melhores condições de adaptação, conforme seu perfil. Assim é que idosos com problemas crônicos de saúde dificilmente seriam selecionados, na medida em que o sistema de saúde público não teria as condições necessárias para dar a assistência devida em um período prolongado. Ainda sobre esse assunto, o Dr. Roberto, representante do Conare em 2010, faria o seguinte comentário:
Sônia – E entre os refugiados colombianos e angolanos, qual a porcentagem de
idosos? São comparáveis aos palestinos?
Roberto - Não. O grupo de maior quantidade de idosos foi realmente de palestinos.
Via de regra, entre os colombianos, os idosos vem por reunião familiar: quando aqueles que aqui estão querem trazer o seu pai, a sua mãe. Que é o contrário dos palestinos. Por quê? Porque entre os colombianos há processo de seleção. Então funciona mais ou menos como entre os europeus. Então a gente não vai trazer um
senhor de 75 anos sem capacidade nenhuma de inserção laboral e tudo isso. Dentro daquilo que a gente conhece. O estado vai ter que bancar, mas nós não estamos preparados, nós não podemos oferecer facilidades a ele porque é inconstitucional.
A seleção de refugiados para o reassentamento, portanto, visa à vinda ao Brasil de sujeitos integráveis, o que implica na escolha de um perfil específico, em que um dos critérios seria sua capacidade de inserção laboral e sua não dependência do Estado brasileiro. Se a decisão pela vinda dos palestinos iria de encontro a esta prática, dada a aceitação de todos sem qualquer restrição, o fato desta também não vir acompanhada de um conjunto de políticas direcionadas às especificidades dos diversos perfis de refugiados palestinos seria um dos
fatores a levar estes a questionar a “decisão humanitária” do Brasil de tê-los trazidos. Com isso, a própria ideia de “salvação” empreendida pelos atores mencionados e os pressupostos que a acompanham seriam por eles questionados.
***
Este capítulo objetivou desnaturalizar o discurso humanitário brasileiro, cujas principais ideias são as de que o país sempre demonstrou uma receptividade em relação aos imigrantes e refugiados, além de boa convivência e respeito à diversidade. Ao estabelecer uma contextualização histórica, apontei tanto que a postura do Brasil foi sempre seletiva e restritiva, quanto que esta foi moldada por deslocamentos nas concepções de “identidade nacional”, “integração” e “diversidade cultural”. Mesmo no contexto presente, discuti como, a despeito da “avançada” lei de refúgio e dos acordos assinados para o reassentamento de refugiados, o pequeno número de pessoas com este status no Brasil nos conduz tanto a refletir sobre a postura ambígua que o país assume em relação ao estrangeiro, ora como questão de segurança pública, ora como direitos humanos, quanto como o reassentamento é feito tendo em vista cálculos variados – humanitários, políticos etc.
Sobre este último ponto, discuti como a decisão de reassentar palestinos ganha ressonância interna e internacional em um momento em que o país busca projetar-se como liderança política e humanitária regional e global. Sobre isso, chamei a atenção para as relações econômicas e políticas que o país tem buscado travar com os países árabes, incluindo a Palestina e os palestinos, e como estas têm contribuído para o próprio reposicionamento da etnicidade árabe na esfera pública local.
Considerando o lugar que o campo da “ajuda humanitária” vem ganhando na política externa brasileira, apontei como a concessão de refúgio, quando vista a partir da ideia da “dádiva”, cria tanto vínculos entre o Brasil e a “comunidade internacional” a que está ligado, quanto com os próprios refugiados. Por um lado, elas permitem a construção de status políticos e afirmações de identidades nacionais em contextos internacionais em que o que está em jogo são processos de construção de hegemonia. Por outro, ela gera a expectativa de que os refugiados retribuam à dádiva-refúgio a eles concedida. A retribuição esperada, neste caso, se pauta na imagem construída a seu respeito como completa vítima, de modo que qualquer coisa recebida seria melhor do que aquilo que possuíam.
Nos dois capítulos que seguem, aponto como o programa de reassentamento dos palestinos foi estruturado, as insatisfações dos refugiados dele decorrentes, assim como as avaliações dos “agentes de integração” sobre seus comportamentos. Num primeiro momento,
discutirei como a “diferença cultural” é apontada por estes últimos como o principal problema a impedir a “integração” do refugiado, o que coloca em perspectiva o próprio discurso nacionalista em que a diversidade é apontada como um valor. Num segundo momento, aponto como a expectativa é de que os refugiados tanto tenham uma atitude resignada de gratidão, quanto sejam autossuficientes, dependendo pouco dos serviços do Estado.
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Pressupostos da “integração”:
“Separar para integrar” e a “diferença cultural” como “problema”
Porque a cultura [dos palestinos reassentados], ela é muito diferente. Então, é difícil você conviver (...). E eu acredito também que a própria equipe, por mais que a gente teve uma capacitação para trabalhar com esse público alvo, a gente não espera isso. A gente espera um usuário como o brasileiro, por nós sermos brasileiros. Então isso é comum da equipe. E isso foi o que menos aconteceu. (Shirley, Assistente Social da Cáritas, dez/2009).
Ao longo de todo o trabalho de campo, em Brasília e em Mogi das Cruzes, minhas principais conversas com os refugiados diziam respeito às características, ao funcionamento e, sobretudo, às insatisfações que eles diziam ter em relação ao programa de reassentamento proposto pela Cáritas. Em Brasília, era quase impossível que estes temas não fossem uma constante em nossas conversas, dado que a vinda deles à capital e, principalmente, sua recusa em retornar aos Estados em que foram reassentados, estavam relacionadas justamente às suas críticas em relação ao programa. Quando fui à Mogi das Cruzes, em dezembro de 2009, da mesma forma, constatei que havia um repertório comum de insatisfações, seja no que toca a sua divisão espacial em Mogi das Cruzes, à distribuição das casas e dos recursos, ao tratamento de saúde ou às aulas de português.
Embora o programa, quando cheguei à Mogi das Cruzes,estivesse terminando, o que me impossibilitou acompanhar in loco o atendimento feito pelos funcionários da Cáritas aos refugiados, um de meus objetivos foi o de entender como, ao longo dos dois anos, havia sido estruturado o programa de reassentamento; quais os pressupostos que regiam sua ideia de “integração”; como se deram as relações entre os “agentes de integração” e os refugiados; assim como as diversas respostas dadas por estes à proposta do programa colocada em prática.
Para tanto, além de conversar com os refugiados, queria também entrevistar os funcionários da Cáritas. Em pouco tempo, no entanto, percebi que tal empreendimento não seria fácil. O escritório da Cáritas, em Mogi das Cruzes, já havia sido fechado e o coordenador do programa, com quem havia conversado em meu pré-campo em 2008, não respondia mais aos meus e-mails. Mais tarde, viria a saber que ele havia se retirado (ou sido retirado) do programa. Além disso, nas conversas com os refugiados, descobriria que, ao longo dos dois anos, vários funcionários haviam ingressado e se retirado do programa de
reassentamento e que, naquele momento, apenas uma assistente social seguia trabalhando naquela cidade.
Diante disso, meu esforço foi o de não apenas tentar contatar tal assistente, como também aqueles que haviam trabalhado no programa anteriormente, a partir de telefones e e- mails repassados pelos refugiados. Foi assim que cheguei à Janaína, umas das agentes de integração da Cáritas que trabalhou nos seis meses iniciais do programa de reassentamento dos palestinos. A partir dela, tive acesso ao contato de outros funcionários que trabalharam para o programa que, por sua vez, também me deram informações sobre pessoas ou instituições que, de alguma forma, se envolveram com o reassentamento.
Neste capítulo, objetivo, num primeiro momento, entender como o programa de reassentamento brasileiro foi estruturado para receber os palestinos. Com isso, busco compreender como se tem operado o manejo de refugiados reassentados em São Paulo, com vistas a “integrá-los” à sociedade brasileira. Em seguida, partindo do que chamei de repertório comum de insatisfações, discuto os diversos aspectos do programa apontados como problemáticos pelos refugiados, assim como suas estratégias diante dele. Por último, analiso as justificativas de certos profissionais que trabalharam junto à Cáritas sobre as dificuldades enfrentadas ao longo do programa. Ressalto que, para muitos deles, a “cultura” dos refugiados ou, em outros termos, sua “diferença cultural”, seria acionada como a principal propulsora dos desentendimentos com os palestinos e da dificuldade de integração destes à sociedade brasileira. A visão da “cultura” como um problema e da “cultura árabe” como oposta à brasileira, influenciaria as próprias ações de intervenção escolhidas pelos agentes e a postura que teriam em relação aos refugiados. Em outra direção, tal visão também nos conduziria a pensar o próprio lugar da “diferença cultural” no contexto brasileiro, problematizando o discurso nacionalista que veicula uma imagem do Brasil como o país da receptividade total e da diversidade étnica, religiosa e racial, onde os árabes gozariam de grande importância na construção da nação brasileira.
Por último, alerto que o foco deste capítulo é o programa de reassentamento desenvolvido pela Cáritas em Mogi das Cruzes, dada a qualidade das minhas interações e o tempo dispensado com os variados atores envolvidos em seu processo. Considerando que apenas tive uma breve interação com os “agentes de integração” da Associação Antônio Vieira (ASAV), no Rio Grande do Sul, acionarei suas características e funcionamento apenas quando achar necessário estabelecer um contraponto em relação ao programa paulista.