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ESTADO E CAPITALISMO

No documento olegabramovjunior (páginas 59-72)

Debater o tema Estado é empreendimento complexo e, por mais que se possa tentar dar conta da multiplicidade de interpretações e nuances, dificilmente será um esforço completamente esgotado. Para realizar uma empresa já presumivelmente limitada, opta-se por adotar duas circunscrições: primeira, abordar o tema na perspectiva da relação que possui com a economia capitalista e, com menor ênfase, com as classes sociais; segunda, trilhar a evolução do debate sob o ponto de vista marxista revisitando alguns dos seus mais proeminentes autores, para, na sequência, confrontar suas conclusões com as abordagens neoinstitucionalista e regulacionistas.

Segundo Abramov(2008), Marx não elaborou uma, mas quatro versões explicativas do fenômeno Estado no capitalismo. A primeira, do período juvenil, é elaborada em oposição à perspectiva aristotélica e hegeliana que o define como entidade voltada à materialização do bem comum. Nesta, descreve o Estado como sendo uma abstração da realidade material cuja substancia é o conflito. Na sequência, quando se engaja no movimento operário, elabora em colaboração com Engels, o que se pode chamar de “teoria do Estado capitalista em geral”. Nessa versão, o Estado torna-se uma derivação superestrutural, instrumentalizada como

aparelho de dominação de classe, cuja função é assegurar os interesses comuns de toda burguesia. A terceira versão é a denominada “teoria do Estado capitalista em particular”, que aparece nos escritos históricos de Marx, especialmente no momento em que analisa a França. As especificidades histórico-conjunturais complexificam na medida em que Marx desce ao detalhe da dinâmica político-partidária. Nesta, o campo político passa a ser observado por meio de uma relativa autonomia em relação à base material. A última, que pode ser denominada de “teoria do Estado em transformação”, é na qual Marx já começa a verificar os contornos que viriam a se desenvolver plenamente mais tarde. Na quarta versão, são retratadas as primeiras políticas de caráter regulatórias no campo social fazendo emergir a possibilidade de que o fenômeno não seria apenas um aparelho coercitivo, mas algo mais sofisticado.

No texto “O Estado e a Revolução” Lênin (1977) desenvolve uma perspectiva que, na verdade, dá sequência à teoria marxiana do “Estado capitalista em geral”. Segundo sua visão, nas condições do capitalismo avançado, o aparato estatal seria um instrumento de dominação a serviço da burguesia. É por meio dele que os Estados mais desenvolvidos subjugam as nações atrasadas e instrumento por meio do qual a classe dominante articula os meios legais para a realização da exploração. Sua função suprema seria a de reprimir os trabalhadores através da coerção física.

Pode-se dizer que Marx e Lênin compartilham duas condições que influenciam suas respectivas análises do fenômeno Estado. O primeiro relaciona-se à influência contextual. O fato de ambos terem vivido uma realidade histórica na qual o Estado ainda não havia desenvolvido diversas das atribuições que lhe caracterizariam mais tarde, tornavam o objeto observado algo, pelo menos, muito próximo daquilo que descreveram. Portanto, no caso de Marx, como vivia o século XIX e, no caso de Lenin, como dava particular atenção à Rússia Czarista, o Estado contemplado pelos dois não era nada além de órgão repressor. O segundo sim é tributário da opção metodológica. O materialismo histórico determina os fenômenos políticos, ainda que em última instancia, como derivação da base material, daí ambos buscarem pelas razões explicativas fora da esfera política (COUTINHO, 1989).

Gramsci (2007), que viveu já no contexto da Itália do século XX, foi capaz de apresentar uma versão mais sofisticada, criando uma importante variante do marxismo que lega maior importância ao Estado e aos fenômenos a ele diretamente relacionados. O autor elabora a teoria do “Estado ampliado” pela justaposição de duas realidades, de um lado, o núcleo estatal preserva as características marxianas-leninistas de aparelho repressor, de outro,

vicejam estruturas voltadas à construção do consentimento, na forma de uma “trama privada”, cuja finalidade seria instituir uma ideologia capaz de circunscrever e legitimar a dominação. Consequentemente, o Estado passa a ser, ao mesmo tempo, sociedade política, formada pelos mecanismos pelos quais a classe dominante mantém o monopólio da repressão, e sociedade civil, composta pelo conjunto de organizações responsáveis pela elaboração e manutenção de estruturas ideológicas inibidoras de conflitos, tais como o sistema escolar, religião e partidos.

Na sequência, já no contexto dos anos sessenta e setenta do século passado, uma rica safra de trabalhos tornou a leitura marxista sobre o Estado cada vez mais complexa. Dentre eles destacam-se Althusser, O´Connor, Hirsch, Poulantzas, Offe, Elster e Przeworski. Os quatro últimos serão sumariamente debatidos a seguir sob o angulo de sua relação com a reprodução do capitalismo e com a dominação política de classe.

Começando por Poulantzas (2000), Carnoy (1990) afirma existir duas fases bem distintas em sua obra. Na primeira delas, sob forte influência de Louis Althusser possui uma orientação marcadamente estruturalista. Mais tarde, a partir da obra “Classes e Capitalismo Contemporâneo”, o autor começa a abandonar este viés em favor de um modelo histórico- específico, o que o leva a propor que as relações entre Estado e classes se alteram em cada estágio do desenvolvimento capitalista e que os aparelhos do primeiro seriam arena de disputas entre capitalistas e trabalhadores, unindo os primeiros e alijando os segundos. Já no livro “O Estado, o Poder, o Socialismo” (POULANTZAS, 2000), produz a versão definitiva de sua obra política ao ultrapassar o marxismo ortodoxo. Nesta, o autor afirma que o Estado não seria mero “reflexo superestrutural” da base econômica material, mas um conjunto de aparelhos portadores de materialidade e racionalidade próprias.

Focando na terceira versão, verifica-se uma concepção de Estado dividido em duas partes, que não por isso deixam de ser integradas. Ao mesmo tempo em que é composto por aquilo que chama de “ossatura institucional” ou núcleo técnico, também possui um invólucro de classe que o enreda complexificando-o. A dupla dimensão designa o Estado como possuidor de uma parte vital, separada das classes e lutas, e outra “colonizada” por intermédio de estruturas de dominação de classe. Portanto, não haveria uma natureza de classe a priori, mas uma contaminação do Estado por interesses estranhos que se desenvolvem fora dele.

Na relação com a economia, Poulantzas (2000) sugere que o Estado conserva uma autonomia relativa, de certa forma semelhante à que possui em relação à luta de classes. A economia não é tida como fechada e nem é vista como capaz de se reproduzir autonomamente. Diferentemente, em seu julgamento, o Estado sempre interveio nas relações

de produção e o político sempre exerceu uma função constitutiva nas relações de produção. Mesmo no capitalismo nascente, o Estado se faz presente ao estabelecer uma ordenação jurídica para as relações contratuais, fossem elas entre os próprios capitalistas ou entre estes e os trabalhadores. O capitalismo, segundo Poulantzas (2000), não separa ou aproxima as dimensões política e econômica, mas cria novos espaços de articulação entre elas, e, na medida em que o capitalismo se expandiu, a presença do Estado na economia foi diversa, variando segundo o momento e lugar e, em geral, avançou de um estágio liberal em direção ao intervencionismo.

Detalhando a análise das instituições que compõem o Estado no capitalismo, Poulantzas (2000) destaca quatro elementos que deslocam a luta de classes do campo econômico para o político: a divisão entre trabalho intelectual e material, a individualização, o direito e a nação.

O capitalismo é o responsável pela separação dos trabalhos material e intelectual de maneira que passou a caber ao Estado consolidá-la e reproduzi-la, incorporando a ciência aos seus mecanismos, investindo na produção de conhecimento, cooptando peritos, etc. Por meio do sistema jurídico, articulado a sua ideologia política, o Estado normatizou a individualização gerada pelo mercado competitivo. Formalmente, as pessoas passaram a ser tratadas como indivíduos e não membros de classe e, enquanto a produção separa, coube ao Estado reunificar as classes sociais. Para tanto, tomou a posição de representante dos interesses coletivos dos membros da sociedade que competem entre si. Foi essa coesão e normatização legal, que permitem e impulsionam a reprodução das relações capitalistas, tais como contratos, regras de relações de trabalho e currículos escolares. A legalidade formal é preservada pelo direito que, ao estabelecer as normas de conflito, desloca, como dito, a luta de classes da arena econômica para a política. Simultaneamente, compete à nação contribuir na uniformização social, separando os indivíduos das lutas reais por uma readequação da relação espaço-tempo, que deriva de fatores como território, língua e moral. Logo, ao mesmo tempo em que os membros da sociedade são unificados no interior do espaço nacional, também são diferenciados no plano internacional por meio de leis e uma série de regras, tradições e valores, todos estes elementos emanados da classe dominante (POULANTZAS, 2000). É dessa forma que o Estado se torna uma entidade vital para a existência do capitalismo.

Outra dimensão inovadora, que surge nessa fase da produção poulantziana, é a potencialização do protagonismo dos trabalhadores nas lutas políticas. Segundo Carnoy (1990), Poulantzasverifica que o Estado representativo cria condições para que os

trabalhadores se organizem a fim de refrear a ação negativa de seus aparelhos e assumir condições de reunir forças para alcançar o poder político.

O Estado não se apresenta acima da luta de classes. Por intermédio de sua autonomia, busca unificar as frações da classe dominante num “bloco no poder”, porém, como sua política resulta dos conflitos inerentes a sua estrutura, ele deve também mediar as lutas entre os grupos dominantes e dominado, e, mesmo buscando enfraquecer os trabalhadores, existe a possibilidade de que a classe oprimida alcance êxito na disputa pelo seu controle (CARNOY, 1990; POULANTZAS, 2000).

Clauss Offe se dedica a buscar esclarecer as características específicas do Estado contemporâneo nas condições do capitalismo avançado. O autor rejeita a versão defendida pela variante funcionalista do marxismo que caracteriza o Estado como instrumento de classe. No lugar estabelece que o Estado “protege e sanciona instituições e relações sociais que, por sua vez, constituem o requisito institucional para a dominação de classes do capital” (OFFE; RONGE, 1984, p. 123). Significa que ele institucionaliza as regras que reproduzem as relações de classes, de maneira que o Estado “não defende os interesses particulares de uma classe, mas sim os interesses comuns de todos os membros de uma sociedade capitalista de classes” (OFFE; RONGE, 1984, p. 123). Desta maneira, o Estado é conceituado como uma forma institucional do poder público que se relaciona com a produção material de forma a se caracterizar por quatro “determinações funcionais”: produção sob controle e organização privadas; dependência de impostos; centralidade da acumulação, e; legitimação democrática. A política do Estado, segundo os autores, torna-se um conjunto de estratégias mediante as quais objetiva compatibilizar estas quatro determinações estruturais.

O Estado não é capaz de produzir riqueza material, segundo seus próprios critérios burocráticos, não compete como uma empresa privada e, por isso, não sofre dos mesmos constrangimentos e motivações que regem o mercado capitalista. Entretanto, necessita que a acumulação seja vultosa e que parte desta seja transferida, na forma de impostos diretos e indiretos, da apropriação privada para seus próprios cofres. Não sendo assim, sua capacidade administrativa fica comprometida, podendo padecer de um fatal desequilíbrio. Como o Estado é dependente de recursos que não podem ser gerados por ele próprio, o interesse imediato dos detentores do poder político-administrativo é criar condições que favoreçam a acumulação privada. Contudo, esse não é o único meio de assegurar sua capacidade administrativa, pois, em condições democráticas, o apoio majoritário deve ser alcançado pelas políticas que não são enfocadas no processo de acumulação, mas, ao contrário, no bem-estar das maiorias.

Consequentemente, junto à preocupação com a manutenção da acumulação capitalista, o Estado precisa se legitimar (OFFE; RONGE, 1984).

Como o capitalismo apresenta uma tendência à desmercantilização, ou seja, como a forma mercadoria deixa de reinar sobre as relações sociais em consequência do desenvolvimento histórico de mecanismos não mercantis, tais como os monopólios e os bens públicos, a economia capitalista passa a ser confrontada a uma forte tendência à paralisia nas relações de troca. Com esse processo, a acumulação é prejudicada e a sua legitimidade social sofre questionamentos. Daí Offe e Ronge (1984) argumentam que a função moderna do Estado capitalista se tornou a produzir políticas de “remercadorização administrativa” com a finalidade de preservar a si próprio. O Estado não desempenha esta função visando viabilizar interesses externos a ele, ao contrário, a principal motivação deriva do autointeresse.

Na versão de Offe e Ronge (1984), a associação existente entre o capitalismo e o Estado não se dá por meio do controle direto de uma classe, mas pela dependência institucional do segundo em relação ao primeiro. Em função da necessidade de garantir a sua própria preservação que os detentores do poder de Estado são conduzidos a favorecer aos objetivos capitalistas. Por outro lado, verifica-se que essa “cumplicidade” não explica a ação estatal na sua totalidade, posto que é acompanhada por outro forte condicionante que é corresponder às demandas sociais, as quais, se não atendidas, colocam sua legitimidade perante a sociedade em risco. Eis, portanto, as duas realidades que constrangem o Estado: preservar a acumulação e garantir a legitimidade. Condicionantes estas que se deparam a um impasse insolúvel no julgamento dos autores, como se verá adiante.

A reincorporação administrativa da forma mercadoria, se dá pelas políticas que reorganizam as relações de troca nos mercados e que objetivam preservá-las e generalizá-las. Três instrumentos para tal fim são destacados: o primeiro é a conjugação da regulação com os incentivos financeiros, o segundo são os investimentos diretos em infraestrutura e o terceiro é o financiamento de ações de interesse coletivo, tais como a regulamentação do trabalho e as políticas públicas, com destaque para a educação.

A opção pela remercantilização surge da constatação de que se a forma mercadoria permanecer governando as relações sociais, os investimentos, o emprego da força de trabalho e os recursos alocados na máquina administrativa serão assegurados. É por isso que, diferentemente do Estado liberal, o contemporâneo intervém e investe na economia. É por ser vulnerável, que o Estado deve interferir, garantindo o investimento produtivo e distribuir renda. Entretanto, ao buscar resolver tais impasses pela interferência direta, o Estado gera

novos problemas, pois, ao atuar nesta arena, politiza as relações econômicas, e, com isso, as interações de poder substituem as de troca. Os mecanismos impessoais, tais como o desempenho individual, entram em refluxo, da mesma maneira que a dependência do mercado encontra impasses, assim como os menos favorecidos podem passar a buscar solução para seus problemas nas leis e na política. Consequentemente, ao almejar a remercantilização, o Estado desmercantiliza, gerando novas crises, tanto na esfera econômica da acumulação quanto na legitimação política. É isso que Clauss Offe designa como sendo o “problema estrutural do Estado capitalista”.

Jon Elster (1986) leva mais adiante a noção de autointeresse encontrada em germe nas considerações de Offe e Ronge (1984). Buscando derrubar a noção de “funcionalidade” no marxismo, ele argumenta que os agentes estatais atuam movidos pelo propósito de maximizar seus próprios interesses, não para cumprir desígnios históricos ou atender às demandas do capital. Para ele, a convergência dos dois, Estado e capitalismo, se dá em função da conduta racional daqueles que dirigem o primeiro. Em suma, o autor afirma que, ao tomar consciência de que sua sobrevivência e seu nível de capacidade estão estruturalmente vinculadas à acumulação capitalista, a burocracia estatal é motivada a agir no sentido de preservar as condições para a realização do lucro privado. O interesse estatal emana primeiramente do fato de que os recursos financeiros do Estado são oriundos dos impostos subtraídos do montante de riqueza gerada no mercado.Dessa maneira, para maximizar suas próprias receitas, presentes e futuras, o governo, mesmo gozando de autonomia e autoridade sobre toda a sociedade, inclusive sobre os capitalistas nacionais, é incentivada a zelar pelas condições de rentabilidade mercantil.

Além da motivação positiva dos dirigentes estatais agirem em conformidade com os interesses privados, também existe um incentivo de natureza negativa. A burguesia respeita o poder estatal, por reconhecer nele, um aliado de seus negócios. Mas se determinado governo atua sistematicamente em desfavor dos capitalistas, estes podem voltar-se contra a burocracia. Logo, movido por sua racionalidade, convencido dos efeitos negativos da ruptura com a classe economicamente dominante, o governo é estimulado a sustentar os interesses do capital (ELSTER, 1986).

Para Przeworski (1995), tanto Poulantzas (2000) quanto Offe elaboram o que chama de “teorias da reprodução do capitalismo”. Estas se baseiam na afirmação de que o Estado tem intenção de garantir as condições para que o capitalismo possa reproduzir-se, fazendo parecer que tudo o que ele faz é sua função. O autor questiona em Poulantzas o porquê do

Estado regular e reproduzir o capitalismo mesmo contra a vontade dos capitalistas. Interpela a Offe quanto ao motivo do capitalismo se comprometer com a democracia, posto que, o problema da legitimidade seria melhor enfrentado em regimes não eleitorais. Também indaga acerca da legitimidade ser para o sistema político, ou para o capitalismo. Além disso, demonstra que o governo possui opções quanto à política econômica dando o exemplo da alternativa de taxação exclusiva de lucro não investido, de maneira a não afetar os recursos empregados no setor produtivo e voltados à distribuição. Para Przeworski (1995, p. 121), o “governo pode controlar as saídas de capitais através de taxas, reduzindo o impacto da mobilidade internacional”.

Algumas dessas críticas possuem consistência, todavia outras merecem ser debatidas. É correta sua afirmação de que, nas “teorias da reprodução”, os atores ficam obscurecidos, crítica que não deve ser estendida a Elster. Todas as vertentes da teoria marxista, segundo Przeworski (1995), confluem para a noção acertada de interação. Seu pecado estaria no fato de sempre encontrar na sociedade o elemento causal. Diferentemente, o Estado pode moldar comportamentos sociais, assim como o inverso.

Na análise do autor, nas sociedades capitalistas, o Estado não desempenha qualquer tipo de “atributo prévio” e as políticas adotadas são definidas não por uma função, mas como o “resultado contingente de interações estratégicas entre múltiplas forças políticas, cujos interesses envolvem misturas variáveis de conflito e cooperação” (PRZEWORSKI, 1995, 125-126). Como em Elster (1986), Offe e Ronge (1984) e Poulantzas (2000), os capitalistas não são aqueles que detêm o controle direto do Estado, porém, no lugar da “função” e do “constrangimento econômico”, têm-se variadas relações entre classes, sindicatos, capitais e governos, que ocorrem em determinados contextos e têm agregadas, no cerne, preferências individuais.

A autonomia do Estado ganha sentido se os conflitos entre atores e instituições, for tomado como o “resultado contingente de conflitos”. Para Przeworski, os atores presentes na sociedade ou no Estado interagem inseridos em ambientes determinados. Assim, os indivíduos se comportam estrategicamente de acordo com seu autointeresse e pressionam o Estado, enquanto os burocratas e demais agentes da administração pública, que não podem ser tidos como neutros, também agem na busca por maximizar seus interesses particulares. É neste conjunto de contextos e relações variáveis que o Estado apresenta à sociedade suas políticas públicas para se tornarem, na sequência, matéria de novos conflitos (PRZEWORSKI, 1995).

A natureza variável de instituições e interesses podem se desdobrar em diferentes tipos de compromissos entre as classes. Conforme já debatido em seção anterior, Przeworski não enxerga qualquer objeção prévia na colaboração de classes. Nem todas as situações os trabalhadores e capitalistas se encontram em lados opostos. Em havendo acordo entre elas, o Estado torna-se organismo responsável pela instauração e manutenção do compromisso acertado. No caso do pacto socialdemocrata, cabe ao Estado, preservar os acordos que asseguram simultaneamente o bem-estar dos trabalhadores e as condições de investimentos lucrativos para os capitalistas.

Martin Carnoy (1990) elabora duas considerações que destoam do modelo proposto por Przeworski. A primeira é que as condições do compromisso entre as classes podem mudar com o tempo a ponto dos capitalistas e/ou trabalhadores romperem a confiança para com os acordos prévios que garantiam a estabilidade; neste caso, o papel do Estado não é o de preservar um pretenso compromisso de classe, mas o de mediar as forças de classes hostis.

A segunda consideração recupera o problema da hegemonia gramsciana, segundo a qual o compromisso refletiria os interesses da classe dominante, dado que esta controla os meios materiais de acumulação e ideologia. Consequentemente, os desejos saciados pelos acordos socialdemocratas estariam circunscritos pela dominação burguesa e, portanto,

No documento olegabramovjunior (páginas 59-72)