4. Os quartetos de temas variados e concertante
5.2 A escola de violino francesa e o quarteto brilhante
Ao mesmo tempo em que os compositores associados com Viena (Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert e outros) foram traçando um caminho no firmamento musical do mundo ocidental (final do século XVIII e início do século XIX), um grupo de compositores franceses estava compondo um volume impressionante de música para o violino. Os compositores de Viena, mesmo que às vezes virtuoses, eram primordialmente conhecidos como compositores. O grupo dos franceses, baseado em Paris, era principalmente conhecido como de intérpretes, apesar de ter publicado centenas de obras. [...] Beethoven certamente tinha conhecimento da Escola Francesa e seguramente fez uso de técnicas e ideias oriundas da mesma (SCHUENEMAN, 2007, p. 1).118
A escola francesa tinha suas raízes em uma junção da antiga tradição francesa de violino, desde Jean-Baptiste Lully (1632-1687), Pierre Gaviniés (1728-1800) e Jean-Féry Rebel (1666-1747), com a escola italiana de Archangelo Corelli (1653-1713) e Giuseppe Tartini (1692- 1770). O ponto de encontro entre essas duas escolas se deu com Giovanni Battista Viotti (1755- 1824), violinista italiano que se estabeleceu em Paris em 1782, causando verdadeiro furor no público francês.
Parte desse sucesso e dessa forte impressão que causou entre o público e os músicos deve-se a uma novidade que Viotti praticamente introduzia no meio parisiense: o uso de um novo tipo de arco, recém-desenvolvido pelo archetier francês François Tourte (1747- 1835). Antes dele, Giuseppe Tartini (1692-1770) já́ havia introduzido uma mudança estrutural importante, idealizando o parafuso do talão, com o qual se podia ajustar a intensidade da crina. Porém, a mudança fundamental se deu quando Tourte, entre outras modificações menores, curvou a vara no sentido contrário do que era feito até então, dando ao arco maior tensão e flexibilidade e permitindo uma verdadeira revolução nas possibilidades técnicas dos instrumentos, como por exemplo toda uma gama de golpes de arco (FRÉSCA, 2014, p. 73).
A maior parte desses compositores franceses era composta de violinistas. Nos conturbados anos pós Revolução Francesa, foi criado o Conservatório de Paris (1795), tendo em
118 At roughly the same time that the composers associated with Vienna (Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert et al) were blazing a trail in the musical firmament of the Western world (late 18th and early 19th centuries), a cognate group of French composers were composing an impressive body of music for the violin. The Vienna composers, while sometimes virtuosos, were primarily known as composers. The French group, based in Paris, was primarily known as performers, though their published works run into the hundreds. [...] Beethoven was very much aware of the French School and almost certainly used techniques and ideas derived from the French School.
seu corpo docente Rodolphe Kreutzer (1766-1831), Pierre Rode (1774-1830) e Pierre Baillot (1771-1842), todos influenciados por Viotti (FRÉSCA, 2014, p. 74). A ópera, amplamente presente no cenário musical francês, era uma importante influência para os compositores franceses (Kreutzer escreveu diversas óperas e era um empresário de gênero; já Rode era solista da orquestra da ópera e o seu début foi com uma peça de Viotti durante o intervalo de uma ópera), e o estilo da Escola Francesa era calcado no canto (SCHUENEMAN, 2007, p. 5). Schueneman, porém, adverte que, ao contrário de compositores como Beethoven, que escreviam para a posteridade, os compositores franceses criavam obras para performances públicas pessoais, recheadas de virtuosismo (2007, p. 3).
Esses compositores-violinistas escreveram abundantemente para o quarteto de cordas, naturalmente favorecendo o primeiro violino, parte na qual eram exploradas todas as possibilidades técnicas do instrumento, frequentemente reduzindo o quarteto a um solo acompanhado (MONGRÉDIEN, 1986, p. 289). Conhecido como quarteto brilhante, focava na capacidade expressiva do instrumento, virtuose e líder:
No quarteto, ele [o violino] sacrifica todas as riquezas do instrumento pelo efeito geral, ele se transforma no espírito deste outro tipo de composição no qual o diálogo encantador lembra uma conversa entre amigos que se comunicam suas sensações, sentimentos e afetos mútuos: seus pontos de vista por vezes diferentes iniciam uma discussão acalorada na qual cada um contribui e segue com vontade o impulso dado pelo primeiro dentre eles, cuja ascendência os guia, ascendência essa que se estabelece pela força das ideias que ele põe em evidência, e que ele deve menos ao brilhantismo das suas habilidades do que à persuasão suave de sua expressão (BAILLOT, 1834, p. 266-267).119
O quarteto brilhante se difundiu através da Europa e alguns violinistas de renome viajavam por pequenas e grandes cidades, para tocar quartetos com três músicos locais, prática utilizada, por exemplo, por Henri de Vieuxtemps (1820-1881) e Pablo de Sarasate (1844-1908). Essa práxis costumava lotar as salas de espetáculo, mas por vezes rendia críticas negativas acerca do conjunto (STOWELL, 2003, p. 10). O compositor e virtuose do violino alemão Louis Spohr (1784-1859) distingue claramente um quarteto verdadeiro (possivelmente se referindo à escola de Haydn, Mozart e Beethoven) do quarteto brilhante:
119 Dans le quatuor, il [le violon] sacrifie toutes les richesses de l’instrument à l’effet général, il prend l’esprit de cet autre genre de composition dont le dialogue charmant semble être une conversation d’amis qui se communiquent leurs sensations, leurs sentimens, leurs affections mutuelles: leurs avis quelquefois différents font naître une discussion animée à laquelle chacun donne ses développemens et se plait bientôt à suivre l’impulsion donnée par le premier d’entr’eux dont l’ascendant les entraîne, ascendant qu’il ne fait sentir que par la force des pensées qu’il met en évidence, et qu’il doit moins au brillant de son jeu qu’à la douceur persuasive de son expression.
Existe hoje uma espécie de quarteto no qual o primeiro violino executa o solo e os três outros instrumentos se limitam a acompanhar; eles são conhecidos como quartetos brilhantes e têm por finalidade propiciar ao solista mostrar seu talento nos pequenos círculos musicais ou salões. [...] Quando tocamos o verdadeiro quarteto, no qual todos os quatro instrumentos são absolutamente necessários para realmente fazer jus à vontade do compositor, o primeiro violino não deve procurar brilhar por meio de uma execução mais forte do que seus colegas: ao contrário, deve procurar se mesclar aos outros, e até se subordinar quando não detém a parte principal (SPOHR, 1840, p. 195).120