3. Procedimentos Metodológicos
3.2 O Contexto Social e o Ambiente das Entrevistas
Ademais, sublinha-se a relação do contexto social, que se refere à situação atual que envolve a sociedade ou grupo específico e suas relações com os indivíduos participantes da entrevista, bem como o ambiente em que ocorre a interação, pois esses podem influenciar e até restringir a fala dos participantes, ainda que a abordagem do contexto seja realizada pelo conceito de contextualização. Conforme argumenta Bosi (1994), o ambiente influencia no processo rememoração e qualquer alteração em um local de vivência de um sujeito ou da entrevista contribui para a forma como as memórias são explicitadas. Nesse sentido, Gubrium e Holstein (2003) complementam, expondo que
[...] o ambiente social onde a entrevista acontece modifica não só o que a pessoa ousa dizer, mas até mesmo o que ela pensa e o que ela escolhe dizer. Essas variações não podem ser vistas como desvios da verdadeira opinião do falante, pois não há nenhuma situação neutra, não social e que não é passível de influência (GUBRIUM E HOLSTEIN, 2003, p. 32).
Como os acontecimentos dos últimos anos no Brasil, citados nesta dissertação, viabilizaram esta pesquisa, cabe expor alguns aspectos relacionados à ditadura militar no momento contemporâneo. Diferentemente da seção que trouxe reportagens e contextualizou a profissão docente na atualidade, apresenta-se duas imagens, abaixo, retiradas de jornais, que correspondem a um movimento que solicitava uma nova intervenção militar, que ocorreu em diversos locais do país. Essas manifestações pró-ditadura tentam ressignificar as memórias desse período. A partir desses movimentos, discursos, como os já mencionados, são reproduzidos, de acordo com os interesses sociais e econômicos dessas pessoas, ainda que não tenham, de fato, consciência da ideologia por trás daquilo que defendem.
A imagem a seguir compõe uma notícia do jornal Extra online a respeito de uma manifestação ocorrida na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul:
Figura 6: Foto da edição online do Jornal Extra. Fonte: ILHA, 2015.
Como pode-se ler na faixa dos manifestantes, o pedido do grupo era de uma intervenção militar constitucional. Há, conforme consta na notícia desse site, outros aspectos que chamam atenção. Segundo as informações, o movimento, que era, inicialmente, para ser contra a ex-presidenta da república, Dilma Roussef, trazia cartazes chamando-a de anticristo. Ademais, segundo o jornal, uma das manifestantes disse querer uma “limpeza no país”. Nesse sentido, outra imagem, exposta abaixo, se destaca nesse contexto, pois retrata um pedido semelhante, porém, ocorrido na Marcha da Família, um ano antes da manifestação retratada acima. Ainda que o conteúdo da reportagem seja de 2015, a foto é de 2014, segundo informações contidas na página.
Figura 7: Foto da Revista Vice online. Fonte: LOPES, 2015.
Ainda que os rostos dos manifestantes tenham sido desfocados é possível observar, no canto direito da imagem, o cartaz contendo as palavras Jesus, pátria e família. Observa-se que a semelhança que se estabelece nos anos atuais com a ditadura militar se dá pela linguagem. Em relação aos discursos proferidos atualmente, ainda que sejam equivalentes e até repetições de discursos do passado, chama-se atenção para as associações de significados que são feitas com esses discursos, que se dá de forma idêntica ao que ocorria durante a ditadura militar. Conforme já desenvolvido, a ideia de algo ruim, de maléfico, doentio aparece ligada a alguém, geralmente, com posicionamento considerado de esquerda. Por outro lado, os discursos pró-intervenção são relacionados à família, à religião e à ordem. As narrativas provenientes desses discursos seguem uma linha das chamadas narrativas hegemônicas.
As narrativas hegemônicas que surgem com esses discursos e essas associações, geralmente, são proferidas em relação aos considerados inimigos do Estado, da moral e de uma certa tradição. Teixeirense (2017), nesse sentido, argumenta que a ditadura militar naturalizou, por exemplo, a violência – de um modo geral, de tal forma que a sociedade não se identifica ou mesmo reconhece aqueles que sofreram diretamente a violência do Estado. Assim, expulsão de estudantes e exoneração de professores, bem como desaparecimentos seriam considerados normais, pois essas pessoas teriam um comportamento inadequado. Recorda-se
que, como mencionado, professor Horácio expõe a situação social em que se encontrava após a prisão, sendo que não foi narrado que tenha recebido qualquer tipo de compadecimento por seu sofrimento. Ainda sobre isso, o autor expõe que esse processo de naturalização da violência, ocasionado pelas narrativas hegemônicas, “seria, de diversas formas, alimentado pelas narrativas difundidas pelos órgãos de imprensa, que compunham o arco de sustentação ideológica da ditadura militar” (TEIXEIRENSE, 2017, p. 212).
Ademais, ainda nesse âmbito social da ditadura em relação aos locais de trabalho dos sujeitos entrevistados, expõe-se que os três docentes lecionavam em universidades públicas e privadas do estado do Rio Grande do Sul (RS). E, por isso, cabe colocar que esse Estado apoiou a ditadura militar. Segundo Ferreira (2017), a posição de apoio do RS ficou evidente quando o governo da época participou de uma reunião em apoio a Castelo Branco, nome que havia sido recém indicado a assumir a presidência, em 1964, após o golpe. Ainda como evidencia a autora, a cidade de Pelotas, onde se escreve esta pesquisa e que é uma das maiores do RS, teria apoiado o golpe militar, a partir de ofícios das associações voltadas ao comércio, que exaltaram as forças armadas e creditavam aos militares a ordem na cidade. Assim, pode-se perceber a legitimidade social que era facultada para atos de violência, por exemplo, dentre outros, por entidades formais e pelo próprio Estado.
Já em relação aos ambientes em que as três entrevistas narrativas foram geradas, atendeu-se o pedido individual de cada um dos sujeitos. Portanto, as entrevistas ocorreram, na casa da professora Olga, na casa do professor Chico e, com Horácio, em uma cafeteria próxima à universidade em que ele trabalhava. Ainda que se acredite que por se tratar de um ambiente familiar, onde esses professores vivem e passam a maior parte do tempo, os deixa muito à vontade para contar suas histórias e experiências de vida, isso não muda pelo fato de Horácio narrar sua história de vida em seu antigo local de trabalho. De qualquer forma, esse ambiente propiciou que sua narrativa fosse contextualizada em um sentido mais profissional e social do que pessoal, como ocorre com os demais sujeitos. Além disso, ainda cabe colocar que havia uma certa ligação entre entrevistador e entrevistados pela profissão docente, o que também influencia na forma de exposição das narrativas. Conforme explicam Freitas e Moita Lopes (2017), as
performances narrativas são eventos situados que dependem dos aspectos contextuais que são mobilizados nesses momentos de entrevistas.