Estando claro o caráter processual da escritura, parte-se para a discussão de conceitos-base para a análise de tal processo. Esses conceitos advêm, principalmente, de Bakhtin (2016), Volochínov (2013; 2017), Vygotski (1991) e Vigotsky (2009). A articulação entre os autores é possível pelos seus pontos comuns de preocupação científica. Bakhtin e Volochínov, participando do mesmo círculo de estudos, propõem um estudo da linguagem em seu processo de formação e desenvolvimento. Vigotski entende que todo e qualquer fenômeno deve ser estudado "[...] como um processo em movimento e mudança, buscando-se conhecer sua gênese e transformação. Todo fenômeno tem sua história e essa história é caracterizada por mudanças quantitativas e qualitativas" (FREITAS, 1997, p. 315). Assim, percebe-se que as questões processual, desenvolvimental e genética estão presentes nas teorias dos autores, e é esse o caminho que se pretende seguir neste trabalho.
Iniciando pelos conceitos que nomeiam este subitem, pensamento e linguagem, tem-se a colocação de Vigotsky (2009, p. 409) como central para a discussão: "[...] a relação entre o pensamento e a palavra é, antes de tudo, não uma coisa mas um processo, é um movimento do pensamento à palavra e da palavra ao pensamento", é um processo em desenvolvimento, de vaivém de um meio ao outro.
Vigotsky (2009, p. 409-410) afirma que a função do pensamento é a de "[...] unificar alguma coisa, estabelecer uma relação entre coisas. [...] o pensamento cumpre alguma função, executa algum trabalho, resolve alguma tarefa." Dessa forma, o pensamento desempenha uma função com o intuito de resolver algo problemático no curso da atividade. Essa atividade, no caso aqui analisado, é a atividade humana de escritura. O pensamento, em início como uma ideia, se desenvolve em direção à palavra, não sendo a linguagem mera expressão do pensamento. "O pensamento não se exprime na palavra mas nela se realiza" (VIGOTSKY, 2009, p. 410). A palavra, por sua vez, é por natureza um fenômeno puramente ideológico e, sendo ideológica, é parte da realidade material (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 193-194).
Assim, não é só expressão que o pensamento encontra na fala, mas sim uma reestruturação, uma modificação de realidade e forma (VIGOTSKY, 2009, p. 412; 2008, p.
158). O enunciado, então, não surge pronto, vai sendo construído conforme o pensamento
transforma-se em palavra. Ou seja, conforme a articulista escreve, o enunciado vai tomando forma, sendo um processo em andamento. Ela escreve em constante diálogo consigo mesma, na troca de posições entre escritora e leitora. Vigotsky (2009, p. 421) aponta que o falar, neste caso, o escrever, requer a transição do plano interior para o exterior, e a compreensão, neste caso, o ler, requer a transição do plano exterior para o interior. Assim, nesse movimento, o diálogo compõe o processo de escritura.
Essa transformação implica na diferença entre o plano do pensamento e o da linguagem. O pensamento é constituído pela simultaneidade de ideias, enquanto a linguagem precisa ser ordenada sequencialmente para que o sentido possa ser compreendido pelo interlocutor. Como essa passagem direta é impossível, "[...] surgem queixas contra a imperfeição da palavra e lamentos pela inexpressibilidade do pensamento [...]." (VIGOTSKY, 2009, p. 478). Por isso, a escritura, especificamente, é desenvolvida ao máximo, pois é necessário um maior número de palavras para realizar um pensamento específico, muito mais do que na fala (VIGOTSKY, 2009, p. 452).
O autor ainda trata da escritura ao mencionar o rascunho como uma atividade complexa.
O caminho entre o esboço e o ato de passar a limpo é uma via de atividade complexa, mas até mesmo quando não há cópia fatual o momento da reflexão no discurso escrito é muito forte; muito amiúde falamos primeiro para nós mesmos e depois escrevemos:
aqui estamos diante de um rascunho mental. Esse rascunho da escrita é a linguagem interior [...] (VIGOTSKY, 2009, p. 457)
Retoma-se aqui a questão do escritor como seu primeiro leitor apresentada por Grésillon e Lebrave (1983). Vigotsky (2009) destaca o rascunho mental como sendo a linguagem interior na escrita. A função da linguagem interior é a de orientar o pensamento na direção da atividade a ser desempenhada, é "[...] um plano interior específico de pensamento verbal, que medeia a relação dinâmica entre pensamento e palavra" (VIGOTSKY, 2009, p.
