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Capítulo III O despertar da consciência feminina no início do século XX

III.3 A influência do feminismo ocidental na sociedade chinesa

III.3.2 Escritoras e literatura feminina representativas

A libertação do pensamento das mulheres é demonstrada nos escritos do final da dinastia Qing. Neste período, as escolas femininas começaram a estabelecer-se em maior número, pelo que a quantidade de mulheres com conhecimento cresceu. Os trabalhos que defendiam a igualdade de direitos entre homens e mulheres também foram discutidos extensivamente, entre eles, o mais representativo terá sido

Nvjiezhong59 de Jin Tianhe (金天翮, jīn tiānhé) (1874 1947), publicado em 1903. O livro é dividido em sete capítulos, que discutem, respetivamente, “Moralidade das mulheres”, “Carácter das mulheres”, “Capacidade das mulheres”, "Método de educação das mulheres ", "Direitos das mulheres", "Participação política das mulheres" e “Evolução matrimonial”. Jin usou o conhecimento da fisiologia moderna para provar que não há diferenças na estrutura entre homens e mulheres,

58 http://www.chnmuseum.cn/zp/zpml/201812/t20181218_26446.shtml, consultado em 5 de maio de 2019.

portanto, não há superioridade e inferioridade. Ele defende a educação feminina, acredita que esta tem uma grande relação com a formação da habilidade humana, se as competências femininas não são tão boas quanto a dos homens, deve-se ao facto de não terem oportunidades de educação. Além disso, Jin também propôs a participação das mulheres na política: as mulheres deveriam participar na revolução junto com os homens, derrubar o governo Qing e estabelecer um sistema republicano (Jin, 2003). O nome do livro, Nvjiezhong, significa o “sino que acorda as mulheres”. Sobre a obra, Wang Zheng, professora de estudos sobre mulheres na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, diz que quebrou o modelo de boas mães e esposas do confucionismo, que a revolução feminina preconizada por Jin era muito radical para a época, oferecendo um estímulo considerável para as mulheres que queriam saltar a barreira do género (Wang, 2003).

Depois do Movimento da Nova Cultura, o conflito entre a consciência feminina e a cultura patriarcal tornou-se um tema importante da literatura feminina, retratado por muitas escritoras. Isto pode ser confirmado a partir das obras de Xiao Hong (萧红, xiāohóng) (1911 – 1942) e Ding Ling (丁玲, dīnglíng) (1904 – 1986).

Xiao Hong nasceu em Harbin, em 1911. Foi uma escritora e uma excelente representante das mulheres intelectuais educadas após o Movimento da Nova Cultura. Os seus trabalhos refletem fortes ideias feministas: as mulheres podem não ser pequenas e os homens podem não ser grandes. As personagens femininas nas suas obras são fortes e corajosas, desejam uma vida independente, revelam ideias feministas e nunca cedem ao sistema feudal. De uma maneira geral, a imagem dos homens é de egoísmo e vulgaridade, constituindo uma sátira ao machismo (Liu, 2002).

As obras de Xiao descrevem a dura vida dos pobres, especialmente das mulheres na base da sociedade. A autora expressa a sua preocupação pela vida quotidiana e a sua consideração sobre problemas humanos básicos, nomeadamente as dualidades “humano e natureza”, "feminino e masculino", "vida e morte" (Guo, 2011). O Campo da Vida e da Morte (生死场, shēngsǐchǎng), um dos seus romances, publicado pela primeira vez em 1935, examinou as dificuldades da vida agrícola durante a década de 1920 e início dos anos trinta, em particular, o sofrimento feminino. A maioria das mulheres retratadas foi privada de uma noção de tradição,

vivia em áreas rurais remotas pouco civilizadas; as suas preocupações resumiam-se ao quotidiano - comer e vestir, casar-se e ter filhos (Xiao, 2005).

Para Wang Dewei, professor chinês da Universidade de Columbia, "quando falamos sobre a criação de escritoras chinesas modernas e as atividades das primeiras feministas, Ding Ling tem sempre um papel indispensável" (Wang, 1993). Ding Ling foi uma escritora do século XX. O Diário da Senhorita Sofia ( 莎 菲 女 士 的 日 记 , shāfēinǚshìderìjì) é uma das suas obras mais famosas. Ali, a autora retratou a consciência sexual feminina delicadamente, causando uma grande sensação durante o período do Movimento Quatro de Maio. A história, de 1927, tem relação com as experiências pessoais de depressão, cansaço e pobreza de Ding Ling durante esse período, e foi influenciada pelo romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert60. O

romance usa um diário como ponto de entrada para a narrativa, explorando os pensamentos e sentimentos de uma mulher, Sofia, especialmente as suas relações interpessoais, sexualidade e identidade. Sofia é uma mulher pessimista, neurótica e depressiva, não está interessada no homem feio que a ama, mas sim no homem bonito e infiel, Ling. A personagem espera conseguir o amor de Ling, mas quando o o conquista, ela recua (Ding, 2009). A tragédia não é apenas sua, mas também das pessoas da época que ela simboliza. A imagem de Sofia representa as mulheres durante o Movimento Quatro de Maio, que nasceram numa sociedade velha e cresceram na nova era, foram acorrentadas pelas ideias velhas, mas também receberam o impacto dos novos pensamentos.

A atenção de Ding Ling às mulheres concentra-se na revelação do seu sofrimento mental. Uma Menina Chamada Ah Mao (阿毛姑娘, āmáogūniang) é uma das primeiras obras de Ding Ling e conta a história de Ah Mao. A personagem vivia no campo, foi influenciada pela vida e pensamentos burgueses, estava cheia de ilusões sobre uma vida bonita que não se concretizou, pelo que acabou por suicidar-se (Ding, 2007). O romance descreve a angústia mental de Ah Mao, que recebeu a satisfação material, mas não está feliz, isso é o sinal de que a sua consciência "humana" começa a despertar.

Segundo o psicólogo americano Maslow, as necessidades humanas podem ser

divididas em cinco níveis: primeiro surgem as necessidades físicas, depois as necessidades de segurança, em terceiro lugar, necessidades sociais (como relacionamentos e amor), seguidas da necessidade de estima. Finalmente, a necessidade de autorrealização.61

Figura 14 - Xiao Hong62 Figura 15 - Ding Ling63

A história de mais de dois mil anos dos direitos chineses é uma história onde falta a literatura e a consciência feminina. Por causa das grandes mudanças ocorridas na sociedade chinesa no início do século XX, o feminismo emergiu gradualmente na China com o Movimento Quatro de Maio. Nesse contexto, a literatura feminina também floresceu, sendo o anti-imperialismo e o anti-feudalismo temas recorrentes nesse período. Defender a igualdade e a libertação do feudalismo foram temas predominantes na voz das mulheres avançadas da época. Elas não só desafiaram a sociedade patriarcal, mas também contribuíram com as suas vozes para a cultura dominante.

61 Abraham Harold Maslow (1908-1970) foi um psicólogo americano, conhecido pela teoria da hierarquia de

necessidades.

62 Fonte: http://www.sohu.com/a/279235192_166075, consultado em 5 de maio de 2019.