2. DO ESPETÁCULO AO HIPERESPETÁCULO
2.2 TEATRO: IMPULSO E REPRESENTAÇÃO
Quando se pensa no teatro, cabe rememorar que existe um impulso do homem que necessita deste instrumento que pode ser de diversão, conhecimento, prazer ou denúncia. A representação teatral, seja ela falsa ou fiel, improvisada ou previamente ensaiada, é povoada de acontecimentos que imitam ou reconstituem imagens da fantasia ou da realidade. Afinal, todas as coisas são elas mesmas e signos. A tríade básica do teatro (dramaturgo, ator e público) pode ser identificada, tanto nele, quanto na pintura e nas apresentações musicais que se utilizam da encenação teatral. Para compreender as relações entre teatro e indústria musical, vou abordar a atuação de três artistas que desempenham um papel simultâneo de autor-
ator, sendo um deles oriundo do mundo da pintura e os outros dois exemplos relacionados diretamente ao campo da música.
Resgatando brevemente as orígens do teatro, Peixoto (2010) relata que são mencionadas representações litúrgicas no Egito entre 3000 a.C. a 2000 a.C. Pesquisas mais recentes descobriram um papiro, provavelmente de 1887 a.C., que indica um ritual de representação da morte e esquartejamento de Osíris, deus da terra e da fertilidade no Egito.
Acredita-se que os primeiros intérpretes de tais espetáculos tenham sido os sacerdotes. O primeiro a ser nominado, na história do teatro, é o grego Téspis que, em 560 a.C., teria introduzido, na encenação primitiva do canto poético, o diálogo e o personagem. De lá até os dias de hoje, a representação teatral vem sofrendo metamorfoses paradigmáticas e subdivisões em gêneros constantes, nutrindo-se do passado e atualizando historicamente suas técnicas e tessituras.
A Arte poética, de Aristóteles (2003 [335 a.C]), é considerada como marco fundador para que se pense a narrativa teatral. No que diz respeito à tragédia grega, a tese geralmente aceita é a de que as representações apareciam nos cultos a Dionísio, deus do vinho e da fertilidade, das fontes da vida e do sexo. O teatro é ritual. Aristóteles afirma que a tragédia tem sua origem nos ditirambos (cantos corais acompanhados de flauta) e tende a representar os homens melhores do que são, enquanto a comédia nasce das cerimônias e canções fálicas, mostrando os homens piores do que são. Naquele período, as tragédias versavam sobre herois e mitos, enquanto as comédias estavam voltadas à investigação crítica do cotidiano, ainda que geralmente em defesa dos valores tradicionais e contra os perigos de uma decadência ética e moral. Peixoto (2010, p. 68) lembra que,
para Aristóteles, a arte é imitação da natureza; o drama é a imitação das ações, tendo por objetivo provocar compaixão e terror. A identificação do público com os personagens coloca o primeiro em estado de êxtase e assim poderá atingir a purgação (catarse) destas emoções.
No jogo teatral, assistindo ativa ou passivamente, os espectadores são envolvidos no manto ritualístico das representações. Avançando na conceituação teórica, Brecht (apud PEIXOTO, 2010, p. 14 – grifo do autor) declara ser o prazer a função mais nobre da atividade teatral:
Etimologicamente a origem é o verbo grego theastai (ver, contemplar, olhar). Inicialmente designava o local onde aconteciam espetáculos. Mais tarde serve para qualquer tipo de espetáculo: danças selvagens, festas públicas, cerimônias populares. A idéia que hoje a palavra desperta em nós só aparece definida no século XVII.
Palavras e gestos, silêncio ou imobilidade. Diversos são os artifícios que constrõem o jogo teatral. O teatro é um ato social de mão dupla: transforma a sociedade e a sociedade o transforma. Como nas demais artes, ele sintoniza com o presente, sendo seu reflexo e ponto de reflexão. O teatro é luz e sombra. O teatro é imagem. E quando a imagem é dada, não se pode mais imaginar. A imaginação já está concretizada. Aristóteles vai ampliar a questão da imaginação, pensando-a como algo positivo, uma vez que, para Platão, as representações eram estáticas, um exercício de rememoração que levava ao conhecimento. Já em Aristóteles, encontra-se movimento e dinamismo. Aristóteles pensa o ser humano em relações entre si, não individualmente. A partir de Aristóteles, a imagem dada, isto é, a imaginação fornecida, vai começar a ganhar força, funcionando como um espelho e gatilho propulsor das emoções, em um processo de retroalimentação de novas imagens e fantasias.
No teatro, o homem pode participar de um jogo lúdico, uma brincadeira de ser o outro (o duplo). Desde os primórdios da representação, até os dias de hoje, aquele que atua pode representar a sí, aos deuses, assumir a forma de animais ou de seres bizarros. A leitura de Peixoto (2010) lembra que, ao representar-se um deus, o teatro permite que este encarne na terra e no espaço da representação, corporificando e dando forma a uma energia que vê, no teatro, a sua interface de conexão com o plano superior. Assim, a representação promove conexão e reflexão. Esse caráter mágico vai aparecer muitos séculos depois nas representações contemporâneas. Até
hoje, as representações ritualísticas estão impregnadas de cargas de subjetividade, fantasiosas e místicas, seja no campo da religião, seja no da indústria do entretenimento. Teatro é, constantemente, em certo sentido, um ritual religioso, um ritual de culto (cultuar o texto, a interpretação) e de fé (no sentido de crer em ideias e na representação).
O teatro é também espelho pois, ao imitar os homens, permite um olhar de fora para dentro, uma contemplação analítica que pode se servir, tanto do deboche, como do drama, para questionar o homem e sua existência. Trata-se de uma contemplação com potencial de reflexão. Cabe lembrar que a palavra drama significava ação, para os gregos, e que ela só vai começar a representar conflito e sofrimento séculos depois, no movimento romântico. Peixoto (2010) entende que o teatro nasce no instante em que o homem primitivo coloca e tira a sua máscara diante do espectador. A máscara, aqui, não é necessariamente o objeto em sí, mas uma figuração. Colocar a máscara significa assumir uma interpretação, isto é, uma simulação. Como afirma o autor (2010, p. 13), “(…) quando a representação cênica de um deus é aceita como tal (…), a divindade presente é um homem disfarçado”. Peixoto (2010, p. 17 – grifos do autor) promove um flash para demonstrar como o espectador mudou no decorrer da história do teatro, comparando os conceitos de Aristóteles, Brecht e Boal:
(…) No projeto de Aristóteles, o espectador delega poderes para que o personagem pense e atue em seu lugar; no projeto de Brecht, para que o personagem atue, mas não pense, em seu lugar (…). Para Boal, teatro é ação (…). Seu objetivo é fazer com que o espectador (…) interrompa a ação dramática, incorporando- se àqueles que a conduzem, formulando, através de representação, sua compreensão e capacidade de agir.
Junto ao espetáculo, caminha a ideologia.