473). A atividade no processo de escritura é a de transformar o pensamento em palavras enfrentando todos os obstáculos presentes nessa transformação, materializados nas pausas, hesitações e falsos inícios.
Assim, nessa relação dinâmica entre pensamento e palavra, em que o primeiro existe no plano da simultaneidade e a segunda no plano da sequencialidade, ocorre a atividade humana. Lima (2010) destaca tal relação no conceito da Atividade Reguladora. Segundo o autor, muitas coisas são realizadas simultaneamente em uma atividade. Enquanto se aprende tal atividade, tal qual a de escritura, objeto de aprendizagem na Oficina na qual os dados foram
produzidos, não se domina de início todos os aspectos que compõem a atividade. Devido a isso, há o foco em um aspecto específico no fluxo normal de desenvolvimento até que se encontre um problema, um obstáculo que impossibilite a atividade de seguir seu fluxo normal e exija atenção para ser resolvido. A oscilação entre dominar um aspecto da atividade e dominar outro simultaneamente é o que corresponde à atividade reguladora (LIMA, 2010, p. 223).
Lima (2010) estabelece ligação entre a atividade reguladora e a fala egocêntrica, conceito desenvolvido inicialmente por Piaget (1923/1999) mas revisitado por Vygotski (1991), sendo ela a fala exteriorizada pela criança com a função de acompanhar sua atividade e que, com o passar do tempo, silencia-se e torna-se linguagem interior, mantendo função semelhante.
Lima (2010, p. 225, grifos do autor) diz que
[...] a Atividade Reguladora corresponde a uma fase transitória na evolução da atividade exterior para a atividade interior. Do ponto de vista funcional, a Atividade Reguladora desempenha funções intelectuais do mesmo modo que a atividade interior; do ponto de vista estrutural, a Atividade Reguladora possui uma estrutura próxima da da atividade interior; do ponto de vista genético, isto é, do desenvolvimento, a Atividade Reguladora passa para e se transforma em atividade interior. O papel da Atividade Reguladora é auxiliar o aprendiz a se orientar mentalmente, a tomar consciência, a superar dificuldades e obstáculos, a refletir e a pensar, corresponde a uma atividade que ele dirige a si mesmo, auxiliando de modo íntimo seu pensamento.
A Atividade Reguladora tem, então, características funcionais, estruturais e genéticas que a aproximam da atividade interior, dirigida a si mesmo, tal qual a escritura é dirigida primeiramente para o próprio escritor. Ou seja, a atividade de escritura, em seu aspecto processual, pode ser caracterizada como Atividade Reguladora por atuar na relação escritor-leitor enquanto elaboradores de uma atividade de transição entre os meios interno e externo.
Esses meios são o que Vygostki (1991, p. 41) chama de planos interpessoal e intrapessoal. O primeiro constitui o plano de relação social entre pessoas, e o segundo constitui o plano de relação no interior do indivíduo. Ou seja, o primeiro ocorre do meio para o indivíduo e o segundo ocorre do indivíduo para o meio. A transformação dos processos interpessoais para intrapessoais é o que o autor chama de internalização, que é "[...] a reconstrução interna de uma operação externa" (VYGOTSKI, 1991, p. 40). Em outras palavras, sem os outros, sem os interlocutores de um discurso, nenhum processo externo poderia tornar-se interno. Toda expressão linguística é sempre orientada para o outro, mesmo que esse outro não exista como pessoa real (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 157).
A partir da internalização, a linguagem, processo externo, torna-se interno. A linguagem, agora interior, passa a ter função não de acompanhamento da atividade, mas sim da
orientação mental, da compreensão ativa, ajudando a superar dificuldades encontradas no percurso da atividade (VIGOTSKI, 2008, p. 166). Volochínov (2013, p. 147) observa que a linguagem interior é o fluxo de palavras observado em nós mesmos que dá forma aos atos da consciência. Assim, para tomar consciência de algo é preciso expressar isso de algum modo para incorporá-lo à linguagem interior. "Sem linguagem interior não existe consciência, assim como não existe linguagem exterior sem linguagem interior" (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 155), a consciência só existe quando é preenchida pelo conteúdo ideológico (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 95).
Volochínov (2017, p. 218) afirma que a realidade da linguagem é puramente social.
Sendo assim, a interação discursiva é a realidade fundamental da língua. A interação discursiva ocorre por meio de enunciados, que são o elo da comunicação, a "[...] real unidade da comunicação discursiva" (BAKHTIN, 2016, p. 28).
A linguagem, sendo fruto da interação entre interlocutores, é social antes de se tornar individual. Bakhtin (2016, p. 11) traz um de seus principais apontamentos sobre a linguagem ao destacar que "todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem" e que "o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos [...]." A particularidade do enunciado se dá em seu emprego, único e irrepetível, por um integrante do grupo social. No entanto, os campos de atividade humana repetem elementos de cada enunciado, utilizando "tipos relativamente estáveis" de enunciado, os gêneros do discurso (BAKHTIN, 2016, p. 12, grifos do autor).
Os gêneros do discurso são caracterizados por seu conteúdo temático, estilo, construção composicional e endereçamento do enunciado, a relação interlocutiva (BAKHTIN, 2016, p. 11-12; 68), ligados às esferas e atividades humanas. Além disso, podem ser classificados em gêneros primários e secundários. Os primeiros são os chamados simples, como o diálogo cotidiano. Já os segundos são os chamados complexos, nos quais se enquadra o discurso escrito (BAKHTIN, 2016, p. 15).
Configurando-se como uma unidade, o enunciado tem limites precisos, definidos pela alternância dos sujeitos do discurso (BAKHTIN, 2016, p. 29), pois qualquer comunicação discursiva, independentemente de sua forma, é diálogo (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 219). Antes do seu início há os enunciados de outros; após seu fim, os enunciados responsivos dos outros (BAKHTIN, 2016, p. 29).
A conclusibilidade do enunciado ocorre na alternância dos sujeitos pois o falante (ou escrevente) disse tudo o que pretendeu dizer naquele momento e naquelas condições em que ocorria o diálogo. Com isso, tem-se um importante critério apontado por Bakhtin (2016, p. 35)
para a conclusibilidade: a possibilidade de responder ao enunciado. Essa possibilidade é determinada por três elementos, sendo eles a exauribilidade do objeto, o projeto de discurso ou vontade do falante/escritor e as formas típicas do gênero (BAKHTIN, 2016, p. 36).
A exauribilidade do objeto diz respeito à relativa conclusibilidade do tema do enunciado nas condições em que é centro do discurso. Com a ideia definida pelo autor, há um recorte temático do objeto, que é aquilo a ser tratado no discurso. É uma possibilidade de exploração do objeto, dentre as infinitas possíveis (BAKHTIN, 2016, p. 36-37). Ademais, qualquer que seja o objeto escolhido para se tornar tema do enunciado, ele não o é pela primeira vez. O objeto já foi abordado de diferentes modos, por diferentes pontos de vista (BAKHTIN, 2016, p. 61). Ou seja, o objeto é alvo de conflito antes mesmo de ser escolhido para determinado enunciado.
Já o projeto de discurso é determinado pela intenção discursiva do sujeito. O projeto é enunciado interior que se desdobra para se realizar externamente. Existe luta entre planejamento e execução por, dentre outras razões, haver impossibilidade da realização direta do pensamento em palavras (VIGOTSKY, 2009, p. 478). A vontade do autor do enunciado vai determinar a totalidade, o volume e as fronteiras do enunciado (BAKHTIN, 2016, p. 37).
As formas típicas do gênero são relacionadas à maneira com a qual os gêneros nos são dados. Se cada gênero do discurso precisasse ser criado em toda nova situação comunicativa, a comunicação seria quase impossível (BAKHTIN, 2016, p. 38-39). O signo ideológico é inserido materialmente no organismo, e a sua existência material, passada adiante pela cadeia enunciativa, possibilita a detecção e o uso de formas relativamente estáveis de discurso. Por isso, por estar ligado a uma cadeia enunciativa de caráter ideológico, um enunciado jamais pode ser visto como "[...] uma combinação absolutamente livre de formas da língua [...]"
(BAKHTIN, 2016, p. 42, grifos do autor).
É por isso que não se inicia um discurso totalmente do nada, pois
Quando construímos o nosso discurso, sempre trazemos de antemão o todo do nosso enunciado, na forma tanto de um determinado esquema de gênero quanto de projeto individual de discurso. Não enfiamos as palavras, não vamos de uma palavra a outra, mas é como se completássemos a totalidade com as devidas palavras. (BAKHTIN, 2016, p. 51, nota de rodapé)
Assim, além dos limites pré-estabelecidos pelo gênero por meio do qual pretende-se comunicar algo sobre um objeto, há também o limite da intenção do sujeito. Contudo, tanto o gênero quanto a intenção do sujeito são moldados pelo campo ideológico de atividade humana no qual se está inserido. Volochínov (2013, p. 138, grifos do autor) indica que "por ideologia
entendemos todo o conjunto de reflexos e interpretações da realidade social e natural que se sucedem no cérebro do homem, fixados por meio de palavras, desenhos, esquemas ou outras formas sígnicas." Por isso, "qualquer palavra, dita ou pensada, exprime um ponto de vista a respeito de vários acontecimentos da realidade objetiva, em diferentes situações"
(VOLOCHÍNOV, 2013, p. 196). Dessa forma, o discurso é influenciado por uma interpretação específica da realidade, não existindo, então, discurso neutro. A partir de um "molde" geral preenchem-se os "espaços em branco" do texto, com algo pré-determinado, em maior ou menor grau, semelhante às intonation units previamente exploradas (CHAFE; DANIELWICZ, 1987).
Conforme são utilizados pelo sujeito pertencente a um grupo social, mais domínio o sujeito terá sobre o gênero, que será empregado com maior desenvoltura e, assim, com cada vez mais individualidade (BAKHTIN, 2016, p. 41). A desenvoltura no gênero ocorre de forma gradual, e isso influencia na oscilação que o sujeito enfrenta nas escolhas feitas ao longo do processo. Lima (2016) trata da falta de articulação ao gênero que parte de uma situação de não domínio ao domínio do gênero. Não é apenas uma questão de falta de domínio, mas sim de atividade, ou seja, o sujeito desenvolve-se no gênero conforme domina a atividade. O sujeito percorre o caminho da inabilidade para a habilidade genérica, no qual esforça-se para atender às especificidades do gênero e às do público-alvo imaginado por ele.
Destarte, o caminho percorrido se assemelha ao caminho da linguagem e do pensamento, da atividade exterior para a interior, que é o da transformação de um processo exterior para um interior, ou seja, a internalização. Na teoria vigotskiana, um dos momentos mais significativos da internalização ocorre quando a fala e a atividade, duas linhas divergentes, convergem. A comunicação verbal não existiria caso o gestual e o verbal se mantivessem apenas no plano exterior. É preciso que se tornem signo interior, linguagem interior, para que haja a compreensão do signo e a resposta a ele (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 143). Isso só acontece em um contexto de interação em que o adulto, um par mais capaz, interage com a criança (FREITAS, 1997, p. 321). As pessoas que interagem com a criança não interagem passivamente, elas são companheiras que atuam como agentes que guiam, planejam e orientam seu aprendizado (FREITAS, 1997, p. 322), agindo de forma dialógica.
A interação da criança com um par mais capaz é estudada por Vygotski (1991) na relação entre aprendizado e desenvolvimento, e é estendida aqui para o caso da Oficina na qual os dados desta pesquisa foram produzidos. Vygotski (1991, p. 57) identifica dois níveis de desenvolvimento: o real e o potencial. O primeiro corresponde aos níveis de desenvolvimento já completados pela criança, abrangendo aquilo que já consegue realizar sozinha. O segundo
corresponde aos níveis de desenvolvimento que a criança consegue realizar ao receber auxílio de um par mais capaz.
Entre esses dois níveis há uma distância. Entre o desenvolvimento real e o potencial há a chamada zona de desenvolvimento proximal, que é aquela em que há a ação do par mais capaz para ajudar o indivíduo a passar do desenvolvimento real para o potencial (VIGOTSKY, 2009, p. 58). O aprendizado ocorre, então, quando se cria a zona de desenvolvimento proximal, quando se despertam processos internos de desenvolvimento que guiam o sujeito ao desenvolvimento potencial. Quando internalizados, depois de passarem pelo processo de internalização, tornam-se parte do domínio do indivíduo (VIGOTSKY, 2009, p. 60-61). Na Oficina, o par mais capaz é representado pelo professor, que auxilia e dá a devolutiva sobre as versões produzidas pela articulista. Contudo, em alguns momentos, esse papel é assumido pela própria articulista enquanto sua primeira leitora, seu primeiro público quando, por exemplo, precisa realizar uma decisão entre diferentes escolhas disponíveis.
Quando escolhe uma palavra para tomar parte do texto, a articulista dirige seu discurso para alguém, para algum público. O texto, sempre inserido em um contexto específico, potencializará essa palavra para que atinja seus objetivos. Vigotsky (2009, p. 465) trata do sentido da palavra, que muda facilmente dependendo do contexto em que é empregada. Assim, ele estabelece a diferença entre significado e sentido, sendo o primeiro apenas uma das formas que o sentido pode obter, sendo ela a mais estável. O sentido, ao contrário, não é estável, e realiza o significado imutável potencialmente em cada contexto. Dessa forma, há uma relação dinâmica entre palavra e contexto. O contexto dá o tom afetivo da palavra, o seu impacto, desejado ou não, sobre o leitor. Esse tom é diferente daquele dado quando a palavra é considerada isoladamente, como parte de um sistema da língua (VIGOTSKY, 2009, p. 465-466).
Tratando do fenômeno da substituição identificado por Fabre (1990) e Biasi (2000), pode-se estabelecer uma relação com a independência das palavras em face do sentido destacada por Vigotsky (2009, p. 467). Segundo o autor, o sentido da palavra pode ser dela separado e fixado em outra palavra. Por isso, pode ser substituída por outra, em certos casos, sem que haja mudança no sentido. Assim, a substituição no processo de escritura tem mais relação com o sentido total da ideia do que com a palavra especificamente, pois o sentido pode ser dela separado. Bakhtin (2016, p. 51) destaca que "[...] a emoção, o juízo de valor e a expressão são estranhos à palavra da língua e surgem unicamente no processo do seu emprego vivo em um enunciado completo [...]". Dito de outro modo, o sentido da palavra não pertence à ela, mas sim ao enunciado completo no qual foi empregada.
Isso posto, pode-se encarar a escolha e a ordenação dos elementos que compõem um enunciado como problemas. Primeiro, o problema de escolha das palavras. Segundo, o problema da enunciação dessas palavras, da redação da obra, de como compô-la (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 131-132). Assim, o sujeito vê-se diante de um material, o material verbal, que já é significado anteriormente e que não pode ser empregado sem que regras sejam seguidas (VOLOCHÍNOV, 2013, p. 133) e, dessa maneira, esbarra-se novamente no problema de que não bastam as palavras para expressar aquilo que é pensado (VOLOCHÍNOV, 2013, p.
145; VIGOTSKY, 2009, p. 478).
Clot (2006, p. 230) indica que, de acordo com Vygotski,
[...] o pensamento não é a última instância no processo da existência humana. O pensamento não nasce em um outro pensamento, mas nas nossas necessidades, nossos interesses, nossos motivos: planos de fundo do pensamento. Assim, não se compreende o pensamento a partir dele mesmo, mas como um ato no mundo e sobre si.
Destarte, por trás de cada enunciado existe uma tarefa de escolha a ser realizada de acordo com a vontade, com o projeto discursivo do sujeito. Vigotsky (2009, p. 481) indica o caminho do pensamento verbal, que parte "[...] do motivo, que gera algum pensamento, para a enformação do próprio pensamento, para sua mediação na palavra interior, depois nos significados externos das palavras e, por último, nas palavras."
As palavras que se realizam são possibilidades dentre infinitas possíveis. Vigotski (1996, p. 67; 69) diz que o comportamento humano é "um sistema de reações triunfantes" e que
"cada minuto do homem está cheio de possibilidades não realizadas." O pensamento nasce, então, de um conflito entre as possibilidades de escolhas não realizadas e a ínfima possibilidade que se realiza. A luta entre as escolhas disponíveis constitui o diálogo do sujeito consigo mesmo, que precisa deliberar sobre um ato no mundo e sobre si. No discurso, isso representa uma luta feroz entre os elementos linguísticos que comporão o enunciado. Em trabalhos anteriores (AIOLFI, 2018; AIOLFI; LIMA; LEMOS GRITTI, 2020) analisamos essa luta na reformulação por sinonímia lexical, fenômeno que demonstra com clareza a disputa entre possibilidades e o triunfo de uma delas.