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5 PROGRAMA MAIS EDUCAÇÃO: CUIDAR E EDUCAR

5.1 O PME como uma proposta que cuida dos alunos

Antes de passar às análises desta categoria, é interessante destacar que entre os sete casos estudados na segunda etapa da pesquisa, encontrei um núcleo familiar constituído de pai, mãe e filho, dois deles por filhos, mãe e padrasto e três com os filhos morando apenas com o pai ou com a mãe. Os dados são consonantes com o estudo apresentado por Sorj, Fontes e Machado (2007), que mostra no Brasil uma forte retração do número de famílias formadas por casal (homem-mulher) e filho/s. Na mesma direção, Tepedino (2001, p. 2) afirma que

[...] altera-se o conceito de unidade familiar, antes delineado como aglutinação formal de pais e filhos legítimos baseada no casamento, para um conceito flexível e instrumental, que tem em mira o liame substancial de pelo menos um dos genitores com seus filhos - tendo por origem não apenas o casamento [...].

Outra questão que penso ser pertinente realçar é o fato dos adultos que compunham os núcleos familiares participantes desta pesquisa, na sua totalidade trabalhavam. Aspecto que também vem se modificando, desde as últimas décadas do século passado, sendo cada vez menos frequente vermos famílias em que a mulher cuida apenas dos assuntos da casa e/ou dos filhos. Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA (2016) atestam o fato, já que entre os anos de 1970 e 2014 houve uma grande incorporação de mulheres no mercado de trabalho. Nesse período, a taxa de atividade feminina mais que triplicou, passando de

16 Ao utilizar o termo “cuidar e educar”, dimensiono o ato de educar como um processo propiciador de atitudes

positivas, bem como, de ampliação do universo cultural dos alunos, indo ao encontro das categorias por mim analisadas nesse tópico.

18,5% para 57%. Assim, fica uma indagação: se a mulher, que era a referência do lar, não está mais em casa durante o dia, quem cuida das crianças quando elas não estão na escola?

Dessa forma, a discussão sobre a oferta de políticas públicas que enfrentem essa questão tem sido cada vez mais relevante. Particularmente, por que:

[...] é importante ressaltar que as creches e pré-escolas, bem como as instituições educacionais dos níveis subsequentes, funcionam predominantemente em tempo parcial. Isso significa que mesmo as famílias que têm acesso a esse serviço continuam a depender de recursos privados para viabilizar a plena participação no mercado de trabalho dos seus membros adultos. Para os grupos privilegiados, a contratação de empregadas domésticas preenche a lacuna das mães no domicílio durante o período em que as crianças voltam para a casa e as mães estão ainda no trabalho. Nas camadas mais pobres, cuja insuficiência de renda não permite contratar esse serviço, as crianças quando retornam da escola ficam sob os cuidados de parentes, vizinhos, irmãos mais velhos ou permanecem sozinhas em casa (SORJ, 2001 apud SORJ; FONTES; MACHADO, 2007, p. 577)

Nesse sentido, foi possível perceber que os familiares dos discentes contemplados na pesquisa, todos de setores socioeconômicos populares, não contavam com ajuda de empregados ou auxiliares pagos para cuidar de seus filhos no período que eles estavam trabalhando, no contra turno escolar. Deste modo, de forma unânime, os entrevistados se referiram ao PME como solução plausível para esse problema. Nas entrevistas, notei que os pais ao irem para o trabalho e deixarem os filhos na escola, sabendo que os mesmos passavam o dia todo envolvidos nas atividades escolares, ficavam mais tranquilos. Observei que a confiança nessa instituição é total, pois reconhecem que a mesma é um lugar seguro para deixar as crianças e os adolescentes, uma vez que sabem o que os filhos estão fazendo, que estão sendo monitorados e que são bem tratados, inclusive, recebendo boa alimentação. Além disso, ficou clara na manifestação de todos os pais que não ter o PME seria um problema a ser resolvido. Seria bem complicado, por não terem onde deixar as crianças, que as mesmas ficariam em casa sozinhas, sem o devido monitoramento de suas ações.

Em relação a este ponto, há quem diga que esse não é o papel da escola. É possível acompanhar, em diferentes estudos (SILVA, 2013; KEMPP, 2014, MOSNA, 2014; OLIVEIRA, 2015), que o PME é reconhecido pejorativamente como assistencialista17. Sobretudo, quando se assume que a escola preenche vazios deixados pela atual conjuntura das

17 “soc doutrina, sistema ou prática (individual, grupal, estatal, social) que preconiza e/ou organiza e presta

assistência a membros carentes ou necessitados de uma comunidade, nacional ou mesmo internacional, em detrimento de uma política que os tire da condição de carentes e necessitados” (HOUAISS; VILLAR; FRANCO, 2001, p. 323).

famílias envolvidas, utilizando-se da escola como “depósito”18 de crianças e adolescentes, ou seja, como um mero lugar para deixá-las.

Sobre a referida conjuntura das famílias, busco em Arroyo (2012, p. 34-35) apoio para descrevê-la, aproveitando para mostrar os anseios das mesmas frente às políticas educacionais:

As relações humanas, familiares de cuidado e proteção dos tempos da infância são ameaçadas quando as condições sociais, materiais e espaciais se deterioram.

A mãe, as irmãs, os irmãos, os parentes são forçados a buscar longe as formas de sobrevivência, a procura de trabalho e de comida para a infância desprotegida, ameaçadas por formas tão indignas de viver. Sabemos que nas últimas décadas um dos movimentos mais marcantes nas periferias urbanas tem sido o movimento de luta pró-creche, pró-educação infantil, pró-mais tempo de escola para as crianças [...] movimento por mais direito a proteção, mais cuidado, mais tempo de dignidade para a infância popular.

Nessa perspectiva, vi nas manifestações dos pesquisados a vontade de proporcionar aos filhos oportunidades que os levem para um futuro distinto. Na visão deles, como não têm condições econômicas para buscarem alternativas na iniciativa privada, veem as atividades do contra turno escolar como facilitadora para que isso aconteça, mas, sobretudo, entendem que a escola necessita assumir o cuidado das crianças e adolescentes enquanto trabalham.

Por conseguinte, concordo com Lombardi (2006, p. 15) que a escola é “quem cuida das gerações mais jovens, notadamente quando os adultos não podem exercer esse papel por terem que trabalhar para garantir a produção de toda a riqueza social”, sobretudo, ao verificar essa lacuna no contexto das famílias por mim pesquisadas. Pensar a escola de tempo integral, a partir da situação apresentada, torna-se essencial, pois o aluno pode ser “cuidado” ao mesmo tempo em que o ensinamos. Assim, indo ao encontro das premissas do PME, “uma política de Estado que garanta mais tempo compulsório de escola poderá ser uma forma de alcançar esses direitos e uma forma de garantir mais tempo-espaço de um viver mais digno” (ARROYO, 2012, p. 35).

Vejamos o que a Constituição Federal (2015, p. 82) traz a respeito em seu artigo 227:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

18 Termo utilizado pelo coordenador e por uma monitora do PME de uma escola, em entrevista realizada no

Parece-me estar claro no marco normativo da sociabilidade democrática deste país que no momento em que as famílias passarem por dificuldades em cuidar de suas crianças e adolescentes a sociedade e/ou o Estado devam assumir essa condição. Nessa mesma lógica, podemos evocar as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (BRASIL, 2013b.) que avança nesse sentido ao indicar que o

[...] cuidar e educar iniciam-se na Educação Infantil, ações destinadas a crianças a partir de zero ano, que devem ser estendidas ao Ensino Fundamental, Médio e posteriores.

Cuidar e educar significa compreender que o direito à educação parte do princípio da formação da pessoa em sua essência humana [...]

Educar exige cuidado; cuidar é educar, envolvendo acolher, ouvir, encorajar, apoiar, no sentido de desenvolver o aprendizado de pensar e agir, cuidar de si, do outro, da escola, da natureza, da água, do Planeta (p. 17-18).

Assim, vislumbro a escola de tempo integral como uma escola reflexiva, que

“[...] na observação cuidadosa da realidade social, descobre os melhores caminhos para desempenhar a missão que lhe cabe na sociedade. Aberta à comunidade exterior, dialoga com ela. [...] Enfrenta as situações de modo dialogante e conceitualizadora, procurando compreender antes de agir (ALARCÃO, 2001, p. 26).

Ainda seguindo a ideia da autora, diante das inquietações apresentadas pelos familiares, das incertezas e inseguranças que vivemos na atual conjuntura social, a escola precisa se reconsiderar, se readaptar, se ajustar aos desejos da sua comunidade (ibidem). Ou seja, neste caso, ser um lugar para as crianças passarem o dia, com um olhar voltado ao cuidar e ao educar.

Para Titton (2015, p. 3), “pensar em formação integral pressupõe assumir a indissociabilidade entre cuidar e educar, no sentido de acolher, garantir segurança, alimentar a curiosidade, a ludicidade e a expressividade, educar cuidando e cuidar educando [...]”. Em síntese, associando esses pressupostos ao fato de que se amplia o número de educandários de tempo integral pelo país, é possível vislumbrar uma escola que contemple os anseios de pais, que teriam onde deixar os filhos enquanto trabalham.

Mosna (2014), em seu estudo realizado em onze escolas da Rede Estadual de Ensino no Rio Grande do Sul, incluindo os municípios de Porto Alegre, Canoas, Gravataí e Viamão, destaca que um dos fatores positivos do PME na visão de pais e mães entrevistados é a contribuição para que as crianças não fiquem nas ruas, em situação de risco. A autora também atribui um caráter “assistencialista” as expectativas dos pais sobre o programa, ao registrar que na fala deles há o interesse de que o PME aconteça em todos os dias da semana,

preferencialmente, se estendendo até o final da tarde para coincidir com suas saídas do trabalho. Isso também aparece quando é manifestado o interesse de o programa acontecer, inclusive, no período das férias escolares.

Vale ressaltar que os estudos supracitados (MOSNA 2014; TITTON, 2015), além de mostrarem que os pais percebem o PME, em primeiro plano, como um lugar seguro para deixar os filhos, destacam o “alto grau de satisfação” por parte deles no que tange ao desempenho escolar dos educandos. Em consonância, pelo que compreendi a partir das falas dos entrevistados em minha investigação, é que para eles o PME vai mesmo além do cuidar ou de ser apenas um lugar para deixar as crianças enquanto trabalham. Sustentam a condição da escola com esse fim sim, mas também percebem mudanças significativas na aprendizagem e nas atitudes de seus filhos a partir da participação no programa.