1. DOS MITOS AOS NOVOS MITOS
1.8 A ESTRELA É UM SOL BRILHANTE E QUENTE
A estrela pode ser pensada como um sol. Se a estrela é o sol, o fã da estrela apresenta um comportamento semelhante ao girassol: está sempre olhando na sua direção. Segue seus passos aonde quer que ela vá, segue a sua iluminação. As estrelas do cinema e da música são como um conjunto de sóis. Seria esse sol imortal? Pode este ecossistema estelar, este reinado, ser ameaçado? Morin (1989) afirma que sim, e eu concordo com ele. A religião da mídia está sujeita a agentes desagregadores. O fã envelhece, apaixona- se por alguém real (no sentido de próximo e similar, namorado ou cônjuge) ou não real (no sentido de realeza e distância, papel da estrela). O tempo também corrói o coração e a memória. Quantas estrelas do passado, que brilharam intensamente, estão hoje resumidas a citações perdidas em livros pouco lidos ou verbetes de dicionários? Quantas foram engolidas pelo tempo e completamente esquecidas, sem traços aparentes de sua existência, disponíveis para consulta? Muitas. E se isso ocorreu, elas não foram mitos,
foram estrelas, porque só os mitos são imortais. Apenas aquelas que, efetivamente, assumiram a imortalidade de um deus (mesmo, e, principalmente, após a sua morte terrena), sobreviveram à dura passagem do tempo e à aceleração dos tempos atuais, que despeja cada vez mais ídolos efêmeros e voláteis, alcançaram a estratosfera mítica.
Existem, ainda, dois fatores de ameaça ao mito, não abordados por Morin (1989) e que destaco, agora. Eles não figuram em sua obra, pois fazem parte da mitologia contemporânea, posterior àquela analisada pelo autor. O primeiro diz respeito ao binômio produção/fragmentação: produção em massa de ídolos e a fragmentação da atenção. Como aprofundarei no próximo capítulo, a indústria do espetáculo, interligada em rede planetária, despeja, diariamente, tantos aspirantes a ídolos e tantos semi-ídolos que a força da construção mítica fica pulverizada e enfraquecida. Se, antes, existia a tela do cinema, a grande e única tela, hoje existe uma miríade de telas pulsando pela atenção do público. Ter muitos lugares para onde olhar contribui para a fragmentação da atenção.
O segundo fator é uma armadilha que deve ser evitada pela estrela: a proximidade extrema com o público. Como disse anteriormente, o mito não pode ser penetrado, não pode ser exposto, revelado, sob a pena de ser desmitificado. O mesmo vale para a estrela. Ela não tem interesse em que o público saiba de suas fraquezas ou que seus comportamentos mundanos sejam revelados. Ela não quer partilhar o seu original, apenas o seu duplo, aquele que é público, construído, exposto e espetacularizado pela indústria do entretenimento. Nesse sentido, manter uma distância entre estrela e fã é uma atitude necessária e prudente.
Embora Morin (1989) aponte que, com o passar do tempo, as estrelas começaram a se revelar cada vez mais para o público, como afirmei no decorrer desse capítulo, o mistério é um elemento vital para a estrela, que deve ser preservado para contribuir com sua manutenção e longevidade. Se a estrela é um sol brilhante, o fã sente-se muitas vezes impelido a voar para perto dela. Voar significa romper fronteiras, fronteiras que delimitam o espaço
do fã e o do ídolo. Aproximar-se demais do ídolo, penetrar em suas camadas não permitidas, pode gerar uma decepção muito grande ao ver-se que o mito tem medo, fome, sono, está de mau humor, possui celulite, estrias, olheiras, etc. Dirigir-se ao centro do sol pode ser mortal, como o foi para Ícaro, segundo a mitologia grega (GALLAGHER, 1994). Ícaro voou com asas feitas de penas de pássaros coladas ao corpo, com cera. Voou mais alto do que devia. Aproximou-se demais do sol. Como consequência, o calor intenso do astro fez derreter a cera, descolando as asas, causando sua queda mortal. A aproximação excessiva, livre de mistérios, ao ídolo, pode provocar o mesmo efeito e fazer o fã cair em queda livre, destruindo o encantamento mítico.
Outra analogia possível para pensar o mito da estrela diz respeito à peça Édipo rei, de Sófocles (2014 [427 a.C]). Édipo é o heroi mítico da narrativa e precisa vencer diversos desafios. Desse enredo, me interessa uma pequena passagem:
Chegando às cercanias de Tebas, Édipo encontra a cidade desolada por uma calamidade inaudita. Como se não bastasse a morte de seu rei, a Esfinge, monstro nascido de Equidna e Tifon, fora enviada pela deusa Juno contra os tebanos. Com sua cabeça, face e mãos de mulher, cauda de dragão, voz de homem, corpo de cão, asas de pássaro e garras de leão, o monstro propunha um enigma a todos os viajantes dizendo-lhes: “Decifra-me ou te devoro” (ROCHA, 2008, p. 52-53 – grifo do autor).
Uma vez que o ídolo artístico se alimenta da idolatria do fã, vejo-o como uma esfinge que indaga a mesma questão: decifra-me como mortal ou seguirei devorando-te com meu mistério e nutrindo-me da tua idolatria. Nesse caso, decifrar a esfinge significa destruir o seu poder mítico e invencível.
1.9 OS NOVOS MITOS NO CAMPO MUSICAL
Até esse ponto da pesquisa, procurei recuperar uma série de características apresentadas pelos autores consultados que me permitiram uma visão abrangente sobre as facetas do mito arcaico e do mito contemporâneo. O que quero ressaltar, agora, é que muito do que aparece no mito das estrelas está enraizado na herança herdada dos mitos arcaicos.
Por isso, muitos traços estruturais são semelhantes. Embora eu tenha dado um salto do mito arcaico ao mito das estrelas do cinema, devo relativizar a linha do tempo, já que as estrelas (e os mitos) musicais surgiram muito antes das tecnologias audiovisuais e muito depois dos mitos arcaicos, apresentando traços representativos dessas duas esferas. Se as estrelas do cinema foram construídas pelo star system, os mitos musicais foram criados pela indústria musical. Porém, antes dos novos mitos musicais, existiam os mitos musicais ancestrais.
Para a compreensão dessa dimensão, vou, inicialmente, investigar alguns aspectos referentes ao campo musical para, depois, enveredar pelo restante desse universo. Tratarei, em uma primeira abordagem, genericamente, sobre músicos compositores e intérpretes. As questões referentes à construção mítica pelo espetáculo e pelo direcionamento artístico e estético serão abordadas no próximo capítulo. Por ora, me limitarei a observar como o ato de tocar um instrumento pode ser visto como algo realizado por um ser mitológico e digno de heroismo.
Talvez, hoje, certas pessoas não percebam antigos musicistas dos séculos passados como estrelas, pois, em tempos distantes, ainda que o talento fosse reconhecido, o tipo de admiração e idolatria seguia padrões de comportamento muito diferentes do que os moldados e amplificados pelo cinema e, posteriormente, pela indústria musical. Porém, se a figura da estrela ainda não estava formada, a do mito musical primitivo já podia ser percebida.
Apontei, até aqui, características dos mitos que serão instrumentos de leitura aplicáveis conceitualmente no recorte da minha tese. Reunindo as informações organizadas pelos mitólogos, vi que o mito é passível de converter-se em objeto de culto e adoração, fornecer modelos de conduta, desejo de ser eterno, e ser uma fala que naturaliza para afirmar o seu poder. Esses elementos também vão habitar a mitologia musical, em especial a contemporânea, como poderá ser verificado ao longo do meu estudo. Isso posto, irei destacar alguns exemplos representativos que ilustram o mito
musical. Para isso, tratarei de dois pontos distintos e interligados: os instrumentos musicais como extensão do homem, auxiliando a construção mítica; e o completo domínio do dialeto musical como elemento de glorificação e heroísmo.