4.3 Execução do projeto de texto
4.3.1 Execução do projeto de texto: primeira escritura
Conforme as demais produções, alguns fenômenos mantiveram-se, como a inserção, a correção, apagamento, cópia e substituição. Houve a realocação de lugar de sentenças, indicada no subtópico 3.3 do mapeamento apresentado no Apêndice D. Chama-se atenção, especificamente, a um fenômeno que já ocorreu em outras etapas e que já foi analisado em outros trabalhos: a substituição por sinonímia lexical (AIOLFI, 2018; AIOLFI; LIMA; LEMOS GRITTI, 2020). Aqui, tal estratégia adquire novas feições, ainda não abordadas.
Contudo, antes de iniciar a análise do fenômeno, apresentam-se no quadro abaixo as instruções dos professores dadas aos articulistas antes do início da produção.
Quadro 7: Transcrição das instruções dos professores antes do início da primeira produção da etapa da execução do projeto de texto.
Professor
Professora Professor
nós identificamos problemas e aí é sobre isso que nós queríamos falar com vocês hoje... antes de vocês darem continuidade... finalizarem o projeto e já execuTArem esse artigo fazer realmente a produção desse artigo... qual é a meta pra hoje né?... vocês precisam... entregar o artigo pon/ pronto... hoje... até às cinco da tarde
uhum
ó... ((olhando para seu relógio de pulso)) agora são o quê... duas... e...
quarenta... né... então a gente passa aqui uns vinte minutos dando a devolutiva do::: dos projetos que vocês fizeram... né aí com base nessa devolutiva vocês finalizam o projeto ajustam o que tem que ajustar e já partem pra... éh:::
executar fazer... essa produção textual esse artigo de opinião e entregar até até umas cinco da tarde... ok?... combinado?
Fonte: A autora (2020).
Relembrando o processo da articulista, verifica-se que ela não finalizou o projeto de texto no encontro anterior pois retirou-se mais cedo do que o horário previsto. Neste encontro, destinado à primeira etapa da execução do projeto, não há a retomada, por ela, do projeto. Ou seja, ela não "completa" seu ponto de vista oposto e nem ajusta os argumentos questionados pelo professor na devolutiva escrita.
Ademais, outra característica que desperta atenção nesta etapa é a preparação da articulista. Por meio das câmeras percebeu-se que ela trouxe um material de consulta consigo, uma folha de papel dobrada e guardada em seu bolso, constantemente consultada ao longo do processo. Além disso, sentada no lugar 19 da sala, pôde-se acompanhar alguns movimentos realizados em seu celular, também consultado com frequência. Em alguns momentos torna-se nítido que a articulista rolava uma página de texto e realiza pausas de leitura da tela.
Infere-se, a partir dessas ações, que a articulista, de antemão, sabia que o projeto de texto entregue ao interlocutor não estava de acordo com o que pretendia entregar, não era o ideal. Assim, leitura, escritura, produção e recepção não se encontraram adequadamente nesta etapa, pois a articulista finalizou a escritura de maneira apressada (GRÉSILLON, 2007b, p. 42).
Com isso, a articulista quebra com uma das particularidades da alternância dos sujeitos na cadeia dialógica: a conclusibilidade. A articulista estava ciente de que não havia dito tudo que gostaria de dizer sobre o tema, mas mesmo assim encerra sua atividade, entregando o enunciado para uma atitude responsiva do seu par mais capaz (BAKHTIN, 2016; VYGOTSKI, 1991). Ainda que não concluído, a relativa forma típica do gênero redacional (RUIZ, 1998, p.
08) possibilitou a resposta do professor, a sua devolutiva, apresentada na página 109.
A partir da devolutiva, analisa-se que os argumentos selecionados pela articulista não mantinham coerência com sua temática e posicionamento, o que a fez alterá-los. Na escritura do segundo parágrafo, por exemplo, há o desenvolvimento de um argumento relacionado à superlotação, descartada da temática e do posicionamento na reescritura do projeto de texto.
Para melhor esclarecimento dos dados, apresenta-se, na página seguinte, a primeira escritura da execução do projeto de texto, bem como a devolutiva elaborada sobre ela.
Um fenômeno que se destaca nesta produção é o trabalho da articulista com blocos de palavras. Por meio do relatório revision, em uma análise visual, verificou-se que o maior bloco em normal production foi composto por dezesseis palavras. A maior parte deles foi escrita com seis ou sete palavras (considerando a tecla de espaço como o intervalo entre termos). Esse dado reitera, mais uma vez, a proximidade dos jatos da escritura com os jatos da fala, refletindo o ritmo do pensamento, falando com outro ou falando consigo mesmo (AKINNASO, 1982, p.
