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1. DOS MITOS AOS NOVOS MITOS

1.4 MITO, PROCESSO HISTÓRICO E RITUAL

Se, hoje, o homem moderno considera-se constituído pela história, o homem arcaico se via constituído a partir de eventos míticos. O tempo do homem moderno é o tempo histórico, do curso de uma história universal linear, resultado da metamorfose da sociedade e dos povos, com períodos delimitados a posteriori e aceitos pela comunidade científica. Assim surgiram a Idade Média ou a Renascença, por exemplo. Mas o homem arcaico acreditava que era o que era devido a fatos míticos ocorridos no princípio do universo, fatos estes que constituiam uma história sagrada, pois os personagens dessa história não eram humanos, mas entes sobrenaturais. Eliade (2007, p. 17 – grifo do autor) afirma que o homem das sociedades arcaicas era “(...) obrigado não somente a rememorar a história mítica de sua tribo, mas também reatualizá-la periodicamente em grande parte”.

O homem moderno compreende que a história é um ponto de vista e que pode variar de acordo com novas interpretações, no decorrer de seu estudo e registro. Já o homem arcaico sentia que era seu dever rememorar fielmente os mitos, pois reatualizá-los significava repetir o que os deuses, herois ou seus ancestrais fizeram, na origem dos tempos. Desse modo, os mitos ensinavam como perpetuar os gestos criadores dos entes sobrenaturais. Conhecer os mitos constituia, assim, o desvendar do mistério da origem das coisas (ELIADE, 2007).

Para Eliade (2007), a história narrada pelo mito diz respeito a um conhecimento de ordem esotérica, algo secreto e transmitido no decorrer de uma iniciação, carregado de uma aura de magia e religiosidade. O homo

religiosus (como o chama Eliade, 2007), entendia que era como era porque uma série de eventos esotéricos havia ocorrido na formação do mundo. Ao contar sobre esse processo de criação, os mitos explicavam ao homem como e porquê ele fora assim constituído. Para esse homem, sua existência real e autêntica iniciara quando ele recebera a comunicação dessa história primordial e aceitara suas consequências. Os seus ancestrais eram míticos, entes sobrenaturais. As cerimônias religiosas representavam festas rememorativas. Exemplificando e trazendo para a atualidade, assim ocorre nas missas católicas, nas quais os fiéis são lembrados do papel de Cristo que se sacrificou pela humanidade, e de que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. A igreja sempre foi um grande gestor mítico. Como coloca Jung (2000 [1954], p. 20),

(…) graças ao labor do espírito humano através dos séculos, tais imagens foram depositadas num sistema abrangente de pensamentos ordenados do mundo, e ao mesmo tempo (...) representadas por uma instituição poderosa e venerável que se expandiu, chamada Igreja.

A ligação com o mito não é exclusividade da religião. Campbell (2007) aponta que os mitos florescem a partir das mais diversas vertentes, sendo elementos de inspiração para a atividade humana. Religião, filosofia e arte são alguns dos campos da vida tocados pelo mito. Como não existe um ecossistema mitológico geral e efetivo, cada ser vai se apegar àquele ou àqueles mitos que mais lhe sirvam para reconfortar, ordenar e possibilitar que a vida siga viva, assim como o mito segue vivo. Campbell (2007, p. 21) vê como função primária dos ritos e da mitologia fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, “(...) opondo-se àquelas outras fantasias humanas constantes que tendem a levá-lo para trás”.

Mas, afinal, o que de fato é a mitologia? Significa somente o estudo dos mitos e suas articulações e tensões? Campbell (2007) diz que a mitologia não é uma, mas um leque de possibilidades: esforço para explicar o mundo; produto de fantasia poética; repositório de instrumentos alegóricos, destinado a adaptar o indivíduo ao seu grupo; sonho coletivo, sintoma das estruturas arquétipas; percepção metafísica; revelação de Deus a seus filhos, etc.

Se o mito revive no rito, a vida é repleta de ritos. Nesse processamento, está o indivíduo, uma mera fração distorcida da imagem total do homem. Esta fração tem sempre suas limitações que variam de acordo com o decorrer da vida (infância, juventude, fase adulta e anciã). Além disso, na ciranda da existência, o homem escolhe escopos de vida. Ele não pode ser tudo, mas pode ser algumas coisas. A totalidade do homem só existe no corpo social. Os ritos de passagem (nascimento, casamento, morte, etc) traduzem as ações em formas clássicas e impessoais. Nas cerimônias, cada um participa de acordo com sua posição e função. As gerações passam como células anônimas no corpo da vida. Os ritos ajudam a entender que o tempo não pára e ensinam uma lição de unicidade essencial entre indivíduo e grupo. Os grupos de indivíduos é que vão dar vida e força aos mitos, cada qual com sua função social na sociedade mítica (CAMPBELL, 2007).

Campbell (2007) indica que, no passado ancestral, a força social estava direcionada aos grupos, e não ao indivíduo. Todo o sentido residia nos grupos, grandes formas anônimas. Naquele tempo, não se via nenhum sentido no indivíduo, com sua capacidade específica de expressão. Para o autor, hoje, esse pensamento encontra-se invertido. Perdeu-se a noção de grupo. Não há sentido no grupo; não há sentido no mundo. O indivíduo é senhor do sentido.

Um dos mitos mais fortemente presentes no homem contemporâneo diz respeito ao artista musical. Através dele, os consumidores da indústria do espetáculo buscam um novo patamar de espiritualidade, um rito de celebração à vida e uma válvula de escape às pressões sociais. Portanto, se os mitos eram entes sobre-humanos, os novos mitos, que começam a ser gestados no início do século XX, encontram lugar nas estrelas espetaculares. É delas que vão nascer os mitos musicais contemporâneos. E para se compreender a origem desse fenômeno, vou recorrer à obra de Morin (1989), que aborda as estrelas do cinema, paradigma que vetoriza e dá suporte ao entendimento dos novos mitos musicais.