• Nenhum resultado encontrado

7.2 RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO

7.2.1 Equilíbrio entre a disciplina e a amizade

Ser professor envolve a relação com os alunos. No projeto Fábrica de Gaiteiros a relação professor- aluno é bastante valorizada.

Adriana ressalta que gosta do contato com o aluno: “Esse contato é muito bacana, é muito interessante. Então isso reforçou muito a questão de eu querer vir me dedicar com o tempo pra essa área do ensino” (CE-ADRIANA, p. 17).

A professora acrescenta que o seu trabalho envolve “muita psicologia”, e relata como reage quando percebe que os alunos precisam de ajuda:

Chegou uma aluna. Ela chegou chorando na sala de aula. Mas chorando muito. Eu pensei, deve ter acontecido alguma coisa, alguém morreu. Sei lá, alguém com câncer. Sei lá, uma notícia que ela recebeu no caminho. Na hora me veio mil coisas na cabeça. Botei a aluna sentada e perguntei pra ela: O que aconteceu? Me conta, o que aconteceu. O problema era o namoradinho. Eu já tive que [dizer], olha, isso vai passar, isso aí, tu vai ver que daqui um pouco tu já vai gostar de uma outra pessoa. E ela, não professora, mas é o amor da minha vida, porque eu quero casar, por que não sei o que. Então, entra muito a psicologia em tudo. [...] outra aluna veio me contar que ela estava se sentindo muito mal em casa em razão dos pais a chamarem de palavras que ofendiam, tipo, de burra, algumas palavras assim, elas citaram umas outras agora que eu não lembro. Rebaixando ela. Botando a autoestima dela pra baixo. Ela veio numa aula e não conseguiu me contar. Aí numa outra aula eu comecei instigá-la, e falei: Me conta, quem sabe eu posso te ajudar. Aí ela se abriu e falou (CE-ADRIANA, p. 23-24).

Adriana ouve ainda “alunos que optam por outro sexo” como: “[...] uma menina que quer namorar uma menina e tem um baita atrito em casa, aí eles vêm pra mim, pra conversar”. Para Adriana, essas situações requerem muita psicologia: “Tanto que um dos pais dessa, uma menina que estava gostando de uma outra menina. Ela teve fortes problemas em casa, de rejeição. E isso mexeu totalmente na cabeça dela” (CE-ADRIANA, p. 24).

Entre os alunos que a professora tentou ajudar, está “um aluno que estava se envolvendo com uma parte pesada da cidade, de drogas”:

Ele chegou e me falou na aula que ia começar a entregar droga. Foi quando eu falei pra ele: Olha, esse caminho não vai te levar a lugar nenhum. Está cheio de câmeras pela cidade. Daqui a pouco uma câmera vai te pegar, tu vais ser preso. Eu disse, eu não quero te visitar num presídio. Aí eu tento agir no psicológico deles, falei: Olha tu és um guri bonito, pra que tu estás fazendo isso? Quem é a menina que vai querer namorar um menino drogado? Que tipo de guria tu achas que tu vais arrumar envolvido com droga? (CE- ADRIANA, p. 24).

Na semana seguinte, o aluno de Adriana “teve problemas em casa”, e “em vez de ele ir pra rua, ele matou a aula do colégio e apareceu lá na aula de gaita”, e “passou toda a manhã”. Quando, “na outra semana, ele fez a mesma coisa”, Adriana comunicou à mãe do aluno: “Ele está falhando aula, ele falhou a aula de manhã, mas passou a manhã toda comigo. Ele fez isso por duas semanas”. Conforme Adriana, agora esse aluno “está endireitado na cabeça” (CE-ADRIANA, p. 24).

A professora acredita que os alunos possam ser ajudados por alguém “que não é da família”, e revela que atua como professora e amiga: “Então o projeto muda muito, porque tu acabas te envolvendo. Eu, pelo menos, acabo me envolvendo muito com os alunos” (CE-ADRIANA, p. 25).