107). Chafe (1982 apud AKINNASO, 1982, p. 107) identifica, no discurso espontâneo, o tamanho de seis palavras por jato, semelhante à maior parte da produção da articulista.
Além disso, essa característica indica o ethos de uma aluna em processo de aprendizagem, tateando um gênero escolar em uma situação tipicamente escolar (RUIZ, 1998;
AMOSSY, 2011; MAINGUENEAU, 2014). Pelo enunciado apresentado e pela postura assumida no diálogo com o professor, de assimetria (GALEMBECK, 2010), percebe-se que ela assumiu tal imagem discursiva.
Figura 18: Devolutiva do professor sobre a primeira escritura da execução do projeto de texto da articulista.
Fonte: Arquivo do grupo de pesquisa LAD'Humano (2018).
No segundo parágrafo percebe-se um movimento em torno do bloco "apesar de terem".
O jato é uma inserção, produzida no texto depois que a sentença em que foi incluída já havia sido escriturada. A inserção é verificada na Figura 19.
Figura 19: Inserção de "apesar de terem".
Fonte: A autora (2020) - Captura de tela de relatório do Inputlog.
A inserção pode ser caracterizada como um bloco de posicionamento, além de ter função referencial ao conectar a ideia de contradição entre os apontamentos (BIBER;
BARBIERI, (2007, p. 270). Além disso, apresenta diversas características do tipo textual de argumentação interpessoal, iniciando pelo aspecto oral do bloco, argumentativo e coloquial.
Também estão presentes a elipse do sujeito, em primeira pessoa, a forma infinitiva pessoal e a oração controlada por uma locução prepositiva (BERBER SARDINHA, 2017, p. 498-500).
A função da inserção é a de dar sentido à sentença. Antes de sua produção havia
"porém pessoas defendem que o homem recebe o que ele merece mas se isso não for combatido [...]", uma indicação sem sentido completo. Ou seja, há a função de torná-la mais clara para o interlocutor, que determina a qualidade da argumentação (VOLOCHÍNOV, 2017;
(PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005).
Alguns minutos depois, essa inserção adquire maior caráter de posicionamento argumentativo. Ocorre uma substituição por sinonímia, já analisada em Aiolfi (2018) e Aiolfi, Lima e Lemos Gritti (2020). Contudo, a sinonímia aparece, aqui, como secundária ao aspecto da formalidade discursiva. A substituição é apresentada na Figura 20, a seguir.
Figura 20: Substituição de "apesar de terem" por "apesar de existirem".
Fonte: A autora (2020) - Captura de tela de relatório do Inputlog.
A palavra "apesar" é selecionada e substituída por "Entretanto,", mas logo é inserida novamente no bloco "apesar de existirem". O tom argumentativo de "apesar de existirem" é diferente quando analisado juntamente às reformulações de "porém" por "entretanto" e de
"dizem" por "afirmam", a última ocorrendo depois da substituição do bloco e pode ser observada nas Figuras 19 e 20 (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 170). Diante da opção previamente disponível, "apesar de existirem" apresenta-se mais formal, além de adequada à norma-padrão, que, teoricamente, não aceitaria o verbo "ter" no sentido de existência. Contudo, na argumentação interpessoal, isso torna-se compreensível (BERBER SARDINHA, 2017, p. 498-500).
Nesse ponto nota-se uma preocupação diferente da articulista com seu ethos, pois ela passa a projetar sua imagem no discurso com base na incidência de que o leitor construirá uma imagem dela a partir do que lerá (AMOSSY, 2011, p. 09). Ou seja, para aumentar a credibilidade de sua argumentação, empregou um bloco mais formal, um jato curto, porém com carga argumentativa elevada.
Dessa maneira, o auditório social estável visualizado pela articulista, no caso, o professor como segundo leitor de seu texto, formou sua motivação e avaliação interiores, que se materializaram em um jato de palavras mais formal, com a finalidade de convencer pela formalidade (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 205).
O auditório também é formado, aqui, pela colega que a auxiliou na substituição de
"apesar" por "Entretanto", o que difere a substituição do bloco de palavras em questão por uma troca de sinônimos, apenas. Ao colocar a reformulação à prova da colega, a articulista prepara seu texto para o próximo interlocutor.
Ademais, essa reformulação foi detectada em um momento de elaboração, que é a fase de correções e edições, já que ela havia finalizado o parágrafo e, aparentemente, estava realizando uma leitura do todo (GRÉSILLON, 2007a, p. 138). Por não ter aparecido em outro momento na fase do projeto de texto, por exemplo, infere-se que a adequação discursiva com relação ao interlocutor e ao ethos ocorra, com maior ênfase, em um sujeito em fase de aprendizagem de um gênero escolar, no momento revisional.