3 QUEM NÃO VIAJA, FICA – LUIZ GONZAGA E OS INTINERÁRIOS DA CULTURA BRASILEIRA
5 ENTRE O QUE É E O QUE VEM, ENTRE O QUE MUDA E O QUE FICA O TRADICIONAL E O MODERNO NA OBRA DE LUIZ
5.1 Parte 1 O homem
5.1.4 O espírito como objeto
O homem difere do animal, quando se trata de comunicação. Freire (1977), já nos chamava atenção para o fato que a existência humana se dá diferentemente da vida animal, uma vez que, enquanto uma se dá no tempo mesmo da vida do próprio homem, a vida animal e vegetal se dá num tempo que não lhes pertence, desde que lhes falta à consciência reflexiva do seu estar no mundo. Ao cotejar a comunicação humana versus à comunicação animal, abre-se o foco da amplitude do conhecimento
produzido pelo homem e diferencia-o em nuances, que apontam para o objeto de estudo e os aspectos históricos, em constante mudança.
Apesar de isolado do progresso, “sem rádio e sem notícia das terras civilizadas”, o Sertão aos poucos, ia sendo atingido pela modernidade, lentamente. É importante notar que esse movimento torna-se uma constante, provocando alterações no curso da vida das pessoas e suas relações sociais. Neste sentido, a obra de Luiz Gonzaga, como objeto de comunicação e, considerando a abrangência do conceito, produziu conhecimento, uma vez que foi tecendo um repertório que tornava vivo, de forma poética e musical, os sentimentos do homem, principalmente a sua estranheza, quanto à sensação de pertencimento à nação. A obra, na sua essência, mediaria a difusão do pensamento e estabeleceria representações sociais que davam conta desta realidade vivida pelo compositor e seus parceiros, em relação à cultura sertaneja.
Reconhecendo a historicidade das relações sociais e da cultura, percebi que para compreendê-la poderia tomar como referência a noção de representações sociais, capaz de me ajudar na explicação dos sistemas simbólicos e das múltiplas linguagens que expressam. Nesse sentido, focalizando-se ações / relações sociais e formas de interpretação do mundo, percebe-se que as representações são, também, elementos significativos da chamada realidade (VIEIRA, 2000, p. 25).
A interação com o mundo, a criação de um sistema de códigos que identificaram e representaram a cultura do Sertão nordestino, estão presentes na obra de Gonzaga, impulsionadas pelos movimentos da modernidade que chegaram, aos poucos, à região. Como comunicação humana, a obra de Luiz Gonzaga, integrada à vida e ligando prática à ação, desenvolveu um pensamento inspirado na formação de códigos próprios do Sertão, seu povo e suas práticas sociais.
Oliveira (apud 2000 VIEIRA, 2000) afirma que a música de Gonzaga é uma “produção capaz de dizer e pensar coisas, constituindo-se em um tipo especial de linguagem que reflete um diálogo entre o local e o nacional. Embora suas composições falem do Nordeste, do Sertão e de sua gente
sofrida, pode se perceber que elas extrapolam o plano do local para se situar no nacional. O Nordeste acaba se transformando numa metáfora do Brasil”.
Apesar do rádio brasileiro viver uma fase ainda em desenvolvimento, sem dúvida era o veículo de comunicação de massa mais importante da época. É importante ressaltar ainda que, nessa época, a existência da tecnologia para desenvolvimento da comunicação de massas e o conseqüente desenvolvimento das técnicas da própria comunicação, ou seja, a capacidade de produção, através de máquinas, estavam concentradas nos grandes centros urbanos. Todo o pensamento hegemônico, em termos de cultura e identidade, emanava desses centros, estimulando o consumo, através do maquinário de produção do simbólico, provocando uma disputa de mercado. Nessa época o mundo passava por situações de conflito, guerras, ditaduras e invasões neocolonialistas.
Sobrevivendo a tudo isso, a cultura nordestina, enraizada no Sertão brasileiro, começava a ser desocultada, através da obra de Luiz Gonzaga, embora o compositor não tivesse uma compreensão mais ampla desses fatos sociais. A sua visão localizada tenderia a se ampliar, quando teve ingresso na mídia radiofônica e manteve contato com a sociedade urbana, transitando em várias capitais brasileiras, tais como Rio de Janeiro e São Paulo.
No contexto mundial dessa época, a comunicação organiza-se como parte das forças de produção da sociedade, desenvolve-se e se mantém sempre em processo. Dentro desse panorama, o rádio tem papel relevante como meio de comunicação de massa. A partir das ondas do rádio, o Brasil começava a perceber que algo novo, em termos de música nordestina, estava mudando a concepção do homem daquela região, ainda hoje, pouco compreendida pelos brasileiros do Sul e Centro-Sul. O elo de ligação, ou seja, o suporte para estabelecer essa mudança, seria o rádio, proporcionando que o rural ingressasse, cada vez mais, no urbano.
Vieira (2000) afirma que “com o baião criou-se um novo ritmo, que falava não só do Sertão, mas do Brasil”. Portanto, a autora mostra que é
possível analisar a trajetória de um músico que é visto como sendo representativo de uma região, ”mas que no fundo está falando de todo seu país e da condição humana, é uma contribuição que nos permite ir do singular ao universal. (USingular U/ Sertão x Brasil UUniversalU)”.
A comunicação, ligada permanentemente à vida, vê o homem como ser social e acompanha o seu crescimento dentro da sociedade, criando sistemas de códigos próprios, capazes de proporcionar a compreensão dos movimentos dessa sociedade. Luiz Gonzaga, a partir de sua vivência, utiliza em suas composições e interpretações, sistemas de códigos próprios do Sertão nordestino, com o objetivo de ampliá-los, difundi-los, enfim, media- los através da comunicação de massas.
Aproveitei muito do folclore nordestino. Mas aí não deve se tropeçar, deve ter cuidado de dar uma nova vestimenta, aproveitando sós aquilo que a gente sente que foi feito com a imagem do povo. Se você der uma vestimenta digna e lançar um produto seu, não acontece nada com você. É muito comum o pessoal falar: “Ah, mas esse sucesso de fulano eu conheço desde menino”. Isso existia mesmo, mas, e o resto? A nova letra? Ao mesmo tempo, é necessário que se faça um trabalho sério em cima disto. A pessoa não deve matar o tema, deve melhorá-lo. “Asa Branca” era folclore. Eu toquei isso quando era menino com meu pai. Mas aí chega Humberto Teixeira e coloca: “Quando olhei a terra ardente / Qual fogueira de São João...” e se conclui um trabalho sobre “Asa Branca”. Agora, depois disso eu vou botar “tema popular?” Ou “recolhido”, “pesquisado” por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga? Aí tudo quanto é vagabundo vai ser também? Não cantando nossa letra, mas cantando com uma letra fajuta, pra pegar sucesso. E faz mal pra música. Aí nós pegamos o tema Humberto e eu (DREYFUS, 1997 p.121).