Esta investigação teve inspiração etnográfica7 que, segundo Rocha e Eckert (2008, p. 9), “constitui-se no exercício do olhar (ver) e do escutar (ouvir), situando-se no interior do fenômeno observado”. Consistiu-se num estudo documental e de campo de casos selecionados. “O documento permite acrescentar a dimensão do tempo à compreensão do social” (CELLARD, 2012, p. 295). Já o estudo de campo, para Gil (2002, p. 55), tem o objetivo “de proporcionar uma visão global do problema ou de identificar possíveis fatores que o influenciam ou são por eles influenciados” (figura 2).
Figura 2 – Processo metodológico da pesquisa
Fonte: elaboração própria.
O locus da primeira fase do estudo foi uma escola pública que manteve o Programa Mais Educação no ano de 2015, localizada na periferia da cidade de Ijuí/RS. Esta escola teve o programa ativo entre os anos de 2013 e 2015. A escolha foi produto do vínculo existente entre a instituição e este pesquisador, considerando que meus estudos primários foram realizados nesta escola. Além disso, o fato de eu residir nas suas proximidades, também foi considerado, na expectativa de que isso facilitasse a aproximação com os sujeitos envolvidos na pesquisa, aumentando as chances dos mesmos confiarem a mim informações relevantes,
7 Este estudo não é propriamente etnográfico. No entanto, pelas características assumidas em alguns momentos,
particularmente, na segunda fase. Nesse sentido, Boni e Quaresma (2005, p. 76) salientam que a confiança no pesquisador é substancial e que “quando existe uma certa familiaridade ou proximidade social entre pesquisador e pesquisado as pessoas ficam mais à vontade e se sentem mais seguras para colaborar”.
A investigação foi predominantemente de corte qualitativo. Por tal motivo, na primeira fase exigiu, seguindo a Boni e Quaresma (2005), pelo menos, três momentos na produção de dados: a pesquisa bibliográfica que “é um apanhado sobre os principais trabalhos científicos já realizados sobre o tema escolhido e que são revestidos de importância por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes” (p. 71); as observações em campo, sendo uma delas chamada de espontânea ou assistemática, “onde o pesquisador procura recolher e registrar os fatos da realidade sem a utilização de meios técnicos especiais, ou seja, sem planejamento ou controle” (p. 71); e a entrevista que, através da sociabilização entre entrevistador e entrevistado, o primeiro obtém as informações inerentes a sua pesquisa, registrando dados objetivos e subjetivos (BONI; QUARESMA, 2005). Levando em consideração que esta pesquisa tem como predomínio a análise qualitativa, durante a produção dos dados, vivenciei os três momentos supracitados, além da análise documental, que me auxiliou ao apresentar vestígios das atividades realizadas na escola, tendo em vista que
[...] o documento escrito constitui uma fonte extremamente preciosa para todo pesquisador nas ciências sociais. Ele é, evidentemente, insubstituível em qualquer reconstituição referente a um passado relativamente distante, pois não é raro que ele represente a quase totalidade dos vestígios da atividade humana em determinadas épocas. Além disso, muito frequentemente, ele permanece como o único testemunho de atividades particulares ocorridas num passado recente (CELLARD, 2012, p. 295).
Na fase de produção dos dados percebi, o quão acertadas são essas informações trazidas por Boni e Quaresma (2005). Ao me apropriar dos conhecimentos teóricos, a partir da pesquisa bibliográfica, me aproximei do tema da pesquisa, fato que orientou minha análise na parte documental, ou seja, a proposta do Programa Mais Educação. Assim, me preparei para realizar as observações com mais propriedade, com foco no que necessitava ver para conhecer a escola pesquisada e, de forma mais pontual, a dinâmica das oficinas realizadas no contexto do programa.
Além disso, através das leituras, sobretudo, dos textos norteadores do programa, produzidos pelo Ministério da Educação, foi possível vislumbrar as possibilidades que o programa propõe ao apresentar os diferentes macrocampos de ação. Estes, que sugerem
estabelecer laços entre os saberes escolares e os saberes comunitários, tendo em vista que uma das premissas do programa é aproximar os diferentes setores da comunidade, além de ampliar os temas e espaços educacionais e impulsionar a reunião dos diferentes saberes. Sobre a pesquisa bibliográfica, bem como, quanto às leituras dos documentos do programa, posso assegurar, ainda, que me deram subsídios para o melhor andamento das entrevistas, dando consistência aos questionamentos. Possibilitou-me investigar mais a fundo determinados temas.
