não apareceram de novo.
Da varanda, observei a Ash e o Matthew
entrarem nocarro e se afastarem, meu coração pesado de arrependimento e um bilhão de outras coisas. Não precisei olhar para trás para saber que o Daemon veio se juntar a mim. Acolhi de bom grado o calor e a força de seus braços ao me envolverem por trás.
Recostei no peito dele e fechei os olhos. Ele apoiou o queixo no topo da minha cabeça e ficamos assim por alguns minutos, o silêncio quebrado apenas pelo piado de um pássaro solitário e uma buzina ao longe. Seu coração batia de maneira forte e ritmada contra minhas costas.
— Sinto muito — disse ele, me pegando de surpresa. — Pelo quê?
Daemon inspirou fundo.
— Eu não devia ter perdido a cabeça no fim de semana passado. Você agiu certo ao dizer ao meu irmão que iríamos ajudá-lo. Caso contrário, só Deus sabe o que ele já teria feito. — Fez uma pausa e beijou o topo da minha cabeça. Sorri. Daemon era tão compreensivo! — Obrigado por tudo o que você tem feito pelo Dawson. Mesmo que o nosso sábado vá ser uma droga, meu irmão… ele está diferente desde a noite dos zumbis. Não como era antes, mas perto.
Mordi o lábio.
— Não precisa me agradecer por isso. Sério. — Preciso, sim. E quero.
— Tudo bem. — Vários segundos se passaram. — Você acha que a gente cometeu um erro? Deixando o Blake escapar naquela noite?
Seus braços me apertaram ainda mais. — Não sei. Realmente não sei.
— Nossa intenção foi boa, certo? Queríamos dar uma chance a ele, eu acho. — E, então, soltei uma risada.
— Por que o riso? Abri os olhos.
— O inferno está cheio de boas intenções. Devíamos ter acabado com ele.
Daemon abaixou a cabeça e pousou o queixo no meu ombro. — Antes de te conhecer, eu talvez tivesse feito exatamente isso. Virei a cabeça para ele.
— Como assim?
— Antes de você aparecer na minha vida, eu teria matado o Blake pelo que ele fez e depois me sentido péssimo, mas teria. — Pressionou um beijo contra a veia em meu pescoço. — De certa forma, você me convenceu. Não da maneira como a Dee pensa, mas sim pelo fato de que você poderia ter acabado com ele e não fez isso.
Tudo a respeito daquela noite parecia caótico e surreal. O corpo sem vida do Adam… o ataque dos Arum… Vaughn e o revólver… Blake fugindo…
— Não sei, não.
— Eu sei — retrucou ele, os lábios se abrindo num sorriso em contato com meu rosto. — Você me faz pensar antes de agir. Me faz querer ser uma pessoa… um Luxen… melhor.
Virei-me de frente para ele e ergui os olhos. — Você é uma boa pessoa.
Daemon deu uma risadinha, os olhos cintilantes.
— Gatinha, nós dois sabemos que meu lado bom só aparece de vez em quando.
— Não…
Ele pousou um dedo sobre meus lábios.
— Eu tomo péssimas decisões, posso ser um babaca e faço isso de propósito. Tendo a forçar as pessoas a fazerem o que eu quero. E deixei que tudo o que aconteceu com o Dawson intensificasse esses… traços de personalidade. Mas… — Retirou o dedo e abriu um largo sorriso. — Mas você… você me faz querer ser diferente. Foi por isso que não matei o Blake. Por isso não quero que seja obrigada a tomar uma decisão dessas e nem que esteja perto de mim se eu resolver tomar.
Fiquei sem palavras ao escutá-lo admitir tudo aquilo. Mas, então, ele abaixou a cabeça e me beijou, e entendi que às vezes, quando alguém diz algo devastadoramente perfeito, não é preciso resposta. As palavras ficam subentendidas.
Passei a manhã do sábado
com minha mãe. Tomamos um cafégorduroso, daqueles que entopem artérias, numa das filiais da International House of Pancakes, a cadeia de restaurantes especializados em panquecas, e, em seguida, passamos quase duas horas fazendo compras numa daquelas lojas de um e noventa e nove. Em geral, eu preferiria arrancar as pestanas a perambular por aqueles corredores, mas queria passar um tempo com a minha mãe.
À noite, Daemon e eu iríamos encontrar o Blake — só nós dois, a pedido do surfista. Matthew e Andrew ficariam no estacionamento para espionar e nos dar cobertura, uma vez que a Dee e o Dawson, por motivos muito diferentes, tinham sido proibidos de se aproximarem do local de encontro.
Não havia como prever o que iria acontecer. Esse talvez fosse meu último sábado, meu último qualquer coisa com a minha mãe. O que tornou a experiência toda amargamente doce e assustadora. Senti vontade de contar a ela o que estava acontecendo várias vezes durante o café e o trajeto de
carro, mas não podia. Mesmo que pudesse, provavelmente não encontraria palavras. Ela estava se divertindo — adorando passar um tempo comigo — e eu jamais conseguiria arruinar o momento.
Mas os e se me assombravam. E se fosse uma armadilha? E se o DOD ou o Daedalus nos capturasse? E se eu acabasse como a Beth e minha mãe jamais me visse de novo? E se ela se mudasse de volta para Gainesville para fugir das lembranças da nossa vida?
Quando por fim chegamos em casa, eu estava certa de que ia vomitar. A comida revirava no meu estômago. Estava me sentindo tão mal que fui me deitar enquanto mamãe descansava um pouco antes de sair para o plantão.
Após cerca de uma hora olhando para a parede, Daemon me mandou uma mensagem e eu lhe disse que ficasse à vontade para aparecer quando bem quisesse. Mal havia terminado de enviar a resposta quando senti o familiar arrepio quente na nuca e me virei para a porta do quarto.
Ele a abriu e entrou sem fazer o menor barulho, os olhos brilhando diabolicamente.
— Sua mãe está dormindo? Fiz que sim.
Seus olhos perscrutaram meu rosto e, em seguida, ele fechou a porta. Meio segundo depois, estava sentado ao meu lado, as sobrancelhas franzidas.
— Você está preocupada.
Como ele sabia eu não fazia ideia. Fiz menção de negar, porque odiava a ideia de vê-lo preocupado comigo ou de ele achar que eu era fraca, mas não queria dar uma de forte no momento. Precisava de conforto — precisava dele.
— É, um pouco. Ele sorriu.
— Vai dar tudo certo. Não deixarei que nada de mau aconteça com você.
Daemon correu as pontas dos dedos pelo meu rosto, e dei-me conta de que eu podia ser as duas coisas. Podia surtar um pouco e precisar do carinho
dele e ao mesmo tempo me levantar às seis e ir ao encontro do nosso destino de cabeça erguida. Eu podia ser ambos.
Céus, realmente precisava ser um pouco de cada.
Sem dizer nada, afastei-me para lhe dar espaço. Ele se meteu debaixo das cobertas e passou um braço pesado em volta da minha cintura. Aconcheguei-me a ele, apoiando a cabeça sob seu queixo e fechando as mãos sobre seu peito. Com as pontas dos dedos, desenhei um coração sobre o dele. Daemon riu.
Ficamos ali deitados por umas duas horas. Conversamos um pouco e rimos baixinho, tomando cuidado para não acordar minha mãe. Tiramos um pequeno cochilo até que acordei, enroscada em seus braços e pernas. Também nos beijamos algumas vezes, e os beijos… bem, eles tomaram quase todo o nosso tempo.
Daemon beijava maravilhosamente bem.
Com os lábios inchados, observei-o sorrir, as pálpebras pesadas, mas, por trás delas, seus olhos eram da cor da grama úmida da primavera. Seu cabelo enroscava na altura da nuca. Eu adorava correr os dedos pelas mechas, observando-as se esticar e, em seguida, encolher novamente. E ele gostava quando eu fazia isso. Daemon fechou os olhos e inclinou a cabeça de lado para que eu tivesse um melhor acesso, tal como um gato se espreguiçando para ser acariciado.
Ah, as pequenas coisas da vida!
Ele pegou minha mão quando a deslizei de volta, acariciando os músculos fortes de seu pescoço, e levou a palma aos lábios. Meu coração deu uma pequena cambalhota e, então, ele me beijou de novo… e de novo. Sua mão escorregou para o meu quadril, os dedos se fechando em volta do cós do jeans antes de deslizarem por baixo da bainha da camiseta, fazendo minha pulsação ir a mil. Em seguida, me virou e se deitou por cima de mim, e seu peso provocou reações ensandecidas em minhas entranhas.
Ao sentir suas mãos subirem ainda mais, arqueei as costas. — Daemon…
Sua boca silenciou o que quer que eu fosse dizer, esvaziando meu cérebro. Por um momento, foi como se só houvesse nós dois no mundo.
A preocupação pelo que teríamos que fazer mais tarde simplesmente sumiu do meu radar. Enganchei uma perna na dele e…
Escutei o som de passos atravessando o corredor.
Daemon desapareceu de cima de mim e ressurgiu ao lado da cadeira da escrivaninha. Com um sorrisinho desavergonhado, pegou um livro enquanto eu me recompunha.
— O livro está de cabeça pra baixo — alfinetei, passando a mão pelo cabelo para ajeitá-lo.
Com uma risadinha por entre os dentes, ele virou o livro e o abriu. Segundos depois, mamãe bateu à porta e entrou. Seus olhos recaíram sobre a cama e, em seguida, se voltaram para a cadeira.
— Olá, sra. Swartz — cumprimentou ele. — A senhora parece bem descansada.
Fuzilei-o com os olhos e cobri a boca com a mão para abafar o riso. Ele havia escolhido uma daquelas histórias românticas cuja capa mostra um mocinho seminu de peito largo prestes a devorar a mocinha peituda.
Minha mãe arqueou uma sobrancelha. Sua expressão dizia basicamente: “Que porra é essa?” Quase caí na gargalhada.
— Boa noite, Daemon. — Ela se virou para mim e estreitou os olhos.
Um cara de tanguinha?, perguntou ele, movendo apenas os lábios e
revirando os olhos.
— Quarto aberto, Katy. — Ela voltou para junto da porta. — Você conhece as regras.
— Desculpa, não queríamos te acordar.
— Muita consideração, mas mantenha a porta aberta.
Assim que ela saiu, Daemon jogou o livro em cima de mim. Ergui a mão, fazendo-o parar em pleno ar, e o peguei.
— Excelente escolha. Ele estreitou os olhos. — Cala a boca.