Fofa considera importante ter uma posição firme frente aos alunos, e acha frustrante para o professor quando o aluno não demonstra interesse:

Porque não adianta nada ficar ali, mostra, mostra, mostra, e ele fica olhando pras paredes, quer só bobear, brincar. Também é ruim. Já xingo também. Ah, já meto o pau125. Não quer, vai te embora pra casa, tem quem quer. Não, mas é. E é verdade [olhando para os alunos] (CE-FOFA, p. 16).

Eduardo concorda com Fofa quando diz que está ali “pra ensinar gaita, e quem está ali, está pra aprender” (CE-EDUARDO, p. 18).

Adriana avalia que os jovens “às vezes passam também dos limites deles”, por isso é importante manter o equilíbrio entre a amizade e a disciplina:

Eu tento ser a Adriana amiga que está passando alguma coisa de gaita pra eles, mas eu também, quando preciso me impor, porque são jovens, são adolescentes, eu me imponho, e aí entra a Adriana só professora, e coloco-os no lugar deles (CE-ADRIANA, p. 25).

Fofa concorda com Adriana quando diz que o professor “tem que ser crítico, tem que cobrar da gurizada”. Segundo ela, “se deixar à vontade, a la vonté, eles vão tocar só bobagem, só o que querem, e não vão fazer o que é certo, o que tu quer que faça naquele momento”. No entanto, Fofa acrescenta que o professor “tem que cobrar, mas tem que elogiar, faz parte”, revelando: “A pessoa está ali, o esforço que está sendo colocado está sendo recompensado com elogio. Talvez uma apresentação no futuro” (CE-FOFA, p. 7).

Renato procura encontrar o equilíbrio entre a disciplina e a amizade de forma diferente, quando tenta “ser menos durão e mais amigo”. Para Renato, é importante não deixar de ser exigente, mas aprender a dosar a exigência: “Porque, daqui a pouco, essa coisa de turrão pode trancar o menino. Então, isso, eu estou aprendendo também, de dosar. É, dosar isso aí, fazer um mate126 mais longo. Toma o mate, só vai dizendo: oh, presta atenção aí” (CE-RENATO, p. 33).

O relacionamento de Eduardo com os alunos é, “na maioria das vezes, como amigo, dependendo da idade”. Com “a gurizada mais velha, principalmente esses que já estão atuando na área”, ele tem “um relacionamento de colega”. Eduardo concorda com Adriana e com Renato quando diz que com “os mais novos, e [com] todos de uma forma geral, tem aquela restrição, tem que ter o limite, aluno- professor”, advertindo: “Porém é light. Então, tem as brincadeiras, nas aulas coletivas, volta e meia termina com um cafezinho”. O professor tem mesma opinião que Fofa quando diz que é “muito rígido na hora de estudar, e hora de estudar, é hora de estudar”, pontuando: “Libero pra brincadeiras, é óbvio, tem as brincadeiras, tem as arriações, mas quando o assunto é sério, é sério” (CE-EDUARDO, p. 17).

Eduardo já teve “reconhecida” a disciplina que “aplica em sala de aula” quando “sai pra fora, pras apresentações” com a “piazada”:

Eu os levo pras apresentações, e o pessoal comenta muito a respeito da disciplina musical deles. [...] Embora lá dentro da Fábrica, a gente tem um ambiente bem descontraído, familiar, nas práticas de conjunto e ensaios, e nas apresentações, tudo alinhadinho, é padrão profissional. É o mínimo que eu exijo, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Treino é treino, jogo é jogo (CE- EDUARDO, p. 17).

126

Mate ou chimarrão é uma bebida característica da cultura do sul da América do Sul. É hábito fortemente arraigado no estado do Rio Grande do Sul. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Chimarr%C3%A3o, consultado em 21/10/2018.

O professor concorda com Fofa quanto ao orgulho que sente pelos alunos e menciona o seu profissionalismo durante as apresentações:

A partir do momento em que eles são chamados pra participar de um evento, passa a ser coisa séria, e essa disciplina que eles têm, musical, me orgulha muito, porque eu sempre procurei ter, procuro passar. E eu vejo que ela é bem aceita pelos alunos e ainda mais pelo público, que assiste (CE-EDUARDO, p. 17).

Fofa acha “que é bom” o seu relacionamento com os alunos. Considera-se uma professora rígida, sustenta que herdou essa pedagogia do seu antigo professor, Sadi Cardoso, e avalia que deve estar agindo de forma correta, pois os resultados obtidos são bons: “Xingo bastante. Cobro bastante. [...] É o sangue do Cardoso. [...] Funciona. Se não funcionasse, não tocava gaita. Não é por nada, mas os meus alunos são bons” (CE-FOFA, p. 19-20).

Para Silveira, “os saberes da experiência começam com as experiências feitas como aluno, onde poderá observar e refletir sobre os diferentes professores”. Segundo o autor, se nessa fase nos identificarmos “com alguma forma de ser professor”, é possível que mais tarde a tomemos como exemplo a seguir (SILVEIRA, 2016, p. 2).

Se Fofa teve um professor rígido (que se assemelhava ao seu avô) e teve experiências positivas, como a conquista de prêmios em concursos, é provável que assuma essa postura rígida também com os alunos.

Um aluno de Fofa, presente durante a entrevista, afirma que a professora é sincera: “Quando ela tem que brigar, ela briga conosco. Quando ela fala que tá bom, ela fala que tá bom. Quando ela fala que tá ruim, ela fala que tá ruim. [...] Oh praga, tu não sabe, imundice! [...] Funciona” (CE-FOFA, p. 19-20).

A professora admite sentir orgulho dos alunos e faz menção à participação de seus alunos no encontro anual do projeto Fábrica de Gaiteiros no qual eu estava presente:

Cezar: Tu tens orgulho dos teus alunos? Fofa: Eu tenho, cara. Tá loco?

Cezar: Fala um pouquinho.

Fofa: Eu tenho! Os mais bonitos e os melhores. [risos] Sério! Tu foste o ano passado, no final do ano, lá, não foi? Tu estavas lá, não estavas?

Fofa afirma que seus alunos “mais desinibidos querem abranger mais, sair da música tradicional”, por isso buscam outros estilos musicais e outros ritmos: “Aí eles vêm, com a música no celular: Me ensine essa música. Aí a gente aprende”. Essa troca ajuda Fofa a manter seu repertório atualizado (CE-FOFA, p. 9). A professora enfatiza que, “com certeza”, aprende “muito” com alunos e que essa troca “existe”. Ela revela que os alunos que têm “o lado curioso de querer aprender outros estilos, outras coisas” a fazem “procurar, aprender pra ajudar”:

Como meu aluno diz: Ah, eu quero aprender a música lá do Renato [Borghetti]. Eu ouvi, mas não sei, não tenho o material. Ele gravou, me trouxe, nós estávamos tentando tirar. A gente estudou junto, hoje, pra passar uma música pra ele. Isso é bom (CE-FOFA, p. 21).

É possível observar durante a entrevista que a relação de Fofa com os alunos é descontraída, mas não isenta de disciplina:

Aluno: E a Fofa é muito boa de ouvido. Ela precisa de dez minutos pra tirar uma música.

Fofa: E vocês são preguiçosos, sua cambada de vadios. Eles, em vez de ficar em casa, escutando lá e tirar, não. Fofa, eu quero tal música. Me manda até o link. Mas vai escutar! Não, me manda o link pra eu escutar e tirar pra ele, sabe. Pô. [risos] (CE-FOFA, p. 21). Augusto considera que “a maior experiência” que teve foi quando uma aluna em “situação de risco”, com problemas de “abandono familiar”, e “desinformação total sobre o que é ser mulher e o que é estar na vida”, com “treze anos”, o procurou:

Professor, eu estou com um problema sério em casa, [...] minha mãe não me entende, meu padrasto não gosta de mim, e eu estou indo, depois de ‘n’ crises de choro, vou morar com o meu namorado. Treze anos. Namorado militar, temporário (CE-AUGUSTO, p. 24).