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5. As Memórias da Pesquisa

5.1 Eu, ela, eles, nós

A minha jornada pela pesquisa teve início no ano de 2013, quando eu ainda estava no primeiro semestre de graduação. Ao entrar o curso de Letras, deparei-me com algumas oportunidades que eram oferecidas, tais como cursos de extensão gratuitos, eventos acadêmicos e palestras diversas. Tentava aproveitar, ao máximo, tudo que me era permitido e até o que não era. Foi ainda no primeiro semestre que, a partir do meu interesse e dedicação, a professora Letícia Fonseca Richthofen de Freitas convidou-me a compor o seu grupo de pesquisas. De modo voluntário, iniciei meus primeiros passos no aprendizado do que era fazer pesquisa acadêmica. Lembro-me bem de que havia um discurso predominante, por parte de diversos professores naquela época, de que alunos de primeiro semestre não ganhavam bolsas de iniciação científica. No entanto, como nunca acreditei completamente naquilo que me diziam, inscrevi-me para a seleção de bolsas que a minha orientadora ofereceria. Dentre as duas bolsas ofertadas, acabei conquistando uma e, assim, recebi um primeiro voto de confiança da professora Letícia.

A partir de então, muitas leituras começaram. Passei a aprender sobre linguagem, identidades e narrativas. Em seguida, fiz leituras introdutórias sobre a LA e sobre metodologia de pesquisa. No trabalho como bolsista, digitalizei inúmeros memoriais de alunos do curso de Letras, os quais foram coletados pela orientadora, em disciplinas ofertadas na graduação. Assim, um banco de dados foi formado e, com base nesses textos, meus primeiros trabalhos acadêmicos surgiram. Com o passar do tempo, por causa de minha dedicação, minha bolsa foi renovada por mais um ano. Então, com o avanço dos meus estudos, precisava decidir um tema de pesquisa para investigar. Foi quando algo inesperado ocorreu em um evento científico.

Em 2014, em uma palestra sobre a ditadura militar e a educação, que ocorreu na Universidade Católica de Pelotas, tive a curiosidade imediata em saber se os professores que atuaram naquele período tinham histórias para contar sobre suas experiências de vida social e profissional. Minha primeira atitude após o evento foi a de contar à professora orientadora sobre o ocorrido. Neste período de iniciação científica, já era de meu interesse trabalhar com memórias, mas um tema ainda era necessário para o início da pesquisa. De fato, a área a qual pertenço permite trabalhar com aquilo que chamava a minha atenção ao pensar em linguagem – a memória; não a memória biológica, mas aquela que é construída ao narrar.

Após uma reunião com minha orientadora, decidi entrar em contato com a palestrante do evento, a professora de história Caroline Silveira Bauer, que na época ainda era docente da Universidade Federal de Pelotas. Por coincidência, ao procurá- la, soube que ela estava oferecendo um curso de extensão sobre a ditadura militar, naquele semestre, do qual tive a oportunidade de participar. Durante a realização do curso, pude conversar com a professora Caroline e contar a ela sobre a ideia que havia tido durante a sua fala. Aproveitei e questionei se ela pensava que os professores que lecionavam durante a ditadura teriam alguma história para contar. Naquela época, no princípio dos estudos, eu ainda desconhecia muitos fatos que envolviam tanto a profissão docente como a própria ditadura militar e sua relação com os professores.

A professora então, gentilmente, contribuiu muito para a pesquisa, indicando textos sobre história e, também, direcionando-me ao Instituto Mário Alves10, pois

haveria a possibilidade de que alguém dessa entidade conhecesse professores que pudessem me ceder entrevistas. Ao entrar em contato com o instituto, passaram-me o número de telefone de seu presidente, o professor da Universidade Católica de Pelotas e cientista político Renato Della Vechia. Liguei para o professor Renato e ele marcou uma reunião comigo, na mesma semana, em sua sala na universidade. Ao nos encontrarmos, ele, atenciosamente, ditou-me diversos nomes de professores que poderiam, se quisessem e aceitassem, ceder entrevistas. As contribuições do professor Renato e da professora Caroline foram fundamentais para a realização da minha pesquisa.

Selecionei, aleatoriamente, dez nomes dentre todos que me foram dados e os procurei pela internet tanto em e-mails que constavam em suas publicações de artigos científicos quanto pela rede social Facebook. Dos dez professores com que entrei em contato, apenas sete aceitaram contribuir para a pesquisa. Desses contatos, três são mulheres e quatro são homens. Dos três remanescentes, um dos contatos retornou explicando que, por motivos de saúde, não poderia participar de uma entrevista, outro negou e um nunca respondeu a mensagem. A partir disso, foram marcadas entrevistas em locais escolhidos pelos próprios indivíduos. Após a realização da primeira entrevista, tive certeza de que estava no caminho certo e de que gostaria de analisar aquelas narrativas.

O aporte teórico, assim como a metodologia de pesquisa, foram os quais, dentro da grandiosidade dos Estudos da Linguagem, sempre atraíram minha atenção. A paixão pela linguística aplicada iniciou desde cedo, no princípio da graduação. Há uma inquietação dentro de mim sobre metodologias usadas para o ensino de língua portuguesa em sala de aula e um interesse em criar atividades e exercícios úteis e menos tradicionais. Se minha empatia pela LA, que se preocupa com o ensino de línguas era crescente, ao conhecer a vertente indisciplinar, o sentimento multiplicou-se.

10 O Instituto Mário Alves (IMA) é uma organização sem fins lucrativos que desenvolve estudos sobre

Algum tempo depois, em 2015, ainda no processo de coleta de dados, estava pesquisando artigos científicos pela internet, quando me deparei com uma notícia que me despertou interesse, pois algumas palavras na manchete pareciam muito familiares. A notícia falava de um professor que havia sido preso em frente aos alunos dentro da sala de aula, após denunciar irregularidades na escola. A história da notícia, que ocorreu no interior da Bahia, em 2015, era extremamente semelhante à história de um dos primeiros professores entrevistados. Nesse outro caso, o professor foi preso em frente aos alunos dentro da sala de aula, no ano de 1979, na cidade de Porto Alegre/RS. Lembro-me de refletir sobre os eventos serem tão semelhantes ao passo que estavam tão distantes cronologicamente. Conforme relatam alguns professores entrevistados, a profissão docente no período ditatorial foi, em muitas localidades, alvo de profunda perseguição, de espionagens constantes e de manipulação. Ainda assim, nos últimos anos, essa parece ter sido deixada a própria sorte no Brasil.

Ainda durante o curso de graduação em Letras, estudando, constantemente, as teorizações em que situo minha pesquisa, pude compreender a importância daquilo que pesquiso para os estudos da linguagem, para a LA indisciplinar e para a profissão docente. Escolhi dar continuidade aos estudos e ao trabalho de pesquisa no curso de pós-graduação, seguindo as orientações da professora Letícia. Em suma, considero as três narrativas desses professores muito especiais, cujas histórias de vida tornaram-se parte da minha trajetória também.