As observações, num total de 37 idas a campo, sendo 24 de turno integral, realizadas entre os meses de março e dezembro do ano de 2015, me introduziram ao locus da pesquisa. Ocasião que me permitiu conhecer a rotina da escola, especialmente, no que se referia ao funcionamento do Programa Mais Educação. Foi nessa oportunidade que conheci cada um dos alunos participantes, os monitores do programa, professores da escola, cozinheiras e demais servidores. As observações foram o caminho escolhido para, a partir dos critérios estabelecidos, selecionar os alunos que iriam participar da etapa seguinte da pesquisa, das entrevistas.
Nostalgicamente falando, posso dizer que foi o período no qual me reencontrei com aquela que foi minha primeira escola, onde dei meus passos iniciais como discente. Também, foi esse o momento dos primeiros contatos com alguns pais e membros da comunidade local. Foi uma etapa prazerosa, pois descobri que minha história com o local, não só me ajudaria na produção dos dados a partir das entrevistas, mas, também, me proporcionaria o reencontro com pessoas que convivi durante minha infância e adolescência. Pais, tios e avós de alunos, que foram meus colegas de aula desde as séries iniciais, amigos de outras turmas, enfim, antigos parceiros de outras jornadas.
Quando comecei a realizar as entrevistas na escola, já me sentia “encharcado” das questões inerentes à sua rotina, ainda assim, com muita vontade de buscar mais, de me apropriar das opiniões oriundas dos sujeitos entrevistados. Posso dizer que é a partir das entrevistas que a investigação começou a ter um melhor delineamento, pois complementavam os dados produzidos durante as observações, neste caso, na tentativa de desvendar a práxis da escola.
Minha primeira entrevistada foi a diretora da escola. Houve uma colaboração significativa por parte dela, pois me passou informações sobre o funcionamento do programa na escola, além de falar sobre sua gestão. Vale salientar que no momento da entrevista, a diretora acumulava a função de professora comunitária (coordenadora do PME). Em função disso, realizei duas entrevistas distintas com ela, em momentos diferentes.
Depois passei a entrevistar os monitores. Esse foi um momento especialmente significativo para mim, pois surgiram falas, que mesmo após ter acompanhado por vários meses os trabalhos deles, me surpreenderam. Eu poderia dizer que foi um momento interessante para eles, por poderem desabafar suas angústias e, ao mesmo tempo, falar de suas ações nas oficinas, que contribuíram para minhas análises.
Após (e a partir) da fase inicial, comecei a fase orientada à pesquisa dos “casos selecionados”. Esta foi caracterizada, inicialmente, pelas observações orientadas aos casos estudados e pelas entrevistas com os alunos e seus familiares. Teve o objetivo de produzir dados que pudessem desvendar a questão central desta investigação. Pois, pude perceber que é a partir do estudo dos casos que surge a possibilidade de compreender as significações trazidas pelo PME, de forma subjetiva aos sujeitos da pesquisa.
Dentre os participantes do PME na escola pesquisada, foi selecionado um grupo de 8 integrantes, escolhidos a partir de observações prévias no ambiente escolar, sendo 4 com comportamentos convergentes com as expectativas do programa (o respeito pelos colegas, professores e profissionais; a cooperação durante as atividades propostas; os bons hábitos alimentares; entre outros) e 4 com atitudes inadequadas em relação as normas e regras de convivência e trabalho nesse ambiente. No entanto, no percurso da investigação não consegui contato com os familiares de um deles e segui com o grupo formado por 7 sujeitos.
Para a produção dos dados referidos aos casos foram utilizados três procedimentos: (a) Observações, constituídas de “recortes” dos diários de campo em que fiz menção dos alunos antes de eles se constituírem em casos, mais observações intencionais a partir da definição dessa condição; (b) entrevistas com os participantes selecionados e (c) entrevistas com os familiares responsáveis.
No que se refere as observações, somente iniciaram após a exposição e autorização do projeto da pesquisa à coordenadora do PME na 36ª Coordenadoria Regional de Educação e à direção da escola. No primeiro dia das observações me apresentei às crianças como professor, destacando que eu não faria intervenções com eles, mas sim, acompanharia os trabalhos realizados pelos monitores do PME. Foi notória, pelo menos nos dois primeiros encontros, a curiosidade que os alunos tinham quanto a minha presença no local. Pude sentir acolhimento desde o primeiro instante, mesmo sendo, para eles, um estranho na escola.
O objetivo dos primeiros 8 encontros observados foi distinguir, a partir dos critérios supracitados, os alunos que seriam determinados para o estudo dos casos. Assim, passei a este momento, já com minha presença mais naturalizada perante os sujeitos pesquisados. Foram
nessas observações que apareceram dados referentes as características dos sujeitos e sua rotina escolar.
No que diz respeito as entrevistas com os alunos, foi visível a ansiedade por parte dos mesmos, principalmente, os das séries iniciais. Nesse momento, percebi in loco o quão importante foi o período em que acompanhei o grupo nas observações. Eles se sentiram muito à vontade, parecia que eu era o professor que trabalhava dia a dia com eles.
A entrevista com os alunos esteve centrada em blocos de perguntas contemplando os seguintes temas: motivos que levam à participação, as preferências no programa, as mudanças de hábitos a partir da participação, desempenho na escola, relacionamento com familiares e colegas, o conhecimento dos pais sobre o PME, questões positivas e questões negativas atribuídas ao programa, conforme o Roteiro de Entrevista 1 (Apêndice A).
No que concerne às entrevistas realizadas com os familiares, fiz o primeiro contato, com alguns, na própria escola e, com outros, em suas residências. Posso evidenciar que a receptividade foi muito positiva, fortalecendo as orientações teóricas que sustentam a conveniência de permanecer um bom tempo no locus da pesquisa antes de realizar entrevistas ou abordagens mais individualizadas.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que não tive dificuldades em agendar as entrevistas, com os familiares dos alunos, notei certa insegurança em alguns casos sobre o objetivo da entrevista. No entanto, no decorrer das mesmas creio ter conseguido deixá-los mais à vontade. Também percebi que as conversas informais fluíam naturalmente, mas quando ia para as entrevistas propriamente ditas, com a gravação, havia certa apreensão inicial. Ao finalizar, quase que em via de regra, as pessoas continuavam falando sobre o tema e demonstravam estar satisfeitas com suas falas. Cada entrevista esteve centrada nos seguintes temas: desempenho do(a) filho(a) na escola, mudanças de hábitos do(a) filho(a) após o ingresso no PME?, conhecimento sobre o programa, relacionamento do(a) filho(a) com os colegas e as preferências do(a) filho(a) no programa, conforme o Roteiro de Entrevista 2 (Apêndice B).
Buscando atender os aspectos éticos de pesquisa com seres humanos, conforme estabelece a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional da Saúde, do Ministério da Saúde, o projeto deste estudo foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa - CEP – da UNIJUÍ – com o CAAE - Certificado de Apresentação para Apreciação Ética nº 43937715.9.0000.5350 e, aprovação sob protocolo nº 1109565.
A escolha dos participantes da pesquisa seguiu os critérios já apresentados no processo metodológico. Participaram de forma efetiva da amostra, 7 alunos participantes do PME e 6 familiares dos mesmos.
Foi garantida a plena liberdade ao participante da pesquisa, de recusar-se a participar ou retirar seu consentimento, em qualquer fase da investigação, bem como, a manutenção do sigilo das informações e o anonimato dos participantes, utilizando nomes fictícios. Aos sujeitos da pesquisa foram disponibilizadas duas vias de igual teor do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo que uma delas, após assinatura, ficou com o participante e a outra arquivada por este pesquisador como documento da pesquisa. Para a divulgação dos resultados desse estudo será disponibilizado um exemplar da dissertação na Biblioteca Mario Osorio Marques da UNIJUÍ. Além disso, darei retorno às instituições e sujeitos envolvidos na pesquisa. Os dados serão utilizados apenas para fins deste estudo e divulgados nos meios acadêmico e científico. Outro compromisso assumido por este pesquisador é de guardar os dados da pesquisa em arquivo físico ou digital, por um período de 5 anos e, também, pelo descarte consciente deste material após o referido período.
4 DAS CENAS DO COTIDIANO ESCOLAR ÀS PERCEPÇÕES: