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Vozes da seca – o canto precursor da música de protesto

3 QUEM NÃO VIAJA, FICA – LUIZ GONZAGA E OS INTINERÁRIOS DA CULTURA BRASILEIRA

5 ENTRE O QUE É E O QUE VEM, ENTRE O QUE MUDA E O QUE FICA O TRADICIONAL E O MODERNO NA OBRA DE LUIZ

5.3 A luta minha música representa a luta, o sofrimento, o sacrifício do meu povo

5.3.7 Vozes da seca – o canto precursor da música de protesto

A oralidade em Luiz Gonzaga (analisada no capítulo III) e a sua relação com a cultura popular expressas nas narrativas recorrentes de sua música, descreveram as dificuldades da seca, o êxodo, o retirante nordestino, levando o compositor a mergulhar no triângulo euclidiano (Euclides da Cunha) – o homem, a terra e a luta, buscando a superação

entre o tradicional e o moderno, vista nas relações de desigualdades que este dicotomia contem em sua amplitude conceitual.

A obra de Gonzaga sempre teve, como contexto, o panorama que se descortinava no Sertão, sempre ameaçado pelos maus tempos da seca, quando a estiagem provocava o êxodo rural, uma espécie sutil de diáspora, arrancando do próprio solo, o homem, em sua luta para sobreviver. Por outro lado, as desigualdades sociais resultantes de uma sociedade com resquícios feudais, representadas pelos coronéis e proprietários de grandes latifúndios, agravavam, ainda mais, a situação. Compreendemos como diáspora, o movimento migratório na região, uma vez que o êxodo rural é aparentemente espontâneo.

Portanto, o que se observa, é que o homem pobre migra, por falta absoluta de condições de sobrevivência e de uma política governamental capaz de reter o camponês em seu habitat natural. Com isso, os problemas de fome, desemprego, saúde, educação e habitação transferem-se para a zona urbana, agravando-se mais ainda. Gonzaga tinha consciência disso e expressou esse sentimento em várias de suas composições, principalmente em Vozes da Seca, nos versos “Seu Dotô uma esmola/ para um home que é são/ ou lhe mata de vergonha/ ou vicia o cidadão”.

Em que pese à importância do aporte euclidiano, Gonzaga vai além da visão de Euclides da Cunha, uma vez que o compositor, sentiu que não bastava constatar a realidade nordestina e seus problemas sociais, ao tomar consciência decidiu que era necessário difundir, através de sua arte, com o objetivo de difundir essa realidade adversa ao homem em seu habitat, no sentido da sua superação.

Apesar de Luiz Gonzaga e Zé Dantas serem os primeiros a dar a famosa esmola aos nordestinos, organizando campanhas de ajuda para os flagelados, recolhendo dinheiro, roupa e comida que mandavam para o Norte, estavam conscientes de que a solução não era essa, e que o problema era político (DREYFUS, 1997, p.190).

A modernidade da cidade grande, a partir da arte de Luiz Gonzaga, começava, então, os nordestinos passaram a ouvir uma música que trazia no seu conteúdo a consciência de seus autores em relação aos verdadeiros valores do homem do nordeste e os problemas de sua terra.

Entretanto, como observa Dreyfus (1997), apesar de ainda não existir e conceito de música de protesto, na época, a denúncia contida em “Vozes da Seca”, marcou profundamente Gonzaga, que, “assumindo então uma postura de cantor de protesto procurou traduzir, nas músicas que cantava, os problemas do Nordeste, embora que, num repertório de centenas e centenas de músicas, apenas umas dez são reais e conscientemente, músicas de protesto. “ Discordamos de Dreyfus, neste ponto, afirmando que , embora a maior parte das músicas não fossem de protestos, a quantidade ultrapassa em muito as dez músicas apontadas pela pesquisadora.

Importante notar que, das observações de Dreyfus (1997), nos parece uma das mais importantes, a afirmação de “na verdade, as criações de Gonzaga e seus parceiros constituíram, sobretudo, crônicas sobre o Nordeste, sua cultura, sua sociedade, Useus modos, suaU UfalaU.

(grifo nosso) E, na simplicidade do fato contado, da situação descrita, destacava-se a denúncia de um povo sofrido, mesmo que alegre e corajoso: os nordestinos” (DREYFUS, 1997, p.190).

Aqui, abre-se um espaço para a profunda relação que existe entre cultura e arte. A arte (Madeira e Veloso, 1999), é vista não só como a procura, mas como a própria concretização de uma linguagem singular. Toda obra de arte, por mais que expresse a individualidade do artista, contem uma dimensão universal, que é uma espécie de totalidade contida na arte, que revela, segundo Mário de Andrade, a marca recorrente em todas as manifestações do espírito humano.

Eu ia contando as coisas tristes do meu povo, que debandava do Nordeste pro Sul em busca de melhores dias, de trabalho. Porque lá chove no período exato, lá se

sabe o que são as estações. No Nordeste, as intempéries do tempo são todas erradas. Quando é pra chover não chove, então o povo vai procurar trabalho no Sul e o Nordeste vai se despovoando... Então, minha música representa a luta, o sofrimento, o sacrifício de meu povo (GONZAGA apud DREYFUS, 1997, p. 190).

Daí a importância das narrativas na obra de Luiz Gonzaga, pelo que elas acrescentaram à compreensão da cultura nordestina, principalmente o Sertão, que já tinha sido pesquisado, analisado e descrito por Euclides da Cunha, como falamos no capitulo sobre identidade cultural brasileira. Já observara Dreyfus (1997) que “através de um repertório baseado em enredos extremamente cinematográficos, visuais, fortes, Luiz Gonzaga era um dos primeiros artistas a falar de ecologia, de problemas raciais, sociais, econômicos, fosse para criticar ou para elogiar. O artista que era possuía a sensibilidade, a inteligência, a consciência para sentir profundamente os problemas”.

Na verdade a grande travessia de Luiz Gonzaga, se daria dentro do seu próprio país, saindo do pé de serra, no sertão do Araripe, rumo à cidade grande, na certeza de que escreveria uma nova história da cultura nordestina, rompendo com a dicotomia entre tradicional e o moderno, consciente de que, dentro de sua música, o sentimento traduzia os valores e crenças de seu povo, sua terra e a experiência acumulada pela vivencia que tinha do sertão. Gonzaga e seus parceiros desenvolveram uma arte nômade, na verdadeira acepção do conceito, pois transitavam pelo País, levando a música que traziam das origens, sem, contudo, deixar de registrar o que viam, sentiam e admiravam por onde passavam.