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Entre linhas

No documento Arte que inventa afetos (páginas 135-139)

A entrada principal da comunidade tem um bar à direita e um frigoríico à esquerda. Entre os dois, um espaço de uso muito dinâmico pelos moradores: um lugar de estar, jogar baralho, conversar, que fun- ciona como extensão do bar, mas é também um lugar de passagem. Esse espaço foi escolhido como um dos pontos de intervenção. Os muros, que formam um corredor, e uma das entradas da comunidade, consti- tuem um volume a partir do frigoríico. Para os muros, foi proposta uma leitura dos padrões visuais encontrados ali, familiares aos moradores, como as tramas de múltiplas linhas dos postes de eletricidade, as linhas

dos varais, muitos deles expostos nas fachadas das casas, os gatos, as cores fortes e os cobogós. A realidade fez-se presente para a produção icônica e consequente familiaridade e aceitação dos moradores aos signos produzidos.

Essa atenção em relação à identidade das imagens ecoou não apenas nas intervenções da entrada da comunidade. Foram produzidos estênceis, tipograias e números a partir das formas dos cobogós, para colocar o nome das ruas nas esquinas correspondentes e disseminar na comunidade sua própria imagem. A partir das imagens produzidas, foi criado um logotipo e um símbolo da LVC (Lauro Vieira Chaves). Assim, a identidade é reforçada e as atividades ganham um sentido que vai além da visibilidade para a intensiicação do sentido de coletividade e de identidade.

Alguns moradores participaram do processo de preparação do muro, com reboco e pintura branca de fundo. A comunidade prepara-se e transforma-se em suporte para receber as intervenções, o mutirão, os alunos e sua nova imagem. Os moradores também participaram do pro- cesso de criação das imagens para os muros e durante o mutirão, na reprodução e aplicação das iguras. Uma ação coletiva e interativa.

No espaço da entrada, foram tracionados inos ios de cabos de aço e plantada uma trepadeira, das que crescem rápido, com o intuito de criar um portal sombreado, enfatizar a entrada com o mote das linhas.

Figura 4 - Entrelinhas. Foto A – Entrada da comunidade; Foto B – Detalhe da entrada depois da intervenção; Foto C – Estêncil aplicado com o nome da rua.

Do lado esquerdo, os varais foram retratados com lençóis e camisetas brancas, para que o espaço interno ao desenho estivesse à disposição para receber futuras intervenções gráicas.

Se pensamos as ações realizadas na Lauro Vieira Chaves em um sentido político, como uma postura especíica no espaço público que se manifesta de forma comunicativa, fazemos uma conexão com o que Deutsche caracteriza como arte pública, porque opera e se apresenta na esfera pública:

Tanto si sigue como si rechaza el modelo habermaziano, sig- nifica que un arte público, por contraste con un público artís- tico, no es una entidad preexistente, sino que emerge a través de, es producido por, su participación en una actividad política (DEUTSCHE, 2001, p. 310).32

Por esse ponto de vista, há uma atualização do sentido de esfera pública por sua implicação não apenas comunicativa, com uma abran- gência de opinião pública ou através de um meio de comunicação aberto, mas por incluir um posicionamento político, a manifestação de uma opinião e um desejo que é um direito, como uma forma de legiti- midade social.

Apropriação

A palavra apropriação é usada de diferentes formas por autores que discutem a dominação e o controle do ambiente urbano e as dis- tintas formas de agir em relação a esses domínios. A marcação de ter- ritório e a construção de lugares na arte pública ocorrem através da apropriação do espaço urbano, entendida como uma tomada de posse vinda da sociedade, de grupos ou indivíduos, que ocupam alguma parte do espaço público e o transformam à sua revelia, de forma crítica ou não autorizada.

32 Seja adotado ou recusado o modelo habermasiano, uma arte pública, em contraste com um público artístico, não é uma entidade preexistente, mas emerge e é produzida por sua participação em uma atividade política (Tradução da autora para fins de estudo).

Na entrada, nos muros que receberam as intervenções, já havia uma imagem com conteúdo de resistência, que identiica a comunidade e o desejo dos moradores de permanecer no local. Essa intervenção denota a apropriação do muro como espaço físico e político, de opinião pública. Em seguida, o grupo que atuou em “arte e resistência urbana” também se apropria do muro e incorpora a imagem anterior no conjunto de todo corredor preenchido, com o cuidado de enfatizar, ao lado dela, o conteúdo e a forma gráica, respeitando o fundo branco, as cores ver- melho e preto, e o código verbal. Ao longo do tempo, os moradores colocaram varais e roupas para secar sobre as pinturas dos varais, reite- rando a análise da seleção das imagens a serem reproduzidas nos muros e a manutenção do costume.

Na Lauro Vieira Chaves, a intervenção urbana ocorreu no espaço público interno à comunidade. Parece um pouco estranho falar de apro- priação do espaço público quando o que ocorre é uma utilização dife- renciada de um espaço que já é previamente utilizado e entendido como pertencente a todos os que ali o transformam. No entanto, a atividade coletiva no espaço dentro da comunidade ganha outra qualidade e sig- niicado quando ele é transformado dentro de um propósito comum, no caso, a resistência. Como uma forma de apropriação, os lugares re- cebem a intervenção de acordo com as escolhas e necessidades especí- icas, na transmissão de um conteúdo com teor reivindicativo, capaz de fortalecer o sentido de pertencimento e de localidade.

Figura 5 - Apropriação. Foto A – Muro da comunidade com intervenção dos moradores; Foto B – Muro depois da ação “arte e resistência urbana”, que apropria a imagem anterior. Fonte: Anna Lúcia dos Santos Vieira e Silva.

No documento Arte que inventa afetos (páginas 135-139)