2. Fundamentos Teóricos
2.5 Memória, Rememoração e Esquecimento como Performances
Para esta pesquisa configurada nas bases de estudos de narrativa como performance, que parte de entrevistas com professores que atuaram durante o período ditatorial e que constroem suas narrativas com base em suas experiências passadas, torna-se relevante e imprescindível abordar considerações teóricas de Memória Social. Então, na compreensão de que se narra para dar sentido ao ser no mundo social, como foi exposto, é notória a ideia de que a memória está interligada com o próprio processo de narrar e à construção das identidades. Sendo assim, faz- se importante ressaltar que, ainda que se compreenda a óbvia capacidade humana de recordar eventos, essa pesquisa foca apenas nas lembranças que são narradas,
ou seja, nas construções narrativas e autobiográficas ocorridas no aqui e no agora do momento da realização das entrevistas.
Candau (2014), nesse sentido, explica que existe um consenso entre teóricos que são contrários às ideias essencialistas e positivistas de que as identidades são construídas nas interações sociais com outro, seja um outro fisicamente presente ou personagem de uma narrativa. Além disso, o autor expõe que a memória, como explicitado anteriormente, é uma reconstrução do passado que se atualiza continuamente. Isso significa que a cada vez que um sujeito conta suas memórias, está recriando suas narrativas de vida. Ainda, conforme o autor, a ideia de que se pode memorizar fatos e experiências, conservá-los e, posteriormente, recuperá-los íntegros é inexistente e insustentável. Tal entendimento tradicional advém de princípios modernistas, que acreditam que o sujeito possuía uma razão centralizada, e que sua identidade era unificada e não sofreria alterações ao longo da vida.
Uma narrativa de vida é, obviamente, permeada por lembranças. Nesse sentido, compreende-se que faz parte da ação de narrar o processo de rememoração. Portanto, uma narrativa autobiográfica pode ser considerada, de certa forma, um sinônimo de rememorar. Assim, considera-se que os estudos de memória social complementam a compreensão das narrativas, ampliando as possibilidades de análise e de entendimento da vida social. Esses ainda podem propiciar novas reflexões e intravisões teórico-metodológicas para outros estudos sobre memória fora do campo indisciplinar da LA. Nesse sentido, o processo de rememorar envolve escolhas lexicais, significados culturais e, por ser mutável, ocorre de forma única de acordo com o contexto temporal, com o ambiente, com a audiência e com os discursivos disponíveis ao sujeito naquele momento (BOSI, 1994).
Ecléa Bosi (1994) complementa essas ideias com informações muito relevantes sobre o processo de rememoração como sendo uma construção interacional. Segundo a autora,
Na maior parte das vezes, relembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, "tal como foi", e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a
lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas ideias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termo de ponto de vista (BOSI, 1994, p.55).
No sentido de que a rememoração ocorre a partir de elementos disponíveis no momento em que se narra, é possível notar, várias vezes, que os professores entrevistados estabelecem uma ligação entre as memórias e o momento presente das entrevistas, que ocorrem como movimentos fáticos, embora não sugestivos, como os demais explicitados nas análises e já mencionados neste capítulo. Essas ligações são atualizações de suas memórias, como quando dizem os nomes de instituições ao entrevistador. Para exemplificar, atenta-se para o excerto da narrativa de Chico, quando conta “eu dava biologia no então científico/ hoje ensino médio”; ou ainda quando Olga conta “os meus alunos foram para a porta da delegacia de ensino/ que hoje é a XaCREA/ pedir para mim voltar e não adiantou”. Ademais,
essas colocações ressaltam, também, o caráter interacional do processo de rememorar.
No processo de reconstrução das memórias e das experiências passadas, muitas vezes, há o esquecimento. Segundo Candau (2014), o esquecimento não significa uma fragilidade das lembranças ou que o processo de lembrar está fracassado, pois isso, no sentido social, pode ser uma censura importante e indispensável para a vida estável de alguém ou de um grupo. Dessa forma, percebe- se que o professor Chico faz referência a alguns personagens da sua narrativa que teriam feito mal a ele durante a ditadura militar, expondo que havia anistiado algumas dessas pessoas. Pelo verbo anistiar, além de fazer uma referência a lei de anistia, que reverteu punições de criminosos do regime ditatorial e que indexa esse posicionamento aos personagens mencionados, o professor performa esse perdão aos ex-colegas como um esquecimento. A ideia de que essa anistia é uma construção performativa dá-se pelo fato de que ele assume a postura de poder anistiar ou não, bem como pelo fato de que há desequilíbrios narrativos quando ele conta sobre quem são os colegas atualmente.
Nesse sentido, como as identidades e as lembranças são inseparáveis, ao reconstruir suas lembranças, os indivíduos estão performando suas memórias. Portanto compreende-se que a rememoração, assim como as memórias e as identidades, é constituída na performance narrativa, pelo entendimento do caráter performativo da linguagem (CANDAU, 2014). Dessa forma, toda vez que um sujeito reconstrói suas lembranças, está performando-as de acordo com o momento, o contexto e a audiência, conforme já explicitado (BOSI, 1994). Pode-se dizer que há, praticamente, um consenso entre pesquisadores que tratam a memória, a rememoração e o esquecimento como performances, tanto na área dos estudos da linguagem quanto na da educação. Enfim, acredita-se que somente pela performance, a rememoração é, efetivamente, uma atualização do passado.
Ademais, retomando a ideia de esquecimento social exposto, Signorini e Freitas (2015), em um trabalho de iniciação científica que analisou a narrativa de um professor preso na década de 70, propõem, com base nos autores citados, que um esquecimento é também performado na narrativa. Então, constata-se que essa forma de esquecimento é algo construído na narrativa pela linguagem e que tem o significado de anistiar, logo, pode ser vista como sendo uma lembrança para o professor. Tal entendimento compreende que, ao dizer que algo foi esquecido, não se trata necessariamente de uma verdade, mas trata-se de um posicionamento que mantém a continuidade da coerência narrativa.
Além disso, outra característica do processo de rememoração, como inicialmente comentado, é a busca na memória por referências para os posicionamentos e construções narrativas. Como já discutido, a relação da mídia com a sociedade, que se dá pela produção de verdades e até da propagação de narrativas que geram identidades sobre a docência, ressalta-se que as mídias se tornaram referências para a vida social. Pode-se pensar que essa ideia não é atual, mas, no sentido explicado por Arfuch (2002), a mídia tem essa forma de referência há muitos anos, quando passou a retratar a vida das celebridades, por exemplo. Em um sentido consumista, a ideia de observar a vida privada de outras pessoas e o desejo de segui-las, tendo o que os outros possuem, demonstra como as mídias alcançaram esse papel (MOITA LOPES, 2009a). Por isso, compreende-se que atualmente as pessoas, de forma mais ou menos conscientes, usam referências dispostas a elas por meio midiático para suas construções performativas.
No sentido abordado por Fabrício (2004), essas referências por discursos que estão disponíveis na sociedade, acabam fazendo parte das memórias e dos posicionamentos sociais das pessoas. Em outras palavras, Bamberg e Andrews (2004) trazem a ideia de que a própria autobiografia não poderia ser uma história somente de um narrador, mas não somente por compreenderem que os indivíduos se constroem em relação às histórias dos outros, mas pelas influências que acercam a sociedade e que, muitas vezes, as pessoas não possuem consciência.