BREVE HISTÓRICO DA PSICOLOGIA HUMANISTA
ESTADOS DO EU, COMPORTAMENTOS SUBJETIVOS E OBJETIVOS
Quando “estou” em meu estado do
Eu
Exemplos de comportamentos típicos
Subjetivos Objetivos
PENSO SINTO DIGO FAÇO
PAI (o que se deve fazer:
preconceitos)
“Todos os homens/mulheres são
iguais”.
Indignação vergonha? ” “Não tem
Olho para ele/ela indignado/aponto com
o dedo indicador. “Tem de ser feito” Raiva “Cumpra sua
tarefa”
Bato na escrivaninha com o punho. “Pobres crianças,
sozinhas! ” Compaixão “Venham brincar” Levo-as ao parque.
ADULTO (o que convém fazer:)
“Não estamos cumprindo a meta de
vendas” (Na concepção da Análise Transacional, o Adulto não sente
emoções) “Quais são os últimos resultados das vendas? ” Peço um estudo detalhado e um plano de aumento de vendas.
“Como investir melhor esta importância? ”
“Quais são as taxas de juros de hoje? ”
Invisto do modo mais conveniente
CRIANÇA (O que gosto de fazer:
emoções, sensações físicas, criatividade, ideias irracionais) “Este cachorro me assusta! ” Ansiedade, temor (“Vamos, vá
embora. ”) Fico tenso/atravesso a rua.
“Como odeio este despertador”
Sono, raiva ao ouvi-lo
“Já vou, já vou
[...]! ” Continuo na cama.
“Vou contar esta piada
e vão rir” Alegria
“Chega um náufrago a uma
ilha [...]”
Conto e dou risadas com meus amigos.
Estivemos atentos durante todo o trabalho às estruturas do eu utilizadas por todo o grupo, inclusive e principalmente, pela facilitadora, para não acontecer o que nos meios psicoterapêuticos chamam de “transferência”, que é, segundo Eric Berne, “a atitude da
Criança para com o psicoterapeuta ou o professor [...]”. (1961, p.66) Em Sillamy, transferência é:
[...] um processo psicológico, ligado aos automatismos de repetição, que tende a referir às pessoas ou objetos aparentemente neutros emoções e atitudes que existiam na infância; na prática psicanalítica, relação afetiva que o paciente estabelece com o analista, inadaptada à situação terapêutica real e determinada por antigas estruturas anacrônicas. (1996, p.236)
Em sequência, segue uma explicação sobre a transferência na prática psicanalítica:
A referência dos sentimentos favoráveis sobre o terapeuta constitui a transferência positiva, chamando-se de transferência negativa o conjunto dos sentimentos hostis. A tomada de consciência das atitudes amigáveis ou hostis, estabelecidas na infância e projetadas na situação psicanalítica, permite que o paciente compreenda sua conduta, ajustando-a em função dos elementos atuais. No debate entre o analista e o analisante, estabelece-se inevitavelmente uma troca psicoafetiva pela qual passa a comunicação. Apesar de querer, o terapeuta nunca é o espelho fiel que gostaria de ser. Suas atitudes em resposta às do paciente são chamadas de contratransferência. Diversos sinais podem pô-lo nessa via: se sonhar com seu cliente, se sentir nascer em si irritação ou agressividade contra esse último, ela deve-se interrogar. Se o analista não toma consciência de seus sentimentos, o tratamento não progride ou então fracassa. (Ibidem, p.236)
Nas relações humanas diárias isto acontece de forma inconsciente quando não possuímos o conhecimento da nossa realidade psicológica, com a qual atuamos no mundo. Pressupomos que as relações interpessoais se tornam complexas também quando não distinguimos os estados do eu que atuamos nas transações, ou os quais atuam os que nos rodeiam.
O dançarino quando dança, deve atuar com os estados do eu positivos. O Pai geralmente é aquele que deve dar a permissão, a nutrição, o carinho e a crítica positiva. O Adulto deve informar todos os dados necessários para a performance, ou seja: o estado do Corpo Integrado, a técnica para o seu condicionamento cardiovascular e musculoesquelético, a respiração, a força a empregar e a sua resistência física, o espaço- tempo adequado à execução de cada movimento-ação (ou seja, conhecer o que faz, o como faz e o porquê faz), e a Criança é a parte que cuida da expressividade e do prazer, envolvendo-se com a emoção e os sentimentos, além da intuição e da criatividade. É importante estarmos atentos às estruturas do eu que mais atuamos e que os alunos atuam, pois estes podem identificar o sucesso ou o fracasso da performance, do aprendizado ou do ensino. A transferência negativa do aluno e a contratransferência do professor, ambas inconscientes, são também motivos que justificam comportamentos inadequados e impedem a evolução de ambos, professores e alunos. Os prejuízos são incomensuráveis quando não temos consciência do nosso comportamento. Segundo Berne, os critérios de
diagnóstico dos estados do Eu podem ser feitos através de posturas adotadas da (do/de): (1961, pp.68-70)
a) Conduta - Pai- “As atitudes parentais”: - o dedo indicador em riste, um olhar de recriminação, o acalento de uma mãe quando passa a mão carinhosamente sobre a cabeça do filho, e muitos outros indicativos.
Adulto- “A concentração circunspecta”: “[...] frequentemente com os lábios franzidos ou as narinas levemente dilatadas [...]”.
Criança- As atitudes infantis: “A inclinação da cabeça, significando timidez, ou o sorriso que acompanha essa atitude e a transforma em delicadeza [...] os sinais de aversão e a fisionomia de mau humor”, uma gargalhada, e outros.
A nossa conduta no presente, aqui e agora, além de se encontrar, às vezes inadequada, pelo fato de estarmos nos baseando em arquétipos (ou seja: quando não estamos sendo nós mesmos, e sim reproduzindo modelos influenciados pelo meio social em que vivemos), depende também do emprego “tecnicamente correto” do estado do Eu, que permita uma transação adequada à situação real. Mais adiante iremos tratar de Transações, um instrumento da AT.
b) Gestos - “A origem exteropsíquica do gesto proibitivo é estabelecida quando seu protótipo pode ser localizado entre as figuras parentais na história do paciente”. Segue:
O gesto referencial é geralmente visto como autônomo do Adulto, seja ele um profissional conversando com um colega ou cliente, um chefe instruindo um trabalhador, ou um professor atendendo a um aluno. O gesto de desprezo, quando pragmaticamente inapropriado, é uma manifestação da Criança. As variações não muito sutis podem ser facilmente diagnosticadas por intuição. O gesto indicativo, por exemplo, às vezes acompanha ou uma exortação feita pelo Pai ou uma acusação queixosa feita pela Criança apelando como que a uma figura Parental. (Ibidem, pp.68-70)
Os gestos, tanto para a dança contemporânea quanto para o teatro, sejam para a criação coreográfica ou para a criação de personagens, são fundamentais. Na observação de pessoas, na vida real, encontramos os gestos necessários a qualquer personagem, seja para a dança ou para o teatro. Portanto, criar o hábito de observar pessoas ao nosso redor pode também ajudar muito a aqueles que praticam as Artes Cênicas.
c) Voz - “É comum as pessoas apresentarem duas vozes, cada qual com uma entonação diferente, embora no trabalho individual ou de grupo uma ou outra possam ser reprimidas durante longos períodos.” Segue:
Por exemplo, alguém que se apresenta no grupo como ‘pobrezinho de mim’ pode deixar de revelar durante muitos meses a voz oculta da ira Parental (talvez a voz de uma mãe alcoólatra); ou talvez seja necessária uma forte tensão em grupo para que a voz de ‘trabalhador sensato’ de determinado paciente falhe, para ser substituída pela voz de sua Criança amedrontada. Entretanto, as pessoas em casa podem estar bastante habituadas à dicotomia da entonação. Também não é muito raro encontrar indivíduos que tenham três vozes diferentes. Assim, no grupo, pode-se, literalmente, encontrar a voz do Pai, do Adulto e a da Criança, todas vindas do mesmo indivíduo. Quando a voz muda, em geral não é difícil detectar outras evidências da mudança de estado do ego. Isto é mais dramaticamente ilustrado quando o ‘pobrezinho de mim’ é subitamente substituído pelo fac-smile de sua mãe ou avó enraivecida. (Ibidem, pp.68-70)
