TABELA 4: POPULAÇÃO URBANA DE CARUARU
2 PRIMEIRAS TRADIÇÕES FESTIVAS CARUARUENSES: A FESTA DO COMÉRCIO E O CARNAVAL
2.1 A Festa do Comércio
2.1.1 Dos Tempos de Zé Rodrigues à Festa “despejada” (1800 – 1995)
2.1.1.2 Entre 1900 e 1950: Da “Conceição” Para o “Comércio”
Como já citado anteriormente, muito importante era o comércio para a cidade de Caruaru. Desde os tempos de povoamento da fazenda, nos séculos XVIII e XIX, havia uma feira semanal, na qual moradores da região e caixeiros viajantes negociavam seus produtos. José Rodrigues de Jesus permitia que se construíssem casas na rua defronte à capela da Conceição e muitas destas casas terminaram por se transformar em estabelecimentos comerciais, que abasteciam não somente a própria vila, depois cidade, mas, também, as regiões vizinhas.
Nos anos iniciais do século XX, assim como em outras regiões do interior de Pernambuco, Caruaru teve grande crescimento econômico, ligado, sobretudo, às atividades agropecuárias, principalmente, o cultivo do algodão e da fibra de caroá. O algodão era produzido, também, por pequenos produtores rurais, em muitos casos, agricultores de subsistência, que complementavam sua manutenção econômica com a venda de sua produção algodoeira, geralmente pequena, nos armazéns do centro da cidade. Na época, a ferrovia havia chegado na cidade de Caruaru no ano de 1895. A integração das áreas interioranas à capital do estado se dava de forma mais rápida.
Mesmo com estas insipientes transformações, alguns elementos, em Caruaru, continuavam sem mudanças mais significativas. Um deles era a religião. De maioria católica75, a população continuava a realizar várias festas religiosas, tais como a de “São Sebastião”, “Nossa Senhora das Dores”, “Nossa Senhora do Rosário” e, de maior significação, a “Festa da Conceição”76. Nos anos 1930, não se tinha muita noção de como e quando ela havia começado a ser celebrada. E, como no século anterior, a festa religiosa se dava concomitante à festa profana, sem que houvesse, no entanto, a distinção entre uma e outra: celebrar a Virgem da Conceição significava organizar os cerimoniais na parte interna, como missa, novena, procissão, mas, também, na parte externa da Capela: barracas dos clubes sociais, cadeiras colocadas ao longo da Rua da Frente, onde rapazes e moças desfilavam para os mais velhos e flertavam entre si, procurando um “bom partido”. Em 32, um jornalzinho de
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Inclusive com certos arroubos de intolerância contra protestantes, chamados pejorativamente de “bodes”, como exemplifica FRANÇA (2007, p. 75 a 77)
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Em parte, a festa da Conceição envolvia maior movimentação por ser organizada por uma irmandade religiosa que era considerada mais tradicional e influente politicamente do que a irmandade de Nossa Senhora das Dores. Sobre este tema ver a pesquisa de Fonseca (1973) sobre a História da Diocese de Caruaru.
“brincadeira”, “O Repórter”, escolheria a “Rainha do Footing” (NASCIMENTO, 1994, p. 353 e 354).
Na década de 1930, a festa religiosa começou a perder espaço para a festa “profana”, tendo na criação de um novo nome, uma evidência desta realidade: a denominação “Festa do Comércio” surgiu no ano de 1933. Num semanário de dezembro deste ano, lia-se a seguinte reclamação, numa manchete de capa:
“A FESTA DO COMERCIO
Já estamos em pleno mês de dezembro e os snrs. comerciantes ainda não se resolveram a ativar os preparativos para a festa da conceição. Não podemos compreender Caruaru sem realisar a sua tradicional festa religiosa, organizada pelo laborioso comercio desta cidade que tomou o encargo de todos os anos, festejar a Virgem da Conceição. O presidente da Comissão Central é atualmente o snr. José Galindo de Souza. Cumpre a ele, pois, movimentar-se, convidando os demais companheiros, para assim não passar desapercebida a conhecida festa novenária que o comercio e povo de Caruaru comemoram todos os anos com desusado brilhantismo.
Fica aqui o nosso incentivo e a nossa lembrança.” (Vanguarda, 10 de dezembro de 1933, p. 1)
Neste pequeno texto, podemos perceber alguns elementos significativos do período: em primeiro lugar, ao nomear de “Festa do Comércio” à celebração religiosa, o semanário estava demonstrando uma responsabilidade que a cidade havia delegado a este grupo, os comerciantes e outros empresários, dada a sua força econômica e social. Por outro lado, ao fazer esta reclamação (sobre o atraso em prepará-la) em 10 de dezembro, quando a festa era realizada em 24 de dezembro, portanto, uma data bastante próxima, demonstra-se que ela não era tão “tradicional” quanto o seria duas décadas depois (no ano seguinte, em 1934, houve a mesma demora e reclamação; nos anos 50, no entanto, a escolha da comissão se dava em novembro e, até mesmo, em outubro, havendo casos de comentários sobre a eleição da comissão já no mês de agosto). Outro aspecto a ser considerado é que a festa à qual o jornal se referia que não estava pronta era a da parte externa, ou seja, a profana (por mais gastos que houvesse na parte religiosa, o que não era o caso, a demora nas decisões seria contestada à Igreja e não ao comércio), o que demonstra que celebrar a Virgem da Conceição, necessariamente, precisava dos dois eventos, vivenciados como um só. Um quarto elemento: o dia da “Imaculada Conceição” é celebrado, oficialmente, pela Igreja Católica, em 08 de dezembro, enquanto que, em Caruaru, as festividades se davam no final do mês. (Isto levaria a
uma polêmica futura com o Bispo Diocesano, D. Paulo Hipólito de Souza Libório, no final dos anos 1940, que trataremos adiante).
Ainda com relação à nomeação da “Festa do Comércio”, a mesma se deu graças à ação do “Jornal Vanguarda”. Aliás, sobre este jornal, o mesmo foi um importante instrumento de “defesa das tradições” da cidade, dentre outras coisas, devido à sua estabilidade: foi este semanário que, anualmente, noticiou as festas caruaruenses, seja conclamando às suas organizações, seja reclamando da decadência. Surgido em 1º de maio de 1932, o “Vanguarda” circula até os dias atuais. Nascimento (1994) fez um estudo sobre os jornais do estado, tratando dos de Caruaru no Volume XI da “História da Imprensa de Pernambuco”. Em sua pesquisa, demonstrou que a maioria dos jornais caruaruenses teve vida efêmera77 ou passou por diversas mudanças de direção, proprietário e, até mesmo, nome, sem contar com os períodos sem circulação de algumas das “folhas”. O primeiro jornal de Caruaru foi “O Vigia”, que circulou entre 1899 e 1901. Substituindo-o, veio “O Caruaruense” (1901-1919). Paralelo ao “Vanguarda”, havia “A Defesa”, órgão do “Círculo Católico”78
(NASCIMENTO, 1994). No término dos anos 40, a festa de fim de ano passou por grande entrevero envolvendo convicções opostas da Igreja Católica e dos comerciantes79. Em 1948, Caruaru havia sido transformada em Diocese, cuja sede era a “Matriz de Nossa Senhora das Dores”. Seu primeiro bispo foi D. Paulo Hipólito de Souza Libório, chegando à cidade no ano seguinte. Morando em Caruaru, a partir dele, a cidade possuía uma presença maior do poder da Igreja, o bispo, que, dentre outras coisas, pensava em organizar a liturgia e a doutrina católica, que, para seu espanto, privilegiavam a festa da Conceição, em detrimento da Festa de “Nossa Senhora das Dores”, a padroeira diocesana, em 15 de setembro. Deve-se salientar que a Igreja das Dores, àquela altura, já era, também, centenária80.
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Informação semelhante pode ser encontrada em Santos e Ferreira (2008), p. 92 a 100). 78
O Círculo Operário de Caruaru, fundado em 1938, era um fruto da “Doutrina Social da Igreja”. O jornal “A Defesa” circulou até a metade dos anos 80.
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A celeuma entre empresários e Igreja contrastava com a participação dos mesmos na vida religiosa: muitos deles estiveram presentes na comissão que, em 1944, foi formada para ajudar na organização da fundação da Diocese de Caruaru, dentre eles José Victor de Albuquerque, João Elísio Florêncio e Lourinaldo Fontes. (FONSECA, 1973).
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Figura 2: Panfleto comemorativo da chegada do 1º Bispo de Caruaru, D. Paulo Libório, 1949.
Sobre a “Festa da Conceição”, D. Paulo Hipólito pretendia apelidá-la de “Festa de Ação de Graças”, no que não teve êxito, dado o desagrado da população e dos comerciantes
(seus financiadores). Aborrecido, o bispo pensou em acabar com a festa81, em 1950, “chegando ao absurdo de não permitir sequer que a Igreja da Conceição abrisse suas portas para a tradicional novena natalina” (BARBALHO, Vol. 10, 1983, p. 31), além de definir que ela seria celebrada entre o final de novembro, tendo a culminância em 08 de dezembro, o dia correto determinado pela Igreja como comemoração do “Dogma da Imaculada Conceição”.
Contudo, isto só aumentou o choque com a Associação Comercial de Caruaru, que, também resolveu não realizar a festa externa. Segundo Santos (2006), desde as primeiras décadas do século XX, os comerciantes já se constituíam num grande grupo de pressão sobre o cotidiano da cidade, dado o peso do comércio na sua economia. A própria denominação “Festa do Comércio” já seria uma demonstração desta força. Assim, do choque do clero com os comerciantes, houve uma pequena separação entre as festas “religiosa” e a “profana” (organizada, em 1949, sem ajuda da Associação Comercial), que se realizaram em datas separadas, voltando a ter data conjugada nos anos 50.
Num artigo publicado no início de dezembro de 1949, Henrique de Figueiredo dá um pouco o tom desta questão, defendendo a postura do bispo de colocar a data da festa no seu dia escolhido pela Igreja: “Não se pode admitir (...) que uma data seja transferida, sem motivo de relevante força maior, somente para satisfazer certos interesses (grifo nosso), e de ordem puramente extranha à Igreja” (VANGUARDA, 04 de dezembro de 1949, p. 1). O autor continua o texto indicando que, ao se celebrar no final do mês, o dia correto fica despercebido. Além do mais, a festa em homenagem à Imaculada Conceição era “profanada” com barracas de bebidas, jogatina, danças e outras demonstrações de desrespeito, dentre elas, a presença de “mulheres de moral duvidosa” (FONSECA, 1973, p. 107). Com a mudança,
Nossa Senhora da Conceição receberá de seus devotos um culto verdadeiramente sincero e ungido de piedade cristã”, afirmou Henrique de Figueiredo. E que o “[...] comércio organize sua festa sem nenhum cunho religioso, [com] suas barracas de prendinhas, com os seus dancings ao ar livre, as mezinhas poderão ser servidas de „Wuisk King‟ e „VermuthSêco‟ e o jogo ser organizado em tôdas as suas modalidades (VANGUARDA, 04 de dezembro de 1949, p. 1).
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Esta questão religiosa trazia em si, também, a rivalidade existente, desde o século XIX, entre a irmandade da Conceição e a irmandade das Dores, que reproduzia a disputa pelo poder político da cidade entre os conservadores-escravocratas e os comerciantes e profissionais liberais (também escravocratas). Sobre este tema, ver Ferreira (2001, p. 111 a 115)
Mesmo ocorrendo a festa82, alguns anônimos não se furtaram de promover suas opiniões:
“Durante os dias de Festa, circulou duas vezes o pasquim „O Ditador‟ (grifo nosso83) com duas caricaturas insultuosas a alguns membros da Comissão e críticas à atuação do Sr. Bispo que, segundo eles, queria acabar com a Festa do Comércio, transformando em pura festa de devoção, etc” (FONSECA, 1973, p. 110).
No ano de 1950, a festa religiosa em homenagem à Nossa Senhora da Conceição ocorreu entre 29 de novembro e 08 de dezembro. Já a “Festa do Comércio” continuou com suas datas anteriores: 24 de dezembro a 1º de janeiro (VANGUARDA, 10 de dezembro de 1950).
Figura 3: Festa do Comércio – 1958 (acervo pessoal Carlos Sá)
Como se pode perceber, a partir desta celeuma entre Igreja e comerciantes é que a idéia de “sagrado” e “profano” passa a ser percebida na “Festa da Conceição”. Daqui por diante, apesar das citações de que a festa era em honra da “Virgem da Conceição”, a mesma será, anualmente, denominada, apenas, de “Festa do Comércio”, ocorrendo no final de
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As duas edições da festa, em 1949 e 1950, não contaram com grande presença de público. Fonseca (1973) defende que a diminuição da importância, ao menos momentânea, da parte sacra da festa seja a causa da baixa frequência: “A frequencia popular e das elites foi pequena, o que mostrava certa prevalência da influência clerical” (FONSECA, 1973, p. 110).
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dezembro. A festa, então, entrará num período de grande mobilização social e política, até boa parte dos anos 1950, e de diminuição dos significados culturais, do final desta década em diante. Este fato histórico, contudo, não se deu “por decreto”: ano-a-ano percebe-se, ao acompanhar os informativos locais (principalmente “Vanguarda” e “A Defesa”) e alguns textos de memórias de indivíduos da cidade, que a festa não vai tendo a mesma repercussão dos períodos anteriores, a mesma significação social. Para isto, concorrem alguns fatos, já indicados anteriormente: crescimento da cidade e surgimento de uma nova realidade social, problemas econômicos nacionais e municipais, mudança na mentalidade administrativa e nos interesses dos comerciantes, mudança de sentido da festa.