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EPÍLOGO: A LONGA ESPERA POR UMA “CASA”

Não se conhecem resultados da iniciativa legislativa de 1928. No entanto, há muitos aspetos da legislação da Ditadura Militar que parecem ressurgir nos programas habitacionais do Estado Novo, apesar de, a partir de 1933, a iniciativa ficar inteiramente na esfera do Estado, da construção à regulação, do financiamento à distribuição.

Neste período de muitas hesitações e tentativas de lançar políticas consistentes que contrariassem o ambiente de degradação habitacional das cidades, nota-se uma luta política em torno da habitação e das expectativas das famílias urbanas que auferissem rendimentos regulares, ainda que baixos. Os primeiros programas habitacionais ora surgem num quadro de autoritarismo, ora num quadro de políticas progressistas, e acabam por ser interrompidos, com realizações escassas, ou nunca concretizados. Nota-se o incómodo dos sucessivos governos pela construção do bairro do Arco do Cego, considerado uma extravagância se dirigido a operários, acabando por ser entregue a funcionários públicos (73%), maioritariamente das forças armadas e policiais, já durante o Estado Novo;37 ou o incómodo do governo

de Vicente de Freitas, quando afirma no preâmbulo do decreto de 1928 que o quadro legal introduzido pelo governo sidonista não produziu “nenhuns resultados práticos”.

Portugal vive, entre o fim da Monarquia Constitucional e a República, uma crise habitacional grave, com particular incidência nas duas grandes cidades, consequência da reconfiguração social, económica e política que caracteriza o período analisado. Uma população analfabeta e rural que cresce moderadamente, com elevados índices fisiológicos, abeira-se do litoral, trocando o campo pela fábrica ou pelo comércio, que se instala na “casa” que consegue pagar com os baixos salários auferidos. É nas cidades de Lisboa e Porto, onde todos aportam em busca de um salário ou de uma promessa na emigração, que se assiste à crise habitacional, com elevado número de famílias a viver em casas improvisadas, sem acesso a água e saneamento, e onde vai crescendo uma insatisfação generalizada, pela tomada de consciência dos novos direitos políticos, por um lado, e pela origem de focos epidémicos mortíferos, por outro.

Durante mais de três décadas, o poder político na Monarquia reconhece a crise habitacional, mas, pela ausência de medidas, revela o seu desinteresse em intervir na reconfiguração das cidades, no mercado habitacional e na recomposição salarial. A República começa por ignorar a crise e mesmo a experiência pioneira da cidade do Porto, mas um curto governo autoritário, que procura usar a habitação social como arma política, lança um primeiro programa habitacional estatal, inaugurando assim um preceito inerente a todos os regimes políticos posteriores. No curto período que medeia entre a queda do governo sidonista e a ditadura fascista de 1933 são lançados mais dois programas habitacionais, o primeiro de 1919, de cariz socialista, o outro produto de afirmação da Ditadura Militar de 1926.

O total de realizações dos programas habitacionais lançados neste período – cerca de 830 habitações entre 1918 e 1935 – revela as opções do poder político republicano, influenciado pelo debate efetuado durante a Monarquia: intervenção mínima, opção pela moradia unifamiliar em regime de arrendamento e possibilidade de venda da habitação. A habitação social e a crise habitacional voltam a servir de pretexto, durante o Estado Novo, para lançar programas condicionados politicamente. É o mesmo que dizer que a crise habitacional em Portugal que se fez sentir desde o final do século XIX só começa a ser debelada após a II Guerra Mundial, com consequências negativas para a evolução urbana e reconfiguração das relações socioeconómicas.

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BIO

Paula Borges Santos (Beja, 1976) - Doutorada em História Contemporânea pela Faculdade de Ciências Socais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA). Investigadora integrada do IHC- FCSH/NOVA, onde coordena o Grupo de Investigação Justiça, Regulação e Sociedade. Desenvolve, desde 2013, o seu projeto de pós-doutoramento com apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). É colaboradora regular do Departamento de Historia Contemporánea da Facultad de Geografia y Historia da UNED (Espanha). Foi professora visitante da Pontifícia Universidade Católica de Rio Grande do Sul (2015). Publicou “Igreja Católica, Estado e Sociedade (1968-1975): o caso Rádio Renascença” (ICS, 2005), que recebeu o Prémio Fundação Mário Soares (edição de 2004); “A Questão Religiosa no Parlamento (1935-1974)” (Assembleia da República, 2011); “A Segunda Separação. A Política Religiosa do Estado Novo (1933-1974)” (Almedina, 2016). Foi cocoordenadora do “Dicionário de História de Portugal. O 25 de Abril” (Livraria Figueirinhas, 2016). Publicou ainda cerca de cinquenta artigos e seis dossiers temáticos em revistas científicas internacionais e nacionais.

José Maria Brandão de Brito (Lisboa, 1947) - Economista e Professor Catedrático jubilado do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa. Foi administrador da TAP, presidente do CA da RTP, membro do Conselho Geral da EDP e vice-reitor da UTL. É membro do think tank Missão Crescimento (Ordem dos Economistas, Ordem dos Engenheiros e Fórum dos Administradores de Empresas), sócio efetivo da Sociedade de Geografia. É investigador integrado (FCT) do Instituto de História Contemporânea da NOVA/FCSH. Atualmente é administrador do BERD (Londres) e membro do Conselho Superior do Instituto Europeu de Florença. É autor de livros e trabalhos sobre a economia e a sociedade portuguesas e sobre temas de história económica contemporânea.

Corporativismo e habitação económica em meio urbano em

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