d) “Vocabulário” - “o terapeuta pode funcionar como um inteligente conhecedor de linguística no país onde reside: pelo menos inteligente o suficiente para distinguir certas palavras e frases características, que são patognomônicas de cada estado de ego. ” (Ibidem, pp.68-70) Patognomônicas que significa: “Estudo dos sinais e/ou sintomas considerados característicos das doenças.” (Aurélio, 1986, p.1282) Algumas palavras típicas do Pai são: bonitinho, filhinho, ridículo, vulgar, seus sinônimos e outras. “As palavras Adultas são: apto, parcimonioso, desejável,” (ibidem, p.1282) dentre outras. A Criança geralmente se manifesta com palavras como: “Juramentos, exclamações e apelidos.” Quanto aos substantivos e verbos, “[...] são intrinsecamente Adultos, desde que se refiram, sem prejuízo, distorção ou exagero, à realidade objetiva, mas podem ser empregados também pelo Pai ou pela Criança, para atingirem seus próprios objetivos.” (Ibidem, pp.68-70)
A conduta e os gestos, às vezes fundamentados pelo vocabulário, são referências não só no diagnóstico dos estados do eu, como no processo de aprendizado da dança. Suponhamos que alguns alunos se coloquem com as mãos de punhos cerrados, apoiadas nos quadris e queixo levantado durante as explicações de um professor. Intuímos que estes estejam no estado de eu Pai (C-), ou criticando negativamente sua capacidade ou a capacidade do professor, não nutrindo-se com mensagens positivas, ou na Criança Adaptada Rebelde. Ora, se o estado de ego Pai é onde estão os conceitos ensinados de vida, dentre eles julgar e ordenar, além de conter pensamentos preconceituosos, este Pai poderá então influenciar, ou melhor, contaminar o Adulto do aluno, bloqueando, total ou parcialmente, o seu aprendizado. Além disso, supomos que este Pai (C-) pode impedir o
prazer da Criança de desfrutar da emoção que a prática da dança possa trazer. Muitas vezes, podemos constatar a nossa intuição sobre as condutas e gestos dos alunos, ao verbalizarem frases como: “Não vou conseguir fazer isso”, e outras mais, que bloqueiam a capacidade de apreensão, execução e interpretação do aluno. Quantas vezes nos deparamos com alunos que demonstram um potencial nato para a dança, e que, em virtude de sua conduta, não conseguem progredir no aprendizado? Ainda segundo Berne, quando ele conclui seu relato sobre os aspectos comportamentais dos seres humanos, temos: (o sublinhado é nosso)
Há um número muito grande de padrões de comportamento acessíveis ao ser humano. Antropólogos têm compilado longas listas de atitudes. Os que se dedicam ao estudo dos gestos estimam que se pode produzir aproximadamente 700.000 gestos elementares distintos, por diferentes combinações musculares. Há uma quantidade de variações em timbre, altura, intensidade e alcance de vocalização suficiente para ocupar a atenção de escolas inteiras de alunos e professores. [...] O único método prático para o pesquisador sério é a observação: observar pais agindo dentro de sua capacidade como pais; adultos agindo em sua capacidade como processadores de dados e cidadãos compenetrados e responsáveis; e crianças agindo como crianças: mamando, no berço, na escola maternal, no banheiro, na cozinha, na sala de aula e no pátio. Depois de cultivar o seu poder de observação e intuição, o terapeuta poderá aplicar o que tiver aprendido, para o benefício clínico de seus pacientes. (1961, p.70)
A estrutura dos estados do Eu nos permite não só avaliarmos o comportamento dos alunos, como ajudá-los na busca do melhor caminho para o desenvolvimento do seu potencial como performer. Como já vimos anteriormente, na estrutura primária dos estados de eu, possuímos um Pai, um Adulto e uma Criança, que podem interferir tanto positiva como negativamente no nosso comportamento subjetivo, através dos inconscientes diálogos internos. A subdivisão dos estados de eu primários nos mostra uma estrutura que pode funcionar de forma positiva ou negativamente. As estruturas do eu funcionam tanto nas relações intrapessoais quanto nas interpessoais. O Pai pode ser Nutritivo ou Crítico. O Pai Nutritivo ou PN, é aquele que deve, em seu comportamento positivo, ou “OK”, atuar, como vimos anteriormente, nutrindo, educando e protegendo, com compreensão, consolando e permitindo a vida, o desfrute e a educação. Quando negativo, desprotege e não nutre. A superproteção é nefasta. Aqui está uma sugestão de mensagens para aqueles que desejam aprimorar a estrutura de Pai Nutritivo Positivo (PN+) de autor desconhecido: