O fenômeno esportivo vem tendo sua área de investigação expandida, tornando- se objeto de estudos que, ao ampliarem sua esfera de observação, o aproximam de discussões relativas a várias áreas. Segundo Bittencourt et al (2009:9), apoiado por Suassuna (2007), ao esporte sempre foi relegada, por parte do Estado brasileiro,
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“posição secundária frente a outras questões” ou áreas, mesmo após o reconhecimento deste conteúdo como um problema de políticas públicas.
No entanto, entre a década de 1920 e o final da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se no mundo um movimento de promoção do bem-estar social pelos governantes, política que ficou conhecida como Welfare State, caracterizada principalmente pela intervenção do Estado em setores diversos. Nesse momento, o Estado passou a centralizar o poder de promover melhorias nas condições da população, em várias áreas, inclusive no esporte e no lazer (MEDEIROS, 2001; VIEIRA e VIEIRA, 2007).
O Brasil, seguindo a tendência mundial, inicia a proposição de ações que impulsionem o esporte no país, a partir da Década de 1930, no Governo de Getúlio Vargas. Entre os anos de 1930 e de 1940, são instituídos a Divisão de Educação Física, vinculada ao Ministério da Educação e Saúde, a Escola de Educação Física da Universidade do Brasil (atual UFRJ) e o Conselho Nacional de Desportos (CND) (BITTENCOURT et al, 2009). Além disso, em 1941, o decreto-lei n. 3199/41 objetivava “disciplinar o esporte brasileiro” (CASTELLANI FILHO, 2007:2).
Segundo Mascarenhas (2007:20), após a Segunda Guerra Mundial, “ao lado dos direitos civis e políticos, os direitos econômicos, sociais e culturais passam a constar na agenda internacional, sendo considerados prerrogativa essencial de respeito à vida e à dignidade humanas”. Em 1948, o lazer, presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), “passa a adquirir o status de direito social básico”, tal qual a saúde, educação, habitação, dentre outras áreas.
O autor destaca que o Brasil não aderiu imediatamente à Declaração dos Direitos Humanos de 1948, a qual inicialmente funcionou como uma “recomendação”. A fim de determinar a vinculação jurídica dos dispositivos da Declaração, foi aprovado pela ONU, em 1966, o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, o qual o Brasil ratificou somente em 1992.
Em meados da Década de 1970, foi criado o Programa Esporte para Todos (EPT), que teve por objetivo desenvolver aspectos como saúde, civismo e adesão à prática esportiva, e a Lei 6251/75, com objetivo de melhora da aptidão física da população (DED/MEC, 1976; DED/MEC,1978; CASTELLANI FILHO, 2007). Características como civismo, promoção de saúde e performance apontam para o pensamento típico deste momento nacional, em que os militares detinham o poder.
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Sobre o EPT, Mascarenhas (2007:23) afirma: “sob o pretexto da democratização e universalização das atividades físicas e desportivas, o direito ao esporte e [...] ao lazer apresentavam-se como importantes instrumentos de controle e garantia da chamada paz social”, fortalecendo o aspecto funcional dos mesmos.
Em 1988, o esporte (ou desporto) é tratado no Artigo 217 da Constituição Federal, o qual determina como dever do Estado o fomento a “práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um”, incentivando o lazer como forma de promoção social. Apoiado posteriormente pela Lei 9615/1998, o esporte passa a ser tratado em suas três dimensões: esporte educacional, esporte de rendimento e esporte de participação.
A legislação brasileira concernente às questões relacionadas ao esporte foi formada ainda pelas leis 8650/1993, 8672/1993 (Lei Zico), 9615/1998 (Lei Pelé), 10671/2003 (Estatuto de Defesa do Torcedor) e 10672/2003, regulamentadas pelos decretos 981/1993, 2574/1998, 3944/2001 e 4201/2002 (BRASIL, 1988; MANOLE, 2003; ALVES e PIERANTI, 2007).
Essa legislação determina, dentre várias outras questões, a criação do Plano Nacional do Desporto e do Sistema Brasileiro do Desporto, composto pelo Ministério do Esporte, o Conselho Nacional do Esporte (CNE) e o Sistema Nacional do Esporte (formado pelo Comitê Olímpico Brasileiro – COB, Comitê Paraolímpico Brasileiro, Entidades Nacionais de Administração do Desporto, Entidades Regionais de Administração do Desporto, Ligas Regionais e Nacionais, e entidades de prática esportiva filiadas ou não às anteriores) e os Sistemas de Desporto dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios (MANOLE, 2003).
Destarte, a partir da Constituição Federal de 1988, houve uma mudança nas responsabilidades de oferecimento das políticas públicas de esporte e lazer. Para GUIMARÃES (2007:345), “o modelo de descentralização proporcionou uma mudança no planejamento e execução das políticas públicas”, direcionando para o âmbito local (estados e municípios) a “responsabilidade por diversas ações em várias áreas”, tornando-se os atores locais os elementos executores dos programas, o que tornou necessária a melhoria da qualificação das burocracias locais. A municipalização trouxe, então, uma nova responsabilidade para os municípios, em vários setores, mesmo que na prática, ao longo dos anos, esta ação se desenvolva de forma lenta e nem sempre com tanta autonomia em relação ao governo federal (ARRETCHE,1999).
A municipalização das Políticas de Esporte origina um momento de grandes avanços, pela criação de um Ministério próprio, inicialmente vinculado a outros setores
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(Educação, Turismo) e posteriormente independente. Sua orientação de descentralização foi no sentido de oferecer um norte, agir como incentivador e em muitos casos financiador das políticas estaduais e municipais.
Como tentativa de uma participação mais efetiva de representações locais e de pesquisadores e acadêmicos relevantes ao estudo das políticas públicas de esporte e lazer nos processos decisórios referentes aos objetivos, diretrizes e bases de uma Política Nacional de Esporte, foram realizadas, em 2004 e em 2006, respectivamente, a I e a II Conferência Nacional de Esportes, as quais reuniram, em Brasília, delegados escolhidos em assembleias estaduais e municipais de todo o Brasil. Há a previsão da III Conferência Nacional, a ser realizada entre os dias 03 e 06 de junho de 2010 (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2006; MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2010; ALVES e PIERANTI, 2007).
Essa busca por maior participação de cidadãos em nível local e de figuras importantes no cenário acadêmico se dá como uma consequência do que afirma Cristan (2002): até os dias atuais, percebe-se ainda uma grande influência de questões políticas na escolha de direcionadores de propostas de políticas de esporte e lazer. Dessa forma, são raros gestores especializados e sem a restrição ao sentido de compensação ou do objetivo de rendimento por si só, atentando para a acepção do papel educativo e de participação do esporte (CASTELLANI FILHO, 1996; VIEIRA e VIEIRA, 2007).
É fundamental destacar, apoiando-se em Lazzarotti Filho (2007), que os instrumentos legais, por si só, não garantem o acesso à política pública de esporte e lazer, sendo necessário que, além do desenvolvimento de instrumentos legais, haja a organização social em favor da reivindicação de direitos e da cobrança de sua efetiva